Partido do movimento estudantil vence eleição na Sérvia e derruba líder nacionalista
Após dois anos de manifestações contra a corrupção, os estudantes sérvios finalmente derrotaram nas urnas, neste domingo (25), o líder nacionalista Aleksandar Vucic. Segundo a ONG de referência Cesid, com base em uma amostra que representa 96% dos votos, a lista apoiada pelo movimento estudantil obteve 52,9% dos votos, contra 38,8% do governista Partido Progressista Sérvio (SNS), de acordo com resultados preliminares não oficiais divulgados na manhã desta segunda-feira (26).
Em uma vitória histórica com quase 70% de participação eleitoral, a lista do movimento estudantil conquistou a maioria de 140 assentos no Parlamento da Sérvia, derrotando o líder nacionalista Aleksandar Vucic. Fruto de quase dois anos de protestos contra a corrupção após uma tragédia ferroviária em 2024, o pleito encerra a hegemonia de Vucic iniciada em 2012. O ex-presidente reconheceu a derrota, atribuindo-a a interferências externas, enquanto União Europeia, Rússia e Ucrânia reagiram ao novo cenário.
O resultado garante ao movimento maioria de 140 cadeiras no Parlamento, que tem 250 assentos, contra 103 do partido de Vucic. A participação nas eleições legislativas antecipadas foi estimada em 69,3%. O movimento estudantil apresentou uma lista única, sem líder destacado, formada por candidatos da sociedade civil. O único objetivo comum era derrotar o SNS de Aleksandar Vucic.
"A partir desta segunda-feira começa o trabalho, um trabalho sério, responsável e incansável para construir uma Sérvia onde a lei seja aplicada da mesma forma para todos", afirmou Radomir Saicic, representante dos estudantes.
A última vez que o país registrou uma mobilização eleitoral semelhante, próxima de 70%, foi em 2000, quando o então líder Slobodan Milosevic foi derrotado, em um marco da história política sérvia. Vucic reconheceu rapidamente a derrota para um grupo de representantes sem experiência política, oriundos da sociedade civil. A notícia provocou explosões de alegria em várias cidades do país.
"Foi a lista dos estudantes que venceu as eleições", declarou ele a apoiadores na sede de seu partido, em Belgrado. Ao longo de seu mandato, Vucic manteve laços estreitos com a Rússia e atribuiu o resultado a influências estrangeiras.
"Quero que as pessoas saibam que isso foi a validação de uma revolução conduzida com o apoio direto de vários países europeus e do Estado profundo americano, o mesmo que também se opõe ao presidente Trump", afirmou. Apresentada pelos estudantes como um "referendo contra Vucic", a eleição foi a primeira, desde 2012, a oferecer aos 6,4 milhões de eleitores uma possibilidade concreta de alternância de poder.
Congratulations on your Republic Day Kazakhstan ! 🇰🇿 35 years ago, you gained your independence. And you brought your uniquely rich culture to the world. Today, Europe is a proud partner of Kazakhstan. Together, we are building a more prosperous, connected and resilient Central Asia. And a strong partnership for generations to come.
— Ursula von der Leyen (@vonderleyen) October 25, 2026
"País livre"
"A Sérvia venceu, como havíamos prometido", declarou Ilija Srdanovic, representante da lista estudantil, diante de militantes que agitavam balões coloridos. "Nunca mais teremos um tirano neste país."
A histórica mudança de poder é resultado de quase dois anos de protestos desencadeados pelo desabamento, em 2024, da marquise da estação ferroviária recém-reformada de Novi Sad, a segunda maior cidade da Sérvia.
O acidente matou 16 pessoas, e os estudantes passaram a apontá-lo como consequência da corrupção endêmica no país. No auge da mobilização, centenas de milhares de pessoas foram às ruas em Belgrado.
Com o passar dos meses, as reivindicações se transformaram em pedidos por eleições antecipadas. No início de setembro, Vucic, que foi vice-primeiro-ministro a partir de 2012, primeiro-ministro em 2014 e presidente desde 2017, acabou convocando novas eleições. Para liderar a campanha de seu grupo político, renunciou ao segundo mandato presidencial.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, escreveu na rede X que a União Europeia está pronta para apoiar reformas ligadas ao Estado de Direito e "promover o futuro da Sérvia dentro da União Europeia".
Moscou e Kiev reagem
O Kremlin manifestou nesta segunda-feira (26) a esperança de manter uma relação "construtiva" com as "novas forças políticas" que chegarão ao poder na Sérvia, já que Vucic mantinha relações estreitas com Moscou.
"Queremos expressar a esperança de que suas ações visem à continuidade do desenvolvimento construtivo de nossas relações", declarou o porta-voz da Presidência russa, Dmitri Peskov, durante sua entrevista coletiva diária. "E que essas novas forças políticas compreendam que a cooperação com a Rússia serve aos interesses da Sérvia", acrescentou.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou nesta segunda-feira que um "novo capítulo" na história da Sérvia começou após a derrota eleitoral de Vucic para a lista apoiada pelo movimento estudantil, que vinha protestando contra a corrupção há dois anos.
"Desejamos à Sérvia todo o sucesso possível, desenvolvimento real e relações estreitas com a comunidade europeia. Estamos prontos para continuar desenvolvendo nossa cooperação", escreveu Zelensky em mensagem publicada nas redes sociais.
Após a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Aleksandar Vucic apoiou a integridade territorial ucraniana, mas se recusou a aderir às sanções contra a Rússia aprovadas pela União Europeia. Belgrado, que historicamente mantém boas relações com Moscou, depende fortemente da Rússia para o fornecimento de gás.
Com agências
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