Incêndios se alastram e atingem Marselha, a segunda maior cidade da França
Os violentos incêndios que atingem o sul da França desde a onda de calor da semana passada chegaram ao auge nesta terça-feira (8), com as chamas, impulsionadas pelo vento forte do norte, alcançando Marselha. Milhares de hectares já haviam sido consumidos pelo fogo no departamento de Aude, a oeste.
Os violentos incêndios que atingem o sul da França desde a onda de calor da semana passada chegaram ao auge nesta terça-feira (8), com as chamas, impulsionadas pelo vento forte do norte, alcançando Marselha. Milhares de hectares já haviam sido consumidos pelo fogo no departamento de Aude, a oeste.
O incêndio começou no final da manhã em Les Pennes-Mirabeau, ao norte de Marselha, provocado por um carro em chamas na autoestrada A55, e se espalhou rapidamente, empurrado por ventos do norte que causaram "labaredas de até 300 metros", segundo os bombeiros.
Em poucas horas, o fogo já havia percorrido cerca de 700 hectares em direção à segunda maior cidade da França, atravessando áreas de vegetação mediterrânea intercaladas com zonas residenciais, industriais e comerciais.
O aeroporto Aix Marseille Provence, o quarto mais movimentado da França em número de passageiros, teve que ser fechado ainda ao meio-dia, enquanto uma imensa nuvem de fumaça se elevava acima das colinas ao norte da cidade. Uma concentração de partículas finas 10 vezes acima dos padrões, segundo o Atmo-Sud (organismo de monitoramento da qualidade do ar), caiu sobre Marselha.
Nove bombeiros sofreram intoxicação leve, um ficou ferido no ombro, e "uma dezena de residências foi atingida", informou o prefeito regional Georges-François Leclerc, que por volta das 17h30 locais declarou que a situação estava "ainda instável, mas sob controle".
As condições meteorológicas com ventos fortes devem continuar "boa parte da noite (...) mas não há mais avanço linear das chamas", explicou em uma coletiva de imprensa o vice-almirante Lionel Mathieu, chefe dos bombeiros navais de Marselha. Mais de 700 bombeiros estavam mobilizados até o fim da tarde de terça-feira, incluindo reforços de regiões vizinhas, além de importantes meios aéreos, com cerca de dez aeronaves no total.
"Dezenas de pessoas", tiveram que ser retiradas de suas casas de forma preventiva, segundo o prefeito de Marselha, Benoît Payan.
Moradores evacuados
"Nos jogaram à beira da estrada", relatam muito abaladas três mulheres evacuadas de suas casas tomadas pelas chamas, no 16º distrito de Marselha, no norte da cidade.
Elas estavam almoçando em sua varanda quando, de repente, viram as chamas se aproximando. "A gente andava em círculos, estávamos em pânico. Fechamos as janelas, colocamos roupas molhadas sob as portas", contou Jackie Moeneclaey, aposentada. "Em um momento, quisemos sair, mas vimos que havia faíscas por todo lado e tivemos medo de que nosso cabelo pegasse fogo", relatou.
"O crepitar das chamas ao redor da casa era um horror. Os vizinhos tinham lindas azaleias rosas na varanda, e tudo estava queimando, eu tive medo. Achamos que íamos morrer, fomos cercadas [pelo fogo], tivemos medo", acrescenta Farida, que preferiu não revelar o sobrenome.
Depois, os bombeiros chegaram. Elas dizem que os socorristas não sabiam para onde correr.
"Vieram nos buscar, disseram para não levar nada, deixamos nossas bolsas com dinheiro dentro, a casa totalmente aberta. Depois nos colocaram numa ambulância, e a polícia nos levou e nos deixou naquele trevo, nem na prefeitura ou ginásio para descansarmos", acrescenta Jackie.
Farida, 76 anos, diz que está com as pernas bambas. Elas ficaram apenas com os celulares e uma pequena garrafa de água, e esperavam um amigo ir buscá-las.
Enquanto isso, policiais bloqueavam várias saídas do trevo, situado entre os bairros Saint-André e Saint-Henri. Nas outras vias, longos engarrafamentos davam um ar de êxodo a esses bairros pobres.
"Fechem as janelas e portas!"
Helicópteros com bombas de água sobrevoavam a área, e as ruas estão imersas em uma fumaça densa, varrida por rajadas muito fortes. Um homem de patinete passou e parou para distribuir máscaras a cada pedestre, pois o ar está irrespirável.
Um entregador de moto tentou passar. "Por enquanto, não estou nem aí para a sua entrega. Rem fogo, vocês vão descer por ali", ordena um policial municipal.
Duas mulheres que trabalham em um consultório médico pedem orientação à polícia: elas têm adolescentes que vieram se consultar e estão presos com elas. As autoridades orientam que permaneçam confinados por enquanto.
Ao mesmo tempo, todos recebem no celular um alerta máximo das autoridades por "incêndio florestal": "confinem-se em edifícios resistentes. Fechem janelas e portas", ordena a mensagem.
Do outro lado do trevo, cerca de quinze crianças esperavam seus pais sentadas no chão. Pouco antes da ordem de confinamento, elas foram retiradas da escola e levadas para um centro de lazer. Algumas se protegiam com toalhas de praia.
"Foi pedido que evacuássemos a escola. Tínhamos 70 crianças para levar embora, foi uma confusão. Agora só restam umas quinze, mas os pais estão presos no trânsito. Se as pessoas ficassem em casa sem se mover, seria melhor. Um menino ficou com medo porque uma mãe chegou e deixou todo mundo em pânico", explica Nadine Ruopoli, presidente da associação "Outra Imagem", que gerencia o centro de lazer.
"Francamente, tenho medo porque é chocante, hesito em sair, mas não sei para onde ir. Corri rápido para buscá-lo", conta Ida, que saiu correndo para buscar o filho a pé. "Não conseguimos respirar nem enxergar, os olhos ardem", acrescenta ela.
(Com AFP)