Macron atribui financiamento do narcotráfico na França a 'burgueses dos centros das cidades'
O debate sobre o combate ao narcotráfico voltou à tona na França após o assassinato do irmão de um militante ecologista e antidrogas na semana passada. O assunto dominou o Conselho de Ministros desta quarta-feira (19), no qual o presidente francês, Emmanuel Macron, responsabilizou consumidores de narcóticos por financiar o crime.
Segundo declarações relatadas pela porta-voz do governo, Maud Bregeon, Macron afirmou que "às vezes são os burgueses dos centros das cidades que financiam os narcotraficantes". "Não se pode lamentar de um lado as mortes e, de outro, continuar consumindo à noite ao voltar do trabalho", reiterou a porta-voz.
Durante o Conselho de Ministros, o presidente francês ainda destacou "a importância de uma política de prevenção e conscientização", além da "necessidade de uma abordagem interministerial, do nível local ao internacional" sobre a questão.
A morte de Mehdi Kessaci, de 20 anos, irmão de Amine Kessaci, de 22 anos, um ambientalista também engajado contra o narcotráfico, chocou a França. O assassinato ocorreu na última quinta-feira (13), em Marselha, no sul do país, em plena luz do dia. O jovem foi alvejado dentro de seu carro em um estacionamento da cidade por dois homens. Seu sepultamento, na terça-feira (18), suscitou forte emoção da população.
Em entrevista publicada pelo jornal Le Monde nesta quarta-feira, Amine promete continuar denunciando a violência dos traficantes de drogas. "A dor me despedaça. Mas não corrói minha lucidez. Não, eu não vou me calar. Vou dizer e repetir que meu irmão Mehdi morreu por nada", afirma.
Conhecido por sua luta contra o o narcotráfico nos bairros populares de Marselha, o militante critica "a covardia dos mandantes" e convoca o governo "compreender a gravidade do que está acontecendo". Amine ainda aponta "as carências do Estado, as falhas da República, os territórios abandonados e as populações excluídas".
"Crime de intimidação"
A imprensa francesa classifica o caso como um "crime de intimidação". Na terça-feira, Macron já havia anunciado sua intenção de ampliar a luta contra as drogas no país com a aplicação da "lei do narcotráfico", aprovada em junho. O presidente francês promete visitar Marselha em meados de dezembro após os "golpes muito duros" de traficantes contra as forças de segurança da região. "Com o orgulho ferido, Emmanuel Macron tenta mais uma vez retomar o controle", aponta o jornal Le Figaro.
Já o jornal Le Parisien teme a instrumentalização política do assassinato de Mehdi Kessaci, ideia rejeitada pelo Palácio do Eliseu, sede da presidência francesa. Para o governo, o combate às drogas é "uma questão de defesa nacional, não apenas um problema doméstico".
O Executivo garante que os esforços resultaram na queda do número de homicídios e de pontos de venda de drogas. Por isso considera que o assassinato de Mehdi é uma forma de "retaliação" do crime organizado a essas medidas. No entanto, a explicação não convence a oposição: o partido Reunião Nacional, de extrema-direita, exige a instauração do estado de emergência em Marselha.