Depois das críticas, Macron assume comando da segurança nas manifestações e recebe estudantes
Após mais de um mês de crise social e política, o presidente francês, Emmanuel Macron, passa a se envolver mais diretamente na tentativa de conter a tensão no país nesta sexta-feira (23). Pela primeira vez desde o início dos protestos, ele recebe líderes estudantis no Palácio do Eliseu e se reúne com representantes das forças de segurança, na véspera de uma nova jornada de mobilizações.
A seis meses das eleições, Emmanuel Macron assumiu a gestão da segurança na França para conter a onda de protestos violentos. Enquanto dialoga com estudantes sobre reivindicações na educação, o presidente endurece o discurso contra distúrbios e reforça o policiamento para novos atos, proibindo manifestações em várias cidades. Pressionado pelo avanço da extrema direita, o governo enfrenta forte crise social e fiscal, sob o risco iminente de rebaixamento de sua nota de crédito soberana.
A seis meses da eleição presidencial, em que a extrema direita aparece como favorita nas pesquisas, Macron tenta retomar a iniciativa política. Pela manhã, o presidente reúne o Conselho de Defesa para discutir novas medidas de segurança, após a adoção de toques de recolher e a proibição de manifestações em várias cidades nesta semana.
À tarde, ele recebe no Palácio do Eliseu representantes dos estudantes do ensino médio, antecipando-se ao primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, que só deve encontrá-los na segunda-feira (26). Hoje, Lecornu faz uma visita a Limoges (centro), onde a sede da prefeitura foi incendiada durante os distúrbios de 17 de outubro.
Na reunião com Macron, os estudantes pretendem reiterar suas principais reivindicações. "Vamos apresentar a ele nossas demandas, que continuam sendo as mesmas", afirmou à AFP Nathanaël Combary, presidente do grupo Renouveau Lycéen e militante do partido governista Renascença. Entre elas estão a melhoria das condições nas escolas e a reforma do Parcoursup, o sistema nacional de acesso ao ensino superior.
Nem todos, porém, acreditam que o encontro trará resultados concretos. Pierre Sourzat, líder da organização Les Lycéens, mostrou-se cético: "Ele vai nos ouvir, fingir que nos entendeu, e depois nada vai mudar".
O governo prometeu levar em consideração as propostas apresentadas pelos estudantes em uma plataforma online criada no início de outubro.
Apesar da abertura ao diálogo, o Executivo não dá sinais de flexibilização na área de segurança. Nesta sexta-feira, Macron deve se reunir com representantes das forças de segurança, em mais um gesto para reforçar a resposta do Estado aos protestos.
Na quinta-feira, o presidente pediu "maior dureza" contra os autores dos atos de violência e acusou grupos da ultraesquerda de terem tentado "derrubar a República" durante os confrontos registrados no último fim de semana.
A mesma linha foi adotada pelo ministro da Justiça, Gérald Darmanin, que destacou a dimensão da resposta judicial. Segundo ele, 217 pessoas já foram presas entre as cerca de 2.700 levadas sob custódia após os episódios de violência e saques que atingiram cerca de 3.000 estabelecimentos comerciais.
Um sábado sob forte vigilância
No sábado (24), os organizadores esperam uma nova mobilização nacional, considerada a continuação do movimento que tomou as ruas nas últimas semanas. Emmanuel Macron afirmou, porém, que apenas os atos promovidos pelos sindicatos serão autorizados.
Em Lyon e Marselha, assim como em outras cidades francesas, as manifestações previstas para sábado foram proibidas pelas autoridades. As decisões, no entanto, ainda podem ser contestadas na Justiça administrativa.
Em Paris, onde apenas um percurso foi autorizado para os manifestantes, entre as praças da Bastilha e da Nação, a prefeitura pediu à população "máxima vigilância". O chefe da polícia da capital também recomendou que comerciantes reforcem a proteção de seus estabelecimentos com segurança privada, quando possível.
Temendo a repetição dos episódios de violência registrados em 17 de outubro, o governo anunciou um reforço expressivo do aparato de segurança. O efetivo mobilizado será 20% maior do que o da semana passada e contará com o apoio de militares da operação Sentinelle, unidades de elite da polícia e da gendarmaria, além de helicópteros e veículos blindados utilizados no controle de distúrbios urbanos.
Congresso da extrema direita
Outro ponto de atenção neste fim de semana será o congresso do Reunião Nacional (RN), partido de extrema direita, em Orléans, no centro-norte do país. O encontro ocorre no sábado e no domingo sob forte esquema de segurança.
O vice-presidente da legenda, Louis Aliot, disse esperar que a ordem seja mantida, enquanto entre 20 mil e 30 mil manifestantes contrários ao RN são esperados na cidade no sábado. Entre eles estarão o primeiro-secretário do Partido Socialista, Olivier Faure, e a secretária-geral da central sindical CGT, Sophie Binet. Cerca de 3 mil agentes das forças de segurança serão mobilizados.
O espectro da dívida
Na quinta-feira (22), após uma reunião convocada pelo primeiro-ministro com os principais partidos para discutir a manutenção da ordem, lideranças da esquerda voltaram a acusar o governo de privilegiar a resposta de segurança em detrimento de soluções políticas para as reivindicações dos manifestantes, que incluem melhorias na educação, aumento dos salários, reforço do poder de compra e investimentos nos serviços públicos.
O Executivo, porém, tem pouca margem para atender a essas demandas. O governo prepara um orçamento marcado por cortes e contenção de gastos, em um momento de deterioração das contas públicas.
A instabilidade política e social também continua repercutindo nos mercados financeiros. Os juros dos títulos da dívida francesa de dez anos permanecem acima de 5%, nível não observado desde 2002, refletindo a crescente preocupação dos investidores com a situação política e fiscal do país e com a capacidade do Estado de controlar o avanço do endividamento.
Nesse contexto, aumenta a expectativa em torno da decisão da agência de classificação de risco Moody's, que pode rebaixar a nota de crédito da França nesta sexta-feira. Caso isso ocorra, o custo de financiamento da dívida pública francesa poderá subir ainda mais, ampliando a pressão sobre um governo já confrontado por uma das mais graves crises de seu segundo mandato.
Com AFP
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.