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Paris abre investigação sobre apelos racistas para atacar entregadores de aplicativos

O Ministério Público de Paris abriu uma investigação por incitação ao ódio racial após a divulgação, nas redes sociais, de mensagens que defendem ataques contra entregadores negros ou de origem árabe na França. As trocas ocorreram em uma sala de discussão na plataforma X intitulada "É hora de agir diante da violência dos islamo-colaboracionistas-antifas". Segundo publicação feita pelo portal de notícias Franceinfo, o inquérito foi aberto na semana passada.

3 nov 2026 - 15h34
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Resumo
O Ministério Público de Paris abriu uma investigação criminal após militantes de extrema direita usarem redes sociais para planejar emboscadas e ataques violentos contra entregadores de aplicativos e muçulmanos. O grupo pretendia atrair trabalhadores a locais isolados para agredi-los, sob o pretexto de combater a islamização. O caso ocorre em meio à escalada do ódio antimuçulmano na França, gerando alerta entre sindicatos, empresas do setor e entidades religiosas após recentes episódios racistas.

Nos áudios, participantes fazem declarações violentas e racistas. Segundo o jornal L'Humanité, militantes de extrema direita fizeram apelos explícitos para atacar entregadores e sugeriram o uso de aplicativos de entrega para atrair vítimas a emboscadas. Uma mulher propõe atacar muçulmanos durante orações realizadas em espaços públicos, enquanto outro participante afirma que seria preciso usar os aplicativos para fazer entregadores "desaparecerem". Um terceiro chega a declarar que "será realmente necessário matar muita gente".

Imagem ilustrativa de um entregador de aplicativo pedalando em uma rua de Paris.
Imagem ilustrativa de um entregador de aplicativo pedalando em uma rua de Paris.
Foto: AFP - GUILLAUME BAPTISTE / RFI

Um dos participantes sugeriu, aos risos: "Vocês pedem um McDonald's ou algo do tipo em áreas isoladas, fazem os entregadores vir e depois os fazem desaparecer."

As mensagens também incluem insultos racistas e apelos à violência. Os participantes mencionavam "envenenamento, ataques a tiros e pulverização" e defendiam aproveitar as orações de rua, quando, segundo eles, os muçulmanos estariam reunidos. O objetivo declarado seria "reconquistar o território" e "francesar e acabar com a islamização", especialmente nos arredores de Paris e na região de Seine-Saint-Denis, periferia da capital francesa.

Questionadas pelo portal, as plataformas Uber e Deliveroo disseram estar "profundamente chocadas" com as mensagens e informaram ter enviado alertas preventivos aos entregadores. "Condenamos firmemente esses apelos a agressões racistas contra os entregadores", declarou Fabian Tosolini, dirigente da organização sindical Union-Indépendants. 

Caso vem à tona após ataque racista na região parisiense

Além da acusação de incitação ao ódio racial, a investigação também apura o crime de provocação pública e direta para a prática de atentados contra a vida ou a integridade física de pessoas.

O caso ocorre poucos dias após o atentado racista de Trappes, na região parisiense, que deixou um morto e sete feridos em 23 de outubro e que está sendo investigado pelo Ministério Público Nacional Antiterrorista da França.

Questionado pela AFP, o Ministério Público de Paris informou que tomou conhecimento das publicações e confiou à polícia criminal a investigação sobre a sala de discussão. O inquérito foi aberto por "incitação pública ao ódio ou à violência contra uma pessoa ou grupo de pessoas em razão de sua origem ou de seu pertencimento, ou não pertencimento, a uma etnia, nação, raça ou religião determinada". 

A investigação também inclui suspeitas de "incitação direta a um ato terrorista por meio de um serviço de comunicação ao público online" e de "incitação pública e direta, ainda que não seguida de efeito, à prática de crimes e delitos que atentem contra os interesses fundamentais da nação". Os promotores também apuram a hipótese de "incitação pública e direta, sem efeito concreto, à prática de atentados contra a vida ou a integridade física de pessoas". 

Em entrevista à emissora Franceinfo, Oumaima Aouad, coordenadora da organização "Maison des Coursiers", que acolhe e presta apoio a entregadores de plataformas digitais, afirmou que alguns trabalhadores disseram estar "assustados" com a situação. "Essas pessoas já trabalham em condições muito precárias e difíceis. Se, além disso, precisarem desconfiar de cada entrega que fazem, a tarefa se torna muito mais complicada", declarou.

"Grau de violência do ódio antimuçulmano na França"

A Grande Mesquita de Paris condenou com veemência nesta terça-feira os atos islamofóbicos registrados contra uma mesquita em Lodève, no sul da França, onde foram encontradas inscrições racistas, um pombo morto e uma placa com os dizeres "a mala ou o caixão", slogan associado aos defensores da Argélia Francesa durante a guerra de independência.

O reitor da instituição, Chems-Eddine Hafiz, afirmou que o episódio se soma a uma série de incidentes recentes, entre eles o atentado racista de Trappes e as convocações a assassinatos de pessoas de origem árabe divulgados nas redes sociais. Segundo ele, os acontecimentos revelam uma escalada preocupante do ódio antimuçulmano na França.

A mesquita pediu que políticos, personalidades da mídia e participantes do debate público tenham responsabilidade em suas declarações, alertando contra discursos que estigmatizam toda uma comunidade.

A ministra encarregada do combate às discriminações, Aurore Bergé, também condenou os atos e fez um apelo à união e ao combate a toda forma de incitação ao ódio.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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