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Vitória de partidos radicais nas eleições estaduais evidencia novo cenário político na Alemanha

As duas eleições estaduais ocorridas na Alemanha neste domingo (20) deram vitória a dois partidos considerados radicais no espectro político: o partido de esquerda Die Linke, em Berlim, e o de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. O partido do chanceler Friedrich Merz, a CDU, ficou de fora de um parlamento regional pela primeira vez na história.

21 set 2026 - 05h15
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Resumo
As eleições estaduais na Alemanha consolidaram o avanço de forças radicais e o enfraquecimento dos partidos tradicionais. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD venceu, e a CDU sofreu um revés histórico ao ficar fora do parlamento regional. Em Berlim, a vitória inédita foi do Die Linke, embora a formação de uma maioria seja incerta. O cenário agrava a crise do chanceler Friedrich Merz, enfraquecido pela revolta interna na CDU e pela pressão de aliados, deixando seu governo sob forte instabilidade.

Gabriel Brust, correspondente da RFI Brasil em Düsseldorf, Alemanha

As vitórias do Die Linke e da AfD representam a consolidação de um processo que começou há algum tempo: os eleitores estão abandonando as forças tradicionais de direita e esquerda e buscando partidos mais radicalizados nos dois campos. O que se vê cada vez mais é o esvaziamento dos dois partidos que dominaram a política alemã desde o pós-guerra: a CDU, pela centro-direita, e o SPD, pela centro-esquerda; a democracia cristã versus a social-democracia. 

Nas votações de ontem, ficou muito claro como o Die Linke sugou votos do SPD em Berlim, e a AfD praticamente esvaziou a CDU em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Nesse estado, foram tão poucos os votos para o partido do chanceler Friedrich Merz que, pela primeira vez na história da Alemanha, a CDU ficou de fora de um parlamento regional por não ter conseguido ultrapassar a cláusula de barreira de 5%. 

Coalizão de esquerda em Mecklemburgo 

O resultado final na eleição regional de Mecklemburgo ficou bastante polarizado entre dois partidos, com a AfD em primeiro lugar, com 38,2% dos votos, seguida pelo SPD, com 35,5%. O segundo pelotão veio bem atrás, com o Die Linke atingindo 6,5%, os Verdes com 5,7% e a CDU com 4,9%. A vitória consolida a AfD como uma força política muito forte na região correspondente à antiga Alemanha Oriental. Há duas semanas, o partido de extrema direita também venceu a eleição na vizinha Saxônia-Anhalt, com uma votação ainda maior: 44%. 

Mas, apesar da vitória de ontem, ficou um gosto amargo para a AfD porque, até poucos dias antes da eleição, as pesquisas apontavam uma vitória muito mais ampla. A atual governadora do SPD, Manuela Schwesig, conseguiu uma ascensão meteórica na reta final. Na prática, ela possivelmente conseguirá se manter no cargo, mesmo tendo chegado em segundo lugar. A coalizão mais provável será entre SPD, Die Linke e Verdes.

Kristin Brinker, principal candidata da Alternativa para a Alemanha (AfD) na eleição estadual de Berlim, vota em seção eleitoral na capital alemã durante a votação regional deste domingo (20). Foto tirada em 20 de setembro de 2026.
Kristin Brinker, principal candidata da Alternativa para a Alemanha (AfD) na eleição estadual de Berlim, vota em seção eleitoral na capital alemã durante a votação regional deste domingo (20). Foto tirada em 20 de setembro de 2026.
Foto: RFI

Berlim: vitória sem governo garantido 

O governo da cidade-estado de Berlim poderá trocar de mãos, da direita tradicional da CDU para a esquerda radical do Die Linke. É uma vitória inédita do Die Linke, que chegou em primeiro lugar, mas em um cenário bastante fragmentado: o partido obteve 25,7% dos votos, seguido pela CDU, com 18,8%, pela AfD, com 16,3%, pelos Verdes, com 14,3%, e pelo SPD, com 12,1%. 

A principal liderança do Die Linke em Berlim é Elif Eralp, de 45 anos, de origem turca, que concentrou sua campanha eleitoral inteiramente na questão da habitação. Ela agora tentará formar uma maioria para liderar o governo da capital, mas não será fácil, porque um dos partidos de esquerda de que precisaria para formar uma coalizão, o SPD, tem fortes restrições a posições consideradas radicais demais do Die Linke, como a socialização de empresas de habitação e declarações de alguns líderes consideradas antissemitas. 

O Die Linke sofre do mesmo mal da AfD: consegue cada vez mais obter boas votações, mas não formar maiorias parlamentares para governar. O partido só conseguiu liderar um governo estadual até hoje, na Turíngia. Agora, Elif Eralp poderá repetir esse feito, mas isso não é garantido. As duas coalizões possíveis em Berlim são Die Linke, Verdes e SPD, ou CDU, Verdes e SPD. 

Merz na corda bamba 

O dado mais relevante surgido das urnas ontem foi a grande derrota do chanceler Friedrich Merz, em especial o fiasco histórico em Mecklemburgo. O mau resultado de seu partido, a CDU, nas três eleições de setembro é visto como um protesto contra o próprio governo Merz. Há alguns dias, surgiram rumores de uma revolta interna no partido contra ele. 

Merz está em plena operação para conter os danos. Ele falou logo cedo ontem, assim que as urnas se fecharam, classificando o resultado em Mecklemburgo como um "desastre". Em seguida, porém, fez um pronunciamento contundente sobre a continuidade das reformas que vem implementando na Alemanha. O recado que quis passar foi claro: sabe que o momento é difícil, mas não aceitará ser substituído facilmente pelo partido. 

Merz agora tenta ganhar tempo. A próxima eleição regional será apenas em 2027, e a economia alemã deve crescer 1,3% este ano, o que tecnicamente tiraria o país da crise econômica. O chanceler dedicará esta semana a dar explicações internas à CDU e a conter revoltas dentro do partido. Mas há também um crescente descontentamento dentro do SPD, que integra a coalizão federal. 

O bom desempenho da governadora Manuela Schwesig ontem representa o fortalecimento de uma ala do SPD bastante crítica a Merz. A verdade é que o chanceler, a partir de agora, passa a caminhar na corda bamba para tentar concluir seu mandato. 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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