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'Haribo Kimchi': fábula de artista coreano cria retrato sensorial sobre imigração em Avignon

Em Haribo Kimchi, espetáculo apresentado na mostra oficial do 80º Festival de Avignon, Jaha Koo transforma um pojangmacha, barraca de rua sul-coreana, em palco para uma reflexão sensorial sobre migração, memória e pertencimento. O artista, que já passou pelo Brasil na MITsp de 2018 com Lolling and Rolling, apresenta em Avignon uma obra que mistura culinária, música pop e relatos pessoais de vidas entre culturas. O coreano é a língua convidada desta edição do evento.

15 jul 2026 - 15h55
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Márcia Becharaenviada especial da RFI a Avignon

Cena da peça "Haribo Kimchi", do artista sul-coreano Jaha Koo.
Cena da peça "Haribo Kimchi", do artista sul-coreano Jaha Koo.
Foto: Christophe Raynaud de Lage - Christophe Raynaud de Lage / RFI

Há espetáculos que se impõem pela grandiosidade, outros pela precisão formal, e alguns — raros — pela delicadeza com que transformam o prosaico em matéria sensível. Haribo Kimchi, criação de 2024 do artista sul-coreano Jaha Koo, apresentada no 80º Festival de Avignon, pertence a essa última categoria. A peça se instala num pequeno pojangmacha, a barraca de comida de rua típica de Seul, e ali constrói uma dramaturgia que lembra, em diversos momentos, a capacidade de Manoel de Barros, em sua delicada supremacia do cotidiano, de encontrar grandeza no detalhe. "As coisas pequenas não têm o dever de ser úteis", diz o poeta mato-grossense em "Memórias Inventadas: A Infância" (2003, Editora Record).

O espetáculo começa com uma barraca iluminada por uma luz suave, como se esperasse os visitantes com a paciência de quem conhece a noite. Projeções de arranha-céus e prédios altos da Coreia do Sul se acendem em telões móveis pelo palco, antes de se dissolverem nas ruas estreitas de Seul. Quando as portas do pojangmacha se abrem, somos transportados para o coração pulsante da performance. Jaha Koo nos recebe com a calma de quem domina o gesto e convida, para o centro da cena instalada no ginásio do Lycée Aubanel, em Avignon, dois sortudos espectadores a jantar, com a naturalidade de quem repete um ritual doméstico. Enquanto cozinha, as telas digitais se acendem e sua história começa a emergir.

O que se segue é um mergulho de 70 minutos na vida sul-coreana, mas também algo mais íntimo: o relato de um migrante que tenta reorganizar o próprio sentido de casa longe de onde nasceu. A barraca não é  apenas um truque cenográfico, mas o eixo emocional da peça. É ali que Haribo Kimchi explora a relação sinestésica entre comida e cultura, e como o ato de cozinhar é muitas vezes o que resta quando alguém tenta se orientar em terra estrangeira. A comida vira, então, uma forma de compreensão, interpelação e memória, espalhando odores pela plateia.

A dramaturgia é permeada por projeções, telas, música pop que beira um kitsch irônico, e fragmentos de vídeo que funcionam como pequenos diários visuais. As imagens piscam com trechos íntimos da vida de Koo em Seul, Berlim e Bruxelas, compondo um mosaico de deslocamentos. O público escuta trechos de canções sobre escargots, enguias e ursinhos Haribo; vê projeções coloridas e recortes cinematográficos; sente o cheiro do kimchi estalando na frigideira, e, para alguns poucos escolhidos pelo artista, há o próprio sabor, quando o prato chega à mesa.

Memória e frango frito coreano

Na verdade, parece haver algo profundamente pensado na maneira como Koo se move. Sua cozinha é coreografada, cada gesto sincronizado com o ritmo emocional da peça. O ato de servir torna-se o centro da performance: cada prato oferecido é também uma oferta de história. Entre momentos doces e passagens duras, ele compartilha episódios de sua vida, a história do kimchi, a trajetória do frango frito coreano. Ancorada na presença brincalhona e gentil do artista, a peça nunca pesa, mas aquece, com humor, uma melancolia insinuada.

No interior do pojangmacha, uma pequena galeria de personagens — a enguia, o escargot, o ursinho de goma de gelatina, adorado pelas crianças ocidentais — surge para contar histórias que oscilam entre o absurdo e o tocante. A cozinha sul-coreana vira ponto de partida para uma reflexão maior sobre os paradoxos da assimilação cultural: o que se perde, o que se guarda, o que se inventa para sobreviver? O espetáculo se revela essencialmente pessoal, reconhecível para muitos imigrantes, mas também, ao mesmo tempo, uma janela íntima mesmo para quem nunca viveu esse deslocamento.

Ao final, Haribo Kimchi deixa o espectador sorrindo — e com fome. Mas deixa também uma pergunta silenciosa: o que cada um de nós carrega como casa quando a casa já não é um lugar, mas um gesto, um cheiro, um prato, uma memória?

Haribo Kimchi segue em cartaz no Ginásio do Lycée Aubanel, com sessões até o fim do festival. As apresentações restantes acontecem nos dias 18, 19, 20, 21, 22 e 23 de julho, sempre no início da noite, dentro da programação oficial da 80ª edição. Os ingressos podem ser adquiridos diretamente no site do Festival de Avignon, sujeitos à disponibilidade. A peça integra o eixo dedicado à língua coreana como convidada desta edição.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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