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O silêncio incomum de líderes da extrema direita francesa após a derrota de Trump nos EUA

A derrota contundente do presidente dos EUA, Donald Trump, nas eleições legislativas foi recebida com notável silêncio pela extrema direita francesa. A discrição contrasta com anos de aproximação entre o trumpismo e lideranças de extrema direita europeias, entre elas Marine Le Pen. Em 2017, numa tentativa de aproximação com o então presidente eleito, a dirigente do RN viajou a Nova York e passou horas na Trump Tower, sem conseguir encontrá-lo. Até esta quarta-feira (4), apenas Jordan Bardella havia comentado o resultado.

4 nov 2026 - 12h56
(atualizado às 13h01)
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Resumo
A derrota de Donald Trump nas eleições legislativas dos EUA gerou celebração na esquerda francesa, mas silêncio entre os líderes da extrema direita, como Marine Le Pen e Éric Zemmour. Tradicionalmente associados ao republicano, eles evitaram comentar o revés para não desgastar suas imagens rumo ao pleito presidencial de 2027. A rara exceção foi Jordan Bardella, que atribuiu o resultado aos impactos econômicos gerados pelo recente conflito militar com o Irã, evitando discussões ideológicas.

A ampla derrota sofrida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições legislativas desta terça-feira (3) provocou reações imediatas na classe política francesa. Enquanto líderes da esquerda celebraram a vitória democrata e tentaram estabelecer paralelos com o cenário político da França, os principais nomes da extrema direita preferiram manter distância do debate.

O silêncio é especialmente notável porque, há anos, adversários políticos associam figuras da direita radical francesa ao fenômeno político representado por Trump. A ascensão do republicano à Casa Branca, em 2016, foi frequentemente apresentada por analistas e por seus opositores como parte de uma mesma onda política que impulsionou movimentos nacionalistas e populistas em diferentes países ocidentais, incluindo a França.

Até a tarde desta quarta-feira (4), não havia manifestações públicas relevantes da líder do partido Reunião Nacional, Marine Le Pen, apontada pelas pesquisas como favorita para a eleição presidencial de 2027 na França. Também não haviam reagido publicamente ao resultado o ex-comentarista de televisão e polemista Éric Zemmour, fundador do partido de extrema direita Reconquista, nem a eurodeputada Sarah Knafo, considerada a principal dirigente da legenda ao lado de Zemmour. 

A ausência de comentários contrasta com a repercussão alcançada pela eleição norte-americana em outros setores da política francesa. A derrota republicana rapidamente se transformou em tema de discursos, entrevistas e publicações nas redes sociais por parte de dirigentes de esquerda e de centro-esquerda, que viram no resultado uma demonstração de que o avanço da extrema direita não é inevitável.

O resultado norte-americano também desperta interesse porque ocorre em um momento de intensa preparação para a sucessão presidencial francesa. A possibilidade de uma vitória da extrema direita em 2027 domina parte do debate político nacional, o que aumenta a atenção em torno de experiências semelhantes observadas no exterior. A própria trajetória de Marine Le Pen ajuda a explicar esse interesse. 

Uma relação nem sempre próxima

Apesar das constantes comparações entre os dois líderes, a relação entre Marine Le Pen e Donald Trump nunca foi tão direta quanto muitas vezes sugeriram os debates políticos.

Em novembro de 2016, após a eleição presidencial norte-americana, Le Pen foi uma das primeiras lideranças estrangeiras a cumprimentar Trump pela vitória. Dois meses depois, realizou uma viagem discreta a Nova York e esteve na Trump Tower, poucos dias antes da posse do republicano.

A visita gerou especulações imediatas sobre um possível encontro entre ambos. O gesto parecia coerente com a estratégia de uma candidata que buscava projetar uma imagem internacional e associar-se ao êxito eleitoral de uma figura que mobilizava parte da direita europeia. O encontro, entretanto, nunca aconteceu.

Na ocasião, uma porta-voz da equipe de transição de Trump afirmou publicamente que Marine Le Pen não teria reuniões com integrantes do entorno do futuro presidente. A dirigente francesa foi vista no edifício, mas deixou Nova York sem qualquer fotografia, declaração conjunta ou contato oficial com o novo ocupante da Casa Branca.

O episódio recebeu ampla cobertura na imprensa francesa. Diversos veículos destacaram o contraste entre a expectativa criada pela viagem e a ausência de resultados políticos concretos. Ainda assim, as comparações entre o trumpismo e a extrema direita francesa continuaram alimentando o debate público nos anos seguintes.

As semelhanças apontadas pelos adversários de Le Pen concentravam-se sobretudo em temas como imigração, soberania nacional, crítica às elites políticas tradicionais, combate à globalização e defesa de políticas mais restritivas nas fronteiras.

Trump voltou a mencionar Le Pen semanas antes da eleição

A relação entre os dois universos políticos voltou a ganhar visibilidade recentemente.

Em outubro, Donald Trump comentou a situação francesa ao reagir aos episódios de violência urbana registrados no país. Durante essa sequência de declarações, o presidente norte-americano apresentou Marine Le Pen como a "voz conservadora" da França em sua rede social "Truth", embora tenha evitado anunciar apoio formal à sua eventual candidatura presidencial. 

A manifestação reforçou a percepção de que a trajetória política da dirigente francesa continua sendo observada de perto por setores da direita norte-americana. Por isso, a derrota republicana desta semana era acompanhada com atenção por observadores franceses.

Os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, impondo à Casa Branca o mais importante revés eleitoral desde o retorno de Trump ao poder. A campanha foi marcada pelos debates sobre o custo de vida, a inflação e os impactos das operações militares dos Estados Unidos contra o Irã, assuntos que ocuparam espaço central na disputa.

Mesmo diante de um resultado dessa magnitude, as principais figuras da extrema direita francesa optaram por não se pronunciar.

Bardella faz uma das raras manifestações públicas

A principal exceção foi Jordan Bardella, presidente da legenda Reunião Nacional. Em entrevista à rádio RTL nesta quarta-feira (4), Bardella afirmou que existe "muito provavelmente uma ligação" entre a derrota republicana e a intervenção militar norte-americana contra o Irã.

Segundo ele, a operação teve "consequências muito pesadas para a economia norte-americana" e pode ter influenciado o comportamento dos eleitores.

A análise de Bardella evitou discutir o significado ideológico da derrota republicana ou suas eventuais consequências para os movimentos nacionalistas internacionais. O dirigente concentrou seus comentários nos efeitos econômicos e políticos do conflito com o Irã.

A cautela ajuda a explicar a postura adotada por grande parte da extrema direita francesa nas horas seguintes ao anúncio dos resultados. Em vez de reivindicar proximidade com Trump ou de defender o legado político do presidente norte-americano, as principais lideranças desse campo preferiram, em toda evidência, não transformar a eleição dos EUA em tema central de suas intervenções públicas.

Com agências

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