Na véspera de novo protesto nacional, economia francesa preocupa analistas e mercados
Na véspera de um segundo dia nacional de mobilização contra o alto custo de vida, os principais jornais franceses desta sexta-feira (23) destacam a preocupação com o impacto econômico dos protestos. As análises apontam o temor de que a crise social e os episódios de violência registrados no útimo fim de semana afetem de forma duradoura a já debilitada economia do país e pressionem o financiamento da dívida francesa. A taxa de juros da dívida francesa ultrapassou a barreira dos 5%.
As tensões sociais e novos protestos contra o custo de vida na França intensificam os temores de uma crise econômica profunda. Comércio, turismo e investimentos já são afetados pela instabilidade, enquanto as projeções de crescimento despencam. A desconfiança dos mercados elevou os juros da dívida pública a mais de 5%, patamar recorde em 25 anos, agravando o cenário fiscal francês, que acumula dívida equivalente a 119% do PIB em meio a impasses políticos e riscos de nova escalada de violência.
Para o jornal Les Echos, a principal preocupação é com o impacto das tensões sociais sobre a atividade econômica. O diário destaca que, antes mesmo dos distúrbios de 17 de outubro, a confiança dos comerciantes já estava em queda.
Economistas ouvidos pelo jornal alertam que, se a instabilidade persistir, consumidores podem evitar os centros urbanos, turistas podem adiar viagens e empresas podem postergar investimentos. O resultado seria a transformação de uma crise pontual em um choque econômico mais profundo, em um momento em que o mercado de trabalho já dá sinais de enfraquecimento.
Em manchete de capa, Les Echos aponta que o governo estuda uma possivel antecipação do aumento do salário mínimo no país, que normalmente ocorre em primeiro de janeiro, de € 15 por mês. O gesto em resposta às reivindicações do movimento social elevaria o custo do trabalho e prejudicaria a competitividade francesa, alerta a Federação dos Empresarios Franceses.
Para analistas entrevistados pelo jornal, a combinação entre desaceleração econômica, inflação elevada e incerteza política aumenta os riscos para o crescimento nos próximos meses. O país pode crescer apenas 0,4% em 2026 e 0,5% em 2027. O governo enfrenta uma "equação quase impossível". A capacidade da França de controlar o déficit público é mais uma vez questionada, os investidores estão desconfiados e os juros da dívida voltaram a subir.
Pressão sobre os juros da dívida
O diário Le Figaro concentra sua análise na reação dos mercados financeiros. O jornal afirma que as imagens de violência transmitidas ao redor do mundo reforçaram a desconfiança dos investidores em relação à França. Como reflexo, a taxa de juros da dívida de 10 anos ultrapassou a barreira de 5%, atingindo o nível mais alto em cerca de 25 anos. Le Figaro observa ainda que os credores e as agências de classificação de risco avaliam não apenas a situação das contas públicas, mas também a capacidade do governo de garantir estabilidade e ordem.
Le Monde também alerta para o aumento da pressão sobre a dívida francesa. Embora a alta dos juros seja um fenômeno global, o jornal avalia que a situação francesa tem fatores próprios, como o bloqueio político e as tensões sociais atuais. Para o diário, o retorno dos juros a patamares não vistos desde 2002 reacende o debate sobre a vulnerabilidade das finanças públicas francesas e sobre quem poderia socorrer o país em um cenário extremo de crise da dívida. O Banco Central Europeu é a hipótese mais provável e uma intervenção do FMI é por enquanto descartada. No fim do segundo trimestre de 2026, a dívida francesa era de € 3 595,5 trilhões, o que representa 119 % do PIB do país.
"Este será o fim de semana de todos os perigos", prevê Le Parisien, temendo novas cenas de violência e confrontos com a polícia no sábado durante o segundo ato nacional contra o alto custo de vida. Libération se pergunta se a repressão e o forte esquema de segurança serão as únicas respostas do governo ao movimento social. Manifestações foram proibidas em várias cidades e os toques de recolher noturnos continuarão em vigor até a próxima segunda-feira (26).
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