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Quem são os grupos da 'ultraesquerda' apontados por Macron após os episódios de violência na França?

Depois das cenas de saques, vandalismo e destruição de patrimônio registradas em Paris e em outras cidades francesas, o presidente Emmanuel Macron atribuiu parte da responsabilidade pelos atos a grupos da chamada "ultraesquerda". "Atos políticos, e até mesmo sediciosos, foram conduzidos por grupos organizados de ultraesquerda que visam derrubar a República", declarou. Mas, afinal, quem são esses militantes?

23 out 2026 - 13h12
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Resumo
Apontada por Macron após atos violentos na França, a "ultraesquerda" reúne cerca de 5 mil militantes anarquistas, autonomistas e antifascistas que rejeitam partidos e eleições, defendendo ações diretas. Sem consenso na definição, o termo acadêmico difere do policial, que o usa para rotular grupos em confrontos urbanos. Especialistas alertam que, embora atuem em protestos e atos de vandalismo, seu tamanho e influência real são minoritários e costumam ser exagerados pelo discurso político.

A resposta está longe de ser consensual. O próprio termo "ultraesquerda" é objeto de debate entre pesquisadores, autoridades e serviços de inteligência.

"Quando nós, pesquisadores, utilizamos essa expressão, trata-se de um termo da ciência política. Mas, quando são os agentes políticos ou a polícia que o mencionam, a situação já não é tão clara", explica à RFI o historiador Sylvain Boulouque, especialista em sindicalismo e comunismo.

Segundo ele, a ultraesquerda reúne correntes revolucionárias situadas à esquerda da esquerda tradicional, que rejeitam a participação eleitoral, os partidos políticos e, frequentemente, também os sindicatos.

"De forma simples, pode-se dizer que a ultraesquerda designa correntes de esquerda revolucionária que rejeitam o jogo eleitoral", resume o pesquisador.

O termo, portanto, não se refere à esquerda em geral nem aos partidos progressistas que disputam eleições. Trata-se de uma nebulosa de grupos anarquistas, autonomistas e antifascistas que defendem transformações radicais da sociedade por meio da ação direta e da auto-organização.

Cerca de 5 mil militantes na França

A dificuldade começa justamente na definição. O cientista político Arthur Pouliquen, especialista no movimento autônomo francês ouvido pelo jornal Libération, explica que existem duas interpretações distintas do conceito. A primeira é acadêmica, mais restrita e historicamente definida. A segunda é a utilizada pelos serviços de segurança, que classificam como "ultraesquerda" diversos grupos de contestação envolvidos em ações violentas ou confrontos com as forças de ordem.

Essa distinção aparece inclusive em um relatório da inteligência interna francesa, a DGSI, que reconhece não haver consenso sobre a definição do termo. Ainda assim, o documento descreve a ultraesquerda como uma corrente não legalista da extrema esquerda que rejeita os partidos políticos e aceita o uso da violência para promover transformações sociais.

Segundo a DGSI, esse universo reuniria atualmente cerca de 5 mil militantes na França.

Uma história que começa há mais de um século

A origem dessas correntes remonta à década de 1920, na Rússia e na Alemanha.

O próprio Vladimir Lênin utilizava o termo "ultraesquerda" para criticar militantes revolucionários que recusavam participar das instituições políticas, dos parlamentos e dos sindicatos.

Na França, a corrente reapareceu em diferentes momentos do século XX. Entre seus representantes intelectuais estão os situacionistas liderados por Guy Debord e grupos ligados às revistas e movimentos revolucionários das décadas de 1950 e 1960.

Mais tarde, nos anos 1980, surgiu a organização armada Action Directe, responsável por atentados e assassinatos políticos. Foi nesse período que a palavra "ultraesquerda" ficou associada à violência política.

Uma ameaça real ou um conceito vago?

A socióloga Isabelle Sommier, especialista em violência política e coautora de estudos sobre o tema, também citada no Libération, considera que militantes desse universo participaram dos confrontos recentes na França, mas alerta contra exageros. Segundo ela, afirmar que a ultraesquerda dirige ou controla movimentos sociais que mobilizam centenas de milhares de pessoas seria atribuir a esses grupos uma influência muito superior à sua capacidade real de mobilização.

Uma análise semelhante é feita pelo sociólogo Michel Kokoreff, professor da Universidade Paris-8 e autor do livro Spectre de l'ultragauche (O espectro da ultraesquerda, em tradução livre). Para ele, "ultraesquerda" tornou-se uma expressão frequentemente utilizada por políticos e agentes de segurança para designar de maneira ampla diferentes formas de contestação social.

Kokoreff sustenta que esses grupos defendem princípios como democracia direta, autonomia, autogestão e ausência de hierarquia. Por isso, considera equivocada a associação feita por alguns políticos entre a ultraesquerda e partidos como o A França Insubmissa (LFI), de esquerda radical. "Representam universos políticos completamente diferentes", argumenta o pesquisador.

O que fazem esses grupos hoje?

Ao contrário da imagem transmitida por alguns discursos políticos, os especialistas observam que as ações atuais da ultraesquerda francesa estão mais associadas a manifestações, confrontos de rua e danos a propriedades do que a campanhas armadas como as dos anos 1980.

Nas últimas décadas, o termo reapareceu durante os protestos contra a reforma trabalhista, nas manifestações dos "coletes amarelos", nos movimentos ambientalistas e em mobilizações marcadas pela presença dos chamados black blocs.

Segundo os pesquisadores, esses grupos continuam sendo uma minoria muito reduzida dentro do amplo campo dos movimentos sociais franceses. A principal divergência está em saber até que ponto eles representam uma ameaça organizada à ordem pública ou se a expressão "ultraesquerda" se tornou uma categoria ampla demais, utilizada para descrever realidades políticas bastante diferentes.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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