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Futuro premiê britânico promete descentralizar poder e 'restaurar esperança' no Reino Unido

Ex-prefeito de Manchester, Andy Burnham foi confirmado nesta sexta-feira (17) como líder do Partido Trabalhista britânico e assumirá na segunda-feira (20) o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido, substituindo Keir Starmer. Em seu primeiro discurso após a escolha, ele prometeu "devolver a esperança" aos britânicos e ampliar os poderes das regiões. Ao mesmo tempo, enfrenta pressão de ONGs para rever cortes de 43% na ajuda internacional, decididos pelo governo anterior.

17 jul 2026 - 10h52
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A escolha de Burnham foi ratificada durante um congresso extraordinário da legenda e marcou a etapa final de uma transição iniciada após a renúncia de Starmer, anunciada em junho.

Andy Burnham, deputado britânico por Makerfield, discursa no Museu de História do Povo, em Manchester, no Reino Unido, em 29 de junho de 2026.
Andy Burnham, deputado britânico por Makerfield, discursa no Museu de História do Povo, em Manchester, no Reino Unido, em 29 de junho de 2026.
Foto: REUTERS - Temilade Adelaja / RFI

A votação teve caráter protocolar. Recém-eleito para a Câmara dos Comuns, Burnham contava com o apoio de mais de três quartos dos parlamentares trabalhistas, garantindo uma ampla maioria dentro da sigla antes mesmo do encontro partidário.

Aos 56 anos, o ex-prefeito da Grande Manchester usou seu primeiro discurso como líder trabalhista para apresentar uma mensagem centrada na unidade interna e na reconstrução da confiança na política britânica.

"Estamos unidos e colocamos a força dessa unidade a serviço das pessoas e dos territórios que esperam há tempo demais que a política lhes devolva esperança", afirmou diante de uma plateia lotada. "É exatamente isso que vamos fazer. Vamos devolver a esperança", acrescentou.

Burnham também prestou homenagem a Starmer, a quem substituirá oficialmente no comando do governo quando entrar na residência oficial do primeiro-ministro, no número 10 da Downing Street, em Londres.

Descentralização de poder e promessa de mudança política

Apesar da rápida ascensão ao comando do país, ainda há dúvidas sobre como Burnham pretende conduzir o governo no dia a dia. Os principais sinais sobre seu projeto político vieram de declarações feitas após sua vitória na eleição suplementar de Makerfield, em 18 de junho.

Na ocasião, ele prometeu promover o que chamou de "maior reequilíbrio de poderes da história da Grã-Bretanha", defendendo uma transferência mais ampla de competências administrativas e políticas para regiões e autoridades locais.

O trabalhista argumenta que parte do descontentamento social observado em diversas áreas do país decorre da concentração de decisões em Londres e da percepção de abandono em cidades e regiões fora do centro econômico britânico.

Conhecido por defender os interesses do norte da Inglaterra, Burnham recebeu ao longo dos anos o apelido de "rei do Norte", referência à influência política que construiu durante sua gestão à frente da Grande Manchester.

Sua estratégia busca substituir a lógica de confronto político por mecanismos de cooperação entre governo central, administrações regionais e comunidades locais.

A nova liderança trabalhista também tem diante de si o desafio de conter o avanço do Reform UK, partido de extrema direita liderado por Nigel Farage que vem ampliando sua presença no debate político nacional e que é visto por dirigentes trabalhistas como uma ameaça nas próximas eleições gerais, previstas para ocorrer até 2029.

Pressão sobre política externa e ajuda ao desenvolvimento

Antes mesmo de tomar posse, Burnham passou a enfrentar pressões relacionadas à política externa britânica. Organizações não governamentais cobraram nesta sexta-feira uma revisão dos cortes na ajuda internacional anunciados pelo governo de Starmer para financiar o aumento dos gastos com defesa.

De acordo com análise baseada no relatório financeiro anual do Ministério das Relações Exteriores britânico, divulgado na quinta-feira (16), as despesas destinadas à cooperação internacional serão reduzidas em 43% ao longo dos próximos três anos, o equivalente a uma diminuição superior a £ 1 bilhão (quase R$ 7 bilhões).

Segundo a rede Bond, que reúne mais de 300 organizações do setor humanitário, alguns dos países mais pobres da África Subsaariana sofrerão reduções drásticas nos recursos recebidos de Londres. Malawi e Moçambique, por exemplo, deverão registrar queda de cerca de 90% em comparação com os níveis anteriores aos cortes iniciados nos exercícios de 2024 e 2025.

A entidade estima ainda que a ajuda destinada ao Afeganistão será reduzida em quase 40% durante o ano fiscal de 2026-2027, enquanto Mianmar poderá perder aproximadamente 30% dos recursos.

As medidas haviam sido anunciadas por Starmer em fevereiro, em meio a restrições orçamentárias e ao baixo crescimento da economia britânica. A decisão provocou a saída da então secretária de Estado para o Desenvolvimento Internacional, Anneliese Dodds.

ONGs cobram mudança de rumo

As críticas se intensificaram após a divulgação dos detalhes financeiros do plano.

"Os programas britânicos em Mianmar salvam vidas. Esses cortes vão custar vidas", afirmou Anna Roberts, diretora-executiva da Burma Campaign UK, que acusou o governo de implementar as mudanças discretamente às vésperas do recesso parlamentar.

Jean McLean, da Oxfam UK, advertiu que os efeitos serão sentidos por famílias afetadas pela fome, crianças sem acesso à saúde e à educação e comunidades que tentam sobreviver aos impactos de conflitos e eventos climáticos extremos.

A Plan International UK classificou a redução dos recursos como "revoltante".

Já a ONE Campaign, organização voltada ao combate à pobreza na África, apelou diretamente ao futuro primeiro-ministro para rever a política. O diretor da entidade, Adrian Lovett, afirmou que Burnham construiu sua trajetória defendendo comunidades que se sentiam esquecidas no noroeste da Inglaterra e pediu que ele não ignore agora os países mais vulneráveis do chamado Sul Global.

Na quinta-feira, a secretária de Estado para o Desenvolvimento Internacional, Jenny Chapman, havia defendido a decisão do governo, afirmando que Londres não está abandonando os desafios globais e que pretende tornar mais eficiente cada libra investida em programas de desenvolvimento.

Com pouco tempo até a posse, Burnham terá de decidir se mantém a estratégia adotada por seu antecessor ou se promove uma inflexão numa das áreas mais contestadas da política externa britânica. Na segunda-feira, ele deverá anunciar s linhas gerais de seu programa de governo, além da composição de seu gabinete, que promete representar todas as correntes do Partido Trabalhista.

Com AFP

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