Paris pressiona a empresa francesa Capgemini após revelação de contrato com agência migratória dos EUA
O governo francês chamou a atenção de um dos maiores grupos globais de consultoria em tecnologia da informação, serviços digitais e transformação empresarial, a empresa francesa Capgemini, após a revelação de um contrato firmado por uma de suas subsidiárias com o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). A multinacional, presente em mais de 50 países e com centenas de milhares de colaboradores, foi orientada a "revisar" suas atividades.
"Exorto a Capgemini a esclarecer, da forma mais transparente possível, suas atividades, essa política e, sem dúvida, a questionar a natureza dessas operações", afirmou o ministro francês da Economia, Roland Lescure, em resposta a uma pergunta feita por um parlamentar.
Segundo informações divulgadas na semana passada pela associação L'Observatoire des Multinationales (Observatório das Multinacionais) e veiculadas na noite de segunda-feira (26) pelo canal público France 2, a Capgemini teria fornecido ao ICE uma ferramenta para identificar e localizar cidadãos estrangeiros.
Em mensagem publicada no domingo (25) no LinkedIn, o CEO da Capgemini, Aiman Ezzat, afirmou ter tomado conhecimento, "por fontes públicas", da assinatura, em dezembro, de um contrato entre a subsidiária norte-americana da empresa e o ICE.
De acordo com o executivo, a estrutura dessa subsidiária — independente e sujeita à legislação dos Estados Unidos — estabelece regras rígidas de separação em relação à gestão central do grupo. Aiman Ezzat acrescentou que a unidade "toma decisões de forma autônoma, possui redes próprias e (...) o grupo Capgemini não tem acesso a informações ou contratos confidenciais".
Na Assembleia Nacional, Roland Lescure disse ter solicitado explicações à empresa. "Afirmei, em particular, que essa justificativa era insuficiente e que, no mínimo, uma empresa que possui subsidiárias deve saber o que ocorre dentro delas. É isso que a Capgemini se comprometeu a fazer", declarou o ministro.
Na mensagem publicada no LinkedIn, o CEO também informou ter sido comunicado de que a subsidiária "iniciou uma revisão do conteúdo e do escopo desse contrato".
"Cúmplice de graves violações?"
A central sindical CGT, por sua vez, exigiu "a cessação imediata e pública de toda colaboração com o ICE". Em carta dirigida a Aiman Ezzat, o sindicato afirma que "essas parcerias (...) não apenas contradizem os valores declarados pela Capgemini, como tornam nosso grupo cúmplice de graves violações dos direitos humanos".
O Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos e a agência de Proteção de Fronteiras foram recentemente implicados na morte de dois cidadãos americanos, baleados em Minneapolis, no estado de Minnesota.
As mortes de Alex Pretti e de Renee Good, baleados por agentes da Patrulha de Fronteira, causou comoção no país e gerou reações internacionais.
Em Paris, parlamentares do partido a França Insubmissa (LFI, esquerda radical) anunciaram na terça-feira (27) a apresentação de uma resolução contra o ICE. O texto pede que o governo francês denuncie as "violações dos direitos humanos", solicite uma "investigação internacional" e proíba a entrada de agentes da agência em território europeu.
Com AFP