Parisienses vão às urnas para escolher sucessor da prefeita Anne Hidalgo; eleitorado está dividido
Paris se prepara para o primeiro turno das eleições municipais francesas, neste domingo (15), as mais disputadas dos últimos anos na capital. Com a saída da socialista Anne Hidalgo após 12 anos no poder, a corrida à Prefeitura vive um clima de forte tensão política e debates intensos sobre o futuro da cidade.
Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris
A segurança aparece no topo das preocupações dos parisienses, e os candidatos apresentam propostas para reforçar a presença policial e combater ações de vandalismo. "Nos subúrbios de Paris há pontos de tráfico, venda de cigarros, sobretudo no leste. Há muitos camelôs, e esse é um problema que eu acredito que venha da imigração", diz Arnaud, técnico da construção civil.
"Há muitas pessoas desabrigadas, sem domicílio, que estão pelas ruas; não sabemos o que elas fazem. Vemos bastante barracas perto de Châtelet-Les Halles, muitas tendas embaixo das marquises e pessoas que estão na miséria. Não sabemos se existe algum risco", acrescenta.
Outro tema que domina a campanha: a limpeza da cidade. Com críticas crescentes ao estado das ruas, alguns candidatos defendem até triplicar o orçamento para deixá-la mais limpa. As propostas incluem modernizar a coleta de lixo, lidar com pichações e controlar a população de ratos.
"Sim, há bastante ratos, mas há muita comida também, muitos restaurantes, então eles vêm para comer", relata, sem medo. "Há mais ratos do que gente em Paris", diz em tom de brincadeira.
Paris vive uma transformação profunda na mobilidade. Ciclovias, redução do espaço para carros, zonas de baixa emissão de poluentes e a reorganização das grandes avenidas geram debates acalorados. A direita critica o "trânsito caótico", enquanto a esquerda e os verdes defendem uma cidade mais calma e menos poluída.
"É mais nas grandes linhas que há problemas de transporte", opina Florian. "O metrô e o ônibus funcionam muito bem em Paris. Hoje aceitamos mais as bicicletas, e é melhor com bicicletas do que com carros. Isso permite aos pedestres circular tranquilamente", diz.
Crise de moradia
Paris vive hoje uma das piores crises de moradia de sua história. Do total de 1,4 milhão de moradias da cidade, só um quarto está disponível para alugar, sendo que 300 mil imóveis estão vazios ou fechados.
Em três anos, o número de anúncios de imóveis para alugar caiu 74%. E, a cada ano, Paris perde cerca de 8 mil apartamentos do mercado de aluguel para outros usos, como locação para turismo ou escritórios.
Entre os mais afetados estão estudantes e jovens trabalhadores. Hoje, 10% dos estudantes da capital já viveram em situação de rua em algum momento.
Na região parisiense, a situação é ainda mais grave: 1,3 milhão de pessoas vivem em condições precárias, e mais de 125 mil não têm domicílio fixo. Paris e arredores contam com 4.300 sem-teto.
O sistema de moradia social também está sobrecarregado. Quase 900 mil pessoas esperam na fila por um apartamento com aluguel subsidiado, e só 7% conseguem um teto por ano. A crise imobiliária ocupa boa parte dos programas eleitorais: controle do valor dos aluguéis, construção de casas e prédios populares, regulação de Airbnbs e novos planos de urbanismo estão em disputa.
Serge é piloto de avião e conta como viu Paris se transformar. "Uma cidade que, em 20 anos, se tornou triste. Há muitos parisienses deixando Paris; há cada vez menos habitantes", lamenta.
"A imagem icônica de Paris está ruindo. Eu moro no centro e está parecendo a Disneylândia. Convivo cada vez menos com parisienses e cada vez mais com turistas. E eles ficam decepcionados porque não encontram mais a imagem icônica de Paris. Uma invasão de Airbnbs; muita gente se aproveita", observa.
Políticas ambientais em debate
As políticas ambientais introduzidas pela prefeita Anne Hidalgo seguem em debate. A vegetalização de grandes avenidas virou alvo de críticas da direita, que teme alterações na circulação e no comércio local. A pauta ambiental continua central: mais verde, menos carros e adaptação às mudanças climáticas.
O taxista Bettayb acha que há exageros. "A bicicleta entrou, isso é normal, mas às vezes acho exagerado", aponta. "Um exemplo: aqui na Rue de Rivoli, são quatro pistas para as bicicletas e uma pista para ônibus, táxis e outros", calcula. Além disso, "há muitos engarrafamentos em Paris".
Outro problema, segundo ele, é a instalação de postes e barreiras de proteção que às vezes não são visíveis e podem danificar carros. Como apoiar os mais vulneráveis? Os candidatos divergem sobre políticas de acolhimento, saúde pública e assistência social em um cenário de aumento da precarização.
Quem assume Paris depois de Anne Hidalgo?
A esquerda tenta manter o controle com o candidato Emmanuel Grégoire, líder nas pesquisas.
Atrás dele, Rachida Dati, da direita, e outros três concorrentes têm mais de 10% das intenções de voto e podem passar para o segundo turno.
Entre propostas urbanas, disputas políticas e escândalos, a eleição de Paris promete um dos cenários mais imprevisíveis dos últimos anos. Além disso, as eleições municipais realizadas em 15 e 22 de março servem como teste das questões que preocupam a sociedade, aproximadamente um ano antes da próxima eleição presidencial.