João Paulo Lorenzon revisita Nietzsche para questionar violência, empatia e animalidade em Avignon
Onze anos depois de sua passagem pelo Festival Off de Avignon com Nijinsky, o ator, diretor e performer brasileiro João Paulo Lorenzon retorna à cidade francesa com Nietzsche, do cavalo nada sabemos. Inspirado no episódio em que Friedrich Nietzsche abraçou um cavalo espancado nas ruas de Turim, pouco antes de mergulhar definitivamente na loucura, o espetáculo transforma uma das imagens mais enigmáticas da história da filosofia em uma dramaturgia física e sensorial sobre violência e empatia.
Há imagens que atravessam o tempo porque resistem a ser explicadas. Uma delas ocorreu em janeiro de 1889, em Turim, quando Friedrich Nietzsche teria visto um cocheiro espancar um cavalo na rua. Segundo os relatos que cercam os últimos dias de lucidez do filósofo alemão, ele correu até o animal, abraçou-o e caiu em prantos. Pouco depois, mergulharia em um colapso mental do qual jamais se recuperaria.
É desse instante carregado de mistério que nasce Nietzsche, do cavalo nada sabemos, novo espetáculo do ator, diretor e performer brasileiro João Paulo Lorenzon, em cartaz no Festival Off de Avignon. Onze anos após apresentar na cidade francesa Nijinsky - Minha Loucura é o Amor pela Humanidade, o artista volta a uma figura histórica que viveu nos limites da criação, da ruptura e da vertigem.
Curiosamente, a obra não surgiu de um mergulho inicial na filosofia nietzschiana. "Eu não conhecia esse capítulo do Nietzsche", conta Lorenzon. "Já tinha escutado falar muito da filosofia dele, tinha lido aqui e ali, mas eu não conhecia esse fato dele ter visto um cavalo sendo espancado, ter abraçado o cavalo para salvar o cavalo da violência e ter enlouquecido depois."
O que o capturou foi justamente a contraposição entre o pensamento de Nietzsche e o gesto desesperado diante da brutalidade. "Um filósofo que acreditava na potência humana de liberdade, de amor, de encontro, de dança, de arte, de criação, se vê encurralado pela potência da violência", afirma. "Como se ele desistisse de acreditar que o ser humano é capaz de algo que não fosse a violência, como se a violência tivesse tomado conta de tudo."
Lorenzon se refere ao fato de que, após o episódio, Nietzsche escreveu as últimas mensagens conhecidas antes de seu colapso. "Ele enlouquece depois desse fato, e vive por mais dez anos sem produzir nada."
Mais do que reconstruir uma passagem biográfica, o espetáculo parte dessa imagem para formular perguntas contemporâneas. "Essa possibilidade dele ter se rendido a essa violência que vai tomando conta eu acho um ponto de partida muito rico para perguntar o que a gente faz com essa violência e como que a gente pode encontrar a ternura", diz. "Como é que a gente pode encontrar outras ações que não a violência?"
Lógica de dominação
Ao mesmo tempo, a montagem desloca o olhar para uma questão ainda mais ampla: a fronteira entre humanidade e animalidade. Num momento em que os debates ambientais, éticos e filosóficos recolocam em discussão a posição dos seres humanos no mundo, Lorenzon utiliza o próprio título da obra como provocação. "Que cavalo é esse?", pergunta. "Do cavalo nada sabemos. O próprio título já traz um pouco essa discussão. O humano que só sabe de si mesmo e que não sabe, não quer saber do outro."
Na leitura do artista, a relação estabelecida pela cultura ocidental com os outros seres vivos ainda é marcada por uma lógica de dominação."O ser humano coloca o planeta Terra, o cavalo, enfim, as coisas todas como acessórios da sua existência", afirma.
A peça procura justamente inquirir sobre essa posição de superioridade. "Uma das questões do espetáculo é discutir esse lugar excepcional que o homem se coloca. Como que a gente pode viver com os animais? Como que a gente pode viver com o outro, seja humano, seja animal, seja o planeta Terra?"
Para Lorenzon, o trabalho se constrói em torno da tentativa de romper divisões consideradas naturais. "É um espetáculo que tenta discutir essa cisão natureza e cultura, essa cisão homem-animal, e se pergunta se não existe uma outra maneira de viver junto."
