Nova liderança da direita radical italiana cresce nas pesquisas e preocupa coalizão do governo Meloni
Programa eleitoral de Roberto Vannacci defende propostas polêmicas, como o "patriarcado mediterrâneo", restrições a conteúdos de gênero na TV e o fim da tipificação do crime de feminicídio. Por outro lado, descendentes de italianos no Brasil são vistos como uma alternativa para atrair novos trabalhadores ao país.
O eurodeputado da direita radical Roberto Vannacci e seu partido, Futuro Nazionale, crescem nas pesquisas e preocupam a premiê italiana Giorgia Meloni. Com propostas ultraconservadoras contra o aborto, a pauta LGBTQIA+ e a imigração irregular, além de atrair ítalo-descendentes, a sigla ameaça dividir os votos governistas. Diante desse avanço, que coloca a legenda à frente de aliados da base, a coalizão de Meloni avalia até antecipar as eleições parlamentares para frear o novo concorrente.
Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão
A Itália já começa a olhar para as eleições parlamentares, previstas para o ano que vem. Nesse cenário, um nome da direita radical vem chamando a atenção pelo crescimento nas pesquisas: Roberto Vannacci, eurodeputado e uma das figuras mais controversas da política italiana neste momento. Ele afirma que o atual governo, considerado de extrema direita, não é suficientemente de direita.
O partido de Vannacci, o Futuro Nazionale, começou a divulgar, em etapas, um programa ideológico e eleitoral para as eleições de 2027. Na segunda parte, publicada nesta segunda-feira (22), o partido foca no conceito de família e em questões de identidade. Em um dos trechos mais polêmicos, há uma proposta de proibir a exibição na televisão de conteúdos ligados a gênero e homossexualidade entre as 6h e as 23h. O programa também questiona o apoio de governos a eventos e iniciativas de orgulho LGBTQIA+.
O documento classifica os valores familiares e cristãos como "não negociáveis" e defende a chamada família tradicional, formada por um homem e uma mulher. Além disso, contesta que exista na Itália um "direito ao aborto" e questiona a formulação da legislação atual, que permite a interrupção voluntária da gravidez nos primeiros 90 dias.
Há duas semanas, o partido de Vannacci havia divulgado a primeira parte do programa, que teve grande repercussão na Itália, por exemplo, ao defender um "patriarcado mediterrâneo". Para o Futuro Nazionale, o conceito define a ideia de formar homens fortes, com o papel de proteger as mulheres e a sociedade.
Ainda no campo das posições antifeministas, o partido quer acabar com a recente tipificação do feminicídio como crime autônomo. A medida entrou em vigor em dezembro e prevê prisão perpétua para esse tipo de crime.
Partido quer atrair descendentes de italianos no Brasil
Um dos pilares do Futuro Nazionale é a imigração, tema em que o partido apresenta semelhanças com posições já defendidas pela atual direita italiana. A legenda fala em "tolerância zero" à imigração irregular e defende a chamada "remigração", com políticas para incentivar e facilitar o retorno de imigrantes aos países de origem.
Em contrapartida, quer atrair para a Itália descendentes de italianos que vivem no exterior. O programa propõe incentivos fiscais para estimular trabalhadores que tenham direito à cidadania italiana pelo ius sanguinis, ou seja, pelo direito de sangue, e menciona especificamente descendentes de italianos no Brasil, na Argentina e na Venezuela.
O programa eleitoral, no entanto, não explica como essa proposta se encaixaria nas restrições que o governo Meloni impôs, no ano passado, ao reconhecimento da cidadania italiana por descendência.
Futuro Nazionale preocupa atual coalizão de governo
O Futuro Nazionale vem ganhando espaço nas pesquisas de intenção de voto. Segundo levantamento da Ipsos Doxa divulgado no fim de julho, o partido de Roberto Vannacci aparece com 7,1%, uma alta de 1,1 ponto percentual em relação à pesquisa anterior, superando inclusive sua antiga legenda, a Lega, que aparece com 5,1%. Já o Fratelli d'Italia, de Meloni, segue na liderança, com 26,5%.
Nos bastidores, o governo discute a possibilidade de antecipar as eleições parlamentares para abril do ano que vem. O pleito deve ser realizado até outubro de 2027, quando Meloni completa cinco anos no cargo.
Um dos motivos para essa antecipação seria aproveitar um momento ainda favorável à atual coalizão de governo e evitar dar mais tempo para que o Futuro Nazionale cresça e acabe dividindo os votos que hoje sustentam a aliança, já que Vannacci se coloca fora da coalizão e disputa diretamente parte do mesmo eleitorado.
Além disso, de forma prática, uma eleição em abril daria ao novo governo mais tempo para preparar a lei orçamentária do ano seguinte, uma das principais tarefas do governo italiano no segundo semestre.
Roberto Vannacci: do Exército à política
Roberto Vannacci é um nome relativamente novo na política italiana. Militar de carreira, chegou ao posto de general e participou de missões em vários países, como Somália, Afeganistão e Iraque. Ele se tornou conhecido no país em 2023, quando publicou o livro "O Mundo ao Contrário", que vendeu milhares de cópias online e causou forte controvérsia por passagens consideradas homofóbicas e racistas.
Em um dos trechos mais polêmicos, por exemplo, ele diz diretamente aos homossexuais que eles "não são normais". Em outro momento, fala da jogadora de vôlei Paola Egonu, filha de nigerianos, e diz que, apesar de ela ter cidadania italiana, seus traços físicos não representariam a "italianidade".
Com a repercussão do livro, Vannacci decidiu trocar a carreira militar pela política. Em 2024, aproximou-se da Lega, partido de direita radical liderado pelo vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, e foi eleito para o Parlamento Europeu. A parceria com Salvini, no entanto, durou pouco. Em fevereiro deste ano, Vannacci rompeu com a Lega e fundou o Futuro Nazionale, com o objetivo de ocupar um espaço ainda mais à direita no cenário político italiano.
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