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Líderes da esquerda francesa alertam no Le Monde para 'perigo' de eleição de Flávio Bolsonaro no Brasil

A disputa pela Presidência do Brasil ganhou um significado que ultrapassa as fronteiras do país. Em um editorial opinativo publicado nesta quinta-feira (22) pelo jornal francês Le Monde, dirigentes da esquerda francesa afirmam que uma vitória da extrema direita brasileira pode contribuir para legitimar projetos políticos semelhantes na Europa, às vésperas da eleição presidencial francesa de 2027.

22 out 2026 - 16h07
(atualizado às 16h36)
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Resumo
Líderes da esquerda francesa alertaram no jornal Le Monde sobre o risco de uma vitória de Flávio Bolsonaro contra Lula na eleição presidencial do Brasil. Segundo os signatários, um triunfo bolsonarista pode fortalecer a extrema direita global, normalizar discursos radicais e impulsionar a candidatura de Marine Le Pen na França em 2027. O grupo também manifesta preocupação com os impactos ambientais na Amazônia, o alinhamento com Donald Trump e a estabilidade das instituições democráticas brasileiras.

"Cada vitória da extrema direita no exterior torna mais aceitável essa possibilidade em nosso país", afirmam os signatários, entre eles Jean-Luc Mélenchon, fundador da França Insubmissa, Marine Tondelier, dirigente dos Ecologistas, e Fabien Roussel, do Partido Comunista Francês.

Os candidatos à presidencia do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (direita) e Flávio Bolsonaro, em um debate em São Paulo, em 18 de outubro de 2026
Os candidatos à presidencia do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (direita) e Flávio Bolsonaro, em um debate em São Paulo, em 18 de outubro de 2026
Foto: © Nelson Almeida / AFP / RFI

O alerta ocorre três dias antes do segundo turno brasileiro, marcado para domingo (25), entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para os dirigentes franceses, o resultado da eleição brasileira pode repercutir no debate político europeu e fortalecer movimentos que compartilham pautas nacionalistas, conservadoras e de confronto com instituições democráticas.

A preocupação tem endereço eleitoral definido. Em 2027, a França escolherá um novo presidente, em uma disputa na qual o Reunião Nacional, partido de extrema direita liderado por Marine Le Pen, pretende ampliar sua influência e conquistar o poder.

A tribuna apresenta a eleição brasileira como parte de uma disputa política internacional. A ideia central é que vitórias eleitorais da direita radical em diferentes países podem ajudar a tornar suas propostas mais aceitáveis em outras sociedades, reduzindo a percepção de que representam uma ruptura com os padrões democráticos.

A comparação, entretanto, expressa a avaliação política dos signatários e não um consenso da sociedade francesa. Os sistemas políticos e as trajetórias eleitorais dos dois países têm diferenças importantes.

O Brasil no centro da disputa

O peso brasileiro ajuda a explicar a atenção dedicada à eleição. Maior economia da América Latina, o país tem influência sobre as relações diplomáticas regionais, as negociações climáticas e o equilíbrio político do continente.

Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia alterar a orientação internacional de Brasília e aproximar o governo brasileiro dos Estados Unidos de Donald Trump. Essa perspectiva preocupa setores da esquerda europeia, que veem a cooperação internacional como parte da resistência ao avanço da direita radical.

A disputa também envolve o futuro das políticas ambientais brasileiras. A Amazônia ocupa posição central nas negociações climáticas, e mudanças na legislação ambiental, na demarcação de terras indígenas ou na exploração de recursos naturais teriam consequências que não se limitariam ao território brasileiro.

A preocupação se estende às instituições democráticas. Depois dos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, e da condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, o futuro do sistema de freios e contrapesos permanece no centro do debate político brasileiro.

Os temores expressos pelos dirigentes franceses são projeções sobre um eventual governo de Flávio Bolsonaro, e não medidas já adotadas. Sua concretização dependeria, entre outros fatores, da composição do Congresso e dos limites constitucionais.

O precedente brasileiro

A experiência do governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, tornou-se uma referência recorrente nos debates europeus sobre a extrema direita. A contestação das instituições, os conflitos com o Judiciário e os ataques ao sistema eleitoral brasileiro são acompanhados por partidos e analistas que procuram entender como movimentos radicais se comportam depois de chegar ao poder.

O caso brasileiro também é relevante porque mostra que a derrota de um líder não implica necessariamente o desaparecimento de seu movimento. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência com o apoio político do pai e de uma direita que continua influente no Congresso e na sociedade.

A eleição francesa de 2027 dá uma dimensão adicional à preocupação dos signatários. Para eles, uma vitória bolsonarista poderia ser apresentada pelos movimentos de direita radical europeus como prova de que projetos semelhantes continuam eleitoralmente viáveis.

Isso não significa que o resultado brasileiro determine o voto dos franceses. A relação apontada pelos dirigentes é política e simbólica: uma vitória internacional pode servir de referência, fortalecer alianças e ampliar o espaço de ideias que antes encontravam maior resistência.

O editorial assinado pelas lideranças francesas também tem um objetivo explícito de campanha. Ao defenderem Lula, seus autores não se limitam a analisar as possíveis consequências internacionais do pleito; procuram influenciar o debate sobre o futuro político brasileiro.

A questão que colocam interessa também à França: até que ponto as vitórias eleitorais da extrema direita em um país ajudam a abrir caminho para movimentos semelhantes em outros, mesmo a 10 mil quilômetros de distância?

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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