Alemanha anuncia "pacote de inverno" de ajuda à Ucrânia avaliado em € 200 milhões
A Conferência de Segurança de Berlim entra nesta quarta-feira (4) em seu segundo dia sob o impacto da participação inesperada do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. O país em destaque na edição deste ano é a Lituânia, que ganhou importância estratégica para a OTAN e passou a receber exercícios militares frequentes das forças aliadas, dada sua proximidade com o território russo. Mas, desde ontem, todos os holofotes estão voltados para Zelensky, cuja presença foi anunciada poucos minutos antes de sua chegada a Berlim.
A Alemanha anunciou um novo pacote de € 200 milhões para a defesa da Ucrânia, incluindo mísseis antiaéreos e suporte a caças F-16, enquanto negociações para um cessar-fogo com a Rússia são articuladas para a próxima semana. Paralelamente, Berlim fortalece sua presença militar na Lituânia através da instalação de indústrias bélicas e do envio histórico da 45ª Brigada Blindada, que terá até 5 mil soldados até 2027 para conter ameaças russas no flanco oriental da OTAN.
Gabriel Brust, correspondente da RFI Brasil em Düsseldorf, Alemanha
O encontro do presidente ucraniano com o chanceler Friedrich Merz, ontem, marcou uma nova etapa do apoio alemão à defesa da Ucrânia contra a invasão russa. Os dois líderes também discutiram o fornecimento de mísseis antiaéreos PAC-2, PAC-3 e IRIS-T, além de um novo pacote de apoio à frota ucraniana de caças F-16, fundamentais para enfrentar os ataques diários da Rússia. Na segunda-feira, pelo menos 33 pessoas morreram em um prédio escolar em Komyshuvakha, no sudeste do país, atingido por pelo menos nove bombas russas.
Segundo a Agência de Imprensa Alemã, a ajuda adicional à Ucrânia deverá chegar a € 200 milhões, dos quais cerca de metade virá do orçamento do Ministério das Relações Exteriores. "O resultado desta guerra moldará a segurança europeia por muito tempo", disse o chanceler alemão.
Merz e Zelensky também deixaram a porta aberta para a diplomacia. Merz afirmou, dirigindo-se à Rússia, que "chegou a hora de acabar com esta guerra". Zelensky, por sua vez, disse estar aberto ao encontro trilateral da próxima semana com representantes da Rússia e dos Estados Unidos, com o objetivo de negociar um cessar-fogo. Com mediação americana, negociadores da Ucrânia e da Rússia devem se reunir em Abu Dhabi pela primeira vez desde fevereiro para discutir o fim da guerra.
Lituânia: o novo front alemão
O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, e o presidente do Comitê Militar da OTAN, almirante Giuseppe Cavo Dragone, estão entre os participantes mais aguardados do segundo e último dia da Conferência de Segurança de Berlim, evento independente organizado pelo setor privado que há 25 anos reúne líderes políticos e militares de todo o mundo.
O encontro deste ano conta com aproximadamente 140 palestrantes, 17 painéis temáticos e uma exposição da indústria militar. Entre os assuntos discutidos estão a capacidade europeia de defesa, a dissuasão da Rússia, o apoio militar à Ucrânia, a aquisição de armamentos, a inteligência artificial, os drones, a segurança espacial e a mobilidade militar.
A abertura do evento ficou por conta do presidente da Lituânia, Gitanas Nausėda, que foi bastante claro em seu diagnóstico do cenário atual, segundo o jornal alemão Behörden Spiegel: "A Rússia não está simplesmente travando uma guerra contra um país vizinho - está travando uma guerra contra a ordem mundial vigente, contra a democracia e o Estado de Direito".
A Lituânia faz fronteira, a oeste, com o enclave russo de Kaliningrado, no mar Báltico, e, a leste, com Belarus, aliada da Rússia. Entre Kaliningrado e Belarus fica o estratégico corredor de Suwałki, na fronteira entre a Polônia e a Lituânia, considerado um ponto sensível da defesa dos países bálticos.
O país destinou 5,38% do PIB à defesa em 2026, um dos índices mais altos do continente, e recentemente tornou-se palco de diversos exercícios militares da OTAN, além de parceiro estratégico da Alemanha. Duas das principais indústrias bélicas alemãs estão em fase de instalação em território lituano: a Rheinmetall, com uma fábrica de munição de artilharia, e a KNDS, que passará a montar e realizar a manutenção de tanques Leopard.
Mas a principal presença alemã em território lituano se dá por meio da 45ª Brigada Blindada, cujo contingente deverá atingir 2 mil soldados até o final deste ano. A chamada Panzerbrigade 45 Litauen tem a missão de proteger o território da OTAN na região do Báltico, especialmente diante da ameaça de uma eventual agressão russa, e também possui forte valor simbólico: pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha está estabelecendo uma unidade permanente de combate dessa dimensão fora de seu território.
A previsão mais recente é que a transferência da maior parte das tropas ocorra no segundo semestre de 2027, quando a brigada deverá alcançar sua plena capacidade operacional, com 5 mil soldados. A Lituânia assumirá a presidência rotativa do Conselho da União Europeia no primeiro semestre de 2027, colocando a segurança, a defesa e o apoio à Ucrânia entre suas prioridades.
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