Se o pensamento filosófico fornece o impulso inicial, é o corpo que ocupa o centro da cena. Como em trabalhos anteriores, Lorenzon transforma a fisicalidade em instrumento de elaboração dramatúrgica."Em geral, nos meus trabalhos eu começo pela palavra", explica. "Eu acho um fragmento, alguma coisa que me encanta. E aí, a partir da palavra, o corpo vai ganhando espaço."
Mas o movimento não é unilateral. "O corpo vai agindo e vai também modificando a palavra. Ele em ação, ele em dor, ele em torção, ele em agitação, vai mudando a palavra. Tem uma dança aí da palavra que convida o corpo, que reconvida a palavra."
Em Nietzsche, do cavalo nada sabemos, o procedimento se traduz numa espécie de corpo fragmentado, dividido entre forças contraditórias. "Tem um braço que bate, tem umas costas que apanham, tem uma mão que quer dominar, tem uma perna que quer fugir", descreve. "Eu sou o meu corpo. É o continente todo. Ele é o algoz, ele é o que bate, ele é o que assiste."
A proposta é fazer coexistirem em um único organismo vítima e agressor, violência e vulnerabilidade. "É uma tentativa desse corpo representar o eu e o outro. Seja o eu o que bate, seja o eu o que apanha."
Uma parceria de peso na direção
A construção da montagem contou com a colaboração de duas diretoras: Denise Stoklos e Alessandra Maestrini. Stoklos, uma das grandes referências do teatro físico brasileiro, ocupa um lugar especial na trajetória do artista.
"A Denise é uma referência para mim, uma deusa do teatro, uma lenda", afirma. "Alguém que eu vi muito, que eu aprendi muito, que eu admirei." O impacto de seu trabalho foi decisivo para a formação artística de Lorenzon. "Quando eu vi a Denise no palco, eu entendi a beleza da loucura, a capacidade de liberdade."
Já Alessandra Maestrini contribuiu com outra camada da encenação, ligada à construção emocional do texto e da presença cênica. "Ela tem um trabalho com as emoções, com a palavra. Me convidou a ir para um lugar mais sensível, mais vulnerável, mais frágil e depois voltar para um lugar forte."
Embora separados por mais de uma década, Nijinsky e Nietzsche, do cavalo nada sabemos compartilham algumas obsessões temáticas. Ambos são permeados por personagens históricos que viveram experiências extremas e desafiaram as convenções de seu tempo.
"Eu sou muito apaixonado por esses desajustados", admite. "Esses homens e mulheres que ficam entre a loucura e a genialidade." Ao recordar o bailarino russo que inspirou sua passagem anterior por Avignon, Lorenzon identifica um traço comum entre as duas figuras. "No Nijinsky, aquele que salta mais alto do que todos os bailarinos também cai mais fundo do que todos. É esse lugar tênue entre o abismo e o voo."
Com Nietzsche, afirma, acontece algo semelhante. "Um filósofo tão poderoso e, ao mesmo tempo, depois desse abraço, tão frágil, tão débil, que entra numa regressão." Mais do que a loucura em si, interessa-lhe a disposição de ultrapassar limites, de buscar intensamente uma forma de existência. "Nessa vida curta, a gente poder realmente tentar viver o máximo o que essa vida convida. Acho que tanto o Nietzsche quanto o Nijinsky convidam, de maneiras diferentes, a essa vida bem vivida."
Temporada no Brasil depois de Avignon
Após a temporada em Avignon, encerrada em 24 de julho, o espetáculo seguirá para Uberlândia, em agosto, antes de iniciar circulação por São Paulo, com apresentações no Sesc Ipiranga e no Teatro FAAP.
Sobre a recepção francesa, Lorenzon fala com entusiasmo. "A gente teve críticas muito profundas, muito bonitas. Teve seleções críticas que colocaram o espetáculo num lugar muito especial."
Mas é sobretudo o encontro com os espectadores que ele destaca ao final da experiência. "O festival proporciona essa troca", afirma. "Eu saio muito abastecido, muito alimentado, com todos esses olhares, com coisas que a gente nem imaginou, com coisas que não foram nem sonhadas e pensadas."
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