No dia dos namorados, Europa volta a debater diamantes de sangue
Muitos casais apaixonados costumam aproveitar uma visita à cidade belga de Antuérpia para comprar uma joia com diamante, sobretudo aqueles que selam um noivado. A cidade é conhecida como um dos maiores polos de lapidação do precioso mineral: com mais de 1.500 empresas e lojas, por lá passam 84% da produção mundial de diamantes.
No entanto, um relatório divulgado pela ONG Global Witness aproveitou que hoje é Dia de São Valetim - quando vários países comemoram o dia dos namorados - para reacender o debate sobre a relação entre o comércio de diamantes e a violência no Zimbábue, um dos grandes países exportadores do mineral para a União Europeia.
"As investigações da Global Witness apontam para o sério risco de que as receitas de diamante sejam usadas para financiar a violência nas eleições deste ano. O governo belga está alegando preocupação com o povo do Zimbábue, no entanto os seus verdadeiros interesses estão mais perto de casa, nos mercados de diamantes de Antuérpia", disse a ativista da Global Witness, Emily Armistead. "Os membros da UE que visam promover a democracia e a estabilidade no Zimbábue deveriam evitar um ménage-à-trois da Bélgica com os revendedores de diamantes no dia dos namorados”, completou.
As sanções econômicas ao país africano dividem funcionários e diplomatas nas chancelarias europeias. Muitos acreditam que as medidas restritivas devem permanecer até a realização das eleições para presidente e parlamentares no Zimbábue, previstas para março ou abril deste ano. Segundo a Global Witness, o lobby belga estaria agora pressionando para levantar de imediato o embargo da UE à estatal Zimbabwe Mining Development Corporation (ZMDC). O assunto deve ser discutido na próxima reunião do Conselho de Relações Exteriores da UE em Bruxelas, em 18 de fevereiro.
De acordo com um relatório da Global Witness do ano passado, as receitas de diamantes estão financiando a ZANU-PF - forças de segurança do partido do presidente Robert Mugabe que seriam responsáveis por coagir eleitores. Nas últimas eleições de 2008, grupos leais a Mugabe foram envolvidos em ataques contra a oposição e teriam causado a morte de mais de 200 pessoas e torturado milhares de africanos. Mugabe tem se mantido no poder desde 1981.
A ONG pede à UE que mantenha na lista de entidades afetadas pelas sanções as empresas de mineração ligadas a altos oficiais militares do Zimbábue. “A UE deve manter um curso constante e restringir o comércio com as operações de mineração de diamantes em Marange até as eleições livres e justas ter ocorrido”, instou Armistead.
O relatório da Global Witness coincide com um documentário exibido em 2011 pela emissora britânica BBC, que expôs o uso contínuo de campos de tortura na região de Marange. A equipe da BBC reuniu provas e testemunhos sobre as brutalidades praticadas pelos militares nos campos de diamante, incluindo assassinatos em massa, estupros, tortura e trabalho forçado. As provas foram levadas também ao Tribunal Penal Internacional (TPI).
Em entrevista à revista African Mine Brief, o diretor da ZMDC, Godwills Masimirembwa, negou as acusações e disse que “não há nada de errado" em terem militares reformados nos conselhos das empresas mineradoras, pois "eles são parte da sociedade”.
Diamantes de Angola
Na segunda-feira, os diamantes angolanos também ocuparam as manchetes dos jornais de Portugal. O Ministério Público português arquivou uma queixa contra o jornalista angolano Rafael Marques, autor do livro Diamantes de Sangue e a editora portuguesa Tinta-da-China. O processo por difamação foi instaurado por sete generais de Angola e duas empresas de segurança das quais são acionistas - a Sociedade Mineira do Cuango e a firma Teleservice (Sociedade de Telecomunicações, Segurança e Serviços). O livro de Marques trata dos crimes cometidos contra as pessoas que habitam as zonas de extração de diamantes de Lundas, no nordeste do país.
O MP português concluiu que a publicação da obra se enquadrava “no legítimo exercício da liberdade de informação e de expressão, protegidos pela Constituição da República portuguesa”. Até a fim de janeiro, o livro já tinha vendido mais de 7 mil exemplares. “Os generais angolanos devem compreender que não podem usar o seu poder econômico e financeiro e a sua arrogância para perseguir a liberdade de expressão além-fronteiras”, concluiu o jornalista angolano.