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França tenta reduzir gastos sociais para conter déficit e evitar agravamento da dívida

A França enfrenta um desafio fiscal que promete dominar o debate político nos próximos meses. O país gasta mais do que arrecada e acumula uma dívida pública que já se aproxima de € 3,5 trilhões. Para tentar recolocar as contas nos trilhos, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou as linhas gerais de um orçamento que prevê cerca de € 54 bilhões em economias em 2027, o equivalente a cerca de R$ 319 bilhões.

23 set 2026 - 09h13
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Resumo
Para conter um déficit que pode atingir 6,5% do PIB em 2027 e cumprir as regras da União Europeia, o governo francês propõe cortar gastos sociais e administrativos. O plano orçamentário prevê contribuições de aposentados, congelamento de benefícios e de salários de servidores, além de redução em licenças médicas e programas de emprego. As medidas geram forte resistência social e política por pouparem áreas como Defesa e penalizarem os vulneráveis, antecipando tensões para a eleição de 2027.

Maria Paula Carvalho, da RFI

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou os principais pontos do orçamento de 2027 em entrevista ao Le Figaro, publicada em 17 de setembro de 2026.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou os principais pontos do orçamento de 2027 em entrevista ao Le Figaro, publicada em 17 de setembro de 2026.
Foto: © Ludovic Marin / AFP / RFI

Segundo os cálculos do governo, sem medidas de contenção o déficit público poderá alcançar cerca de 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027. O objetivo do plano é evitar esse cenário em um momento em que as finanças públicas francesas estão sob crescente pressão. 

O desafio é particularmente delicado porque a França construiu, ao longo de décadas, um dos sistemas de proteção social mais abrangentes da Europa. Em 2025, o déficit público alcançou 5,1% do PIB, bem acima do limite de 3% fixado pelas regras da União Europeia. Ao mesmo tempo, o crescimento econômico segue fraco. O Banco Central francês reduziu a previsão de crescimento para apenas 0,4% em 2026. 

Apesar da deterioração das contas públicas, o professor associado de Economia e Finanças da Neoma Business School, Gabriel Gimenez-Roche, não vê um risco imediato de perda de confiança dos investidores. 

"Os horizontes de pagamento da dívida são bem equilibrados. No entanto, o problema que o mercado começa a ver é que a dívida vai crescendo e a França não demonstra nenhuma capacidade de reformar o gasto. E há um consenso global de que a França já cobra imposto demais e que o sistema tributário não é eficiente", afirma. 

Aposentados e benefícios sociais na mira 

Para reduzir o déficit, o Executivo propõe uma série de medidas que ainda precisarão ser examinadas e aprovadas pelo Parlamento. 

Entre elas está uma contribuição dos aposentados, estimada em menos de seis bilhões de euros. A perspectiva preocupa parte da população. 

"Eu tenho obras para fazer, isso vai ser complicado com os cortes. Assim fica difícil se projetar no futuro", diz Martine, aposentada de 75 anos. 

Jean-Claude, também aposentado, acredita que o projeto enfrentará resistência política.  "É um balão de ensaio para saber até onde ele pode ir. Mas como nenhum partido quer fazer economias no orçamento, eu não vejo outro resultado senão um impasse", afirma. 

Além dos aposentados, o governo avalia congelar alguns benefícios sociais, entre eles o auxílio-moradia. Outra medida que provoca controvérsia prevê a criação de um período mínimo de residência para que estrangeiros tenham acesso a determinadas prestações sociais financiadas pelo Estado. 

Os servidores públicos também poderão ser afetados. A proposta prevê o congelamento do índice utilizado para reajustar salários, numa tentativa de conter o aumento das despesas da administração pública. 

A líder do partido Os Ecologistas, Marine Tondelier, é uma das vozes críticas ao projeto. 

"Quem deverá fazer esforço? São aqueles que frequentemente acabam penalizados: os trabalhadores precários, os jovens, os doentes, os funcionários públicos. É injusto e isso não pode acabar bem", afirma. 

Cortes no mercado de trabalho e nas licenças médicas 

O plano do governo prevê ainda cerca de 2,5 bilhões de euros em economias por meio da revisão de programas de apoio ao emprego criados durante a pandemia e de mecanismos de formação profissional. 

Outra frente envolve a tentativa de reduzir os gastos com licenças médicas, o que deverá gerar uma economia estimada em aproximadamente 2 bilhões de euros. 

Para Gabriel Gimenez-Roche, o problema não está necessariamente na existência de um sistema de proteção social robusto, mas na forma como os ajustes costumam ser implementados. 

"Muito dessa proteção social poderia ser mantida com uma racionalização dos gastos, com certos ajustes. Isso poderia implicar cortes, mas não necessariamente cortes de serviços. O problema é que os governos eleitos até agora na França, tanto de direita quanto de esquerda, tendem a cortar gastos na proteção social e não os gastos administrativos. E isso é algo de que a população francesa começa a se dar conta. Existe muita crítica em torno disso", analisa. 

Um debate que já aponta para 2027 

Apesar das medidas de contenção, alguns setores foram preservados. Defesa, Justiça e Segurança continuam entre as prioridades do governo em um contexto marcado pelas tensões internacionais, pela guerra no Oriente Médio e pelo aumento dos gastos militares em diversos países europeus. 

O projeto orçamentário será apresentado ao Conselho de Ministros em 1º de outubro e, em seguida, seguirá para análise do Parlamento. Como o governo não possui maioria absoluta na Assembleia Nacional, o texto poderá sofrer alterações importantes durante sua tramitação. 

Segundo Gabriel Gimenez-Roche, a dificuldade de aprovar reformas estruturais contribui para aumentar a incerteza sobre o futuro das contas públicas francesas. 

"Por enquanto, a França não corre o risco de uma crise maior. A estrutura da dívida é sólida e o custo do endividamento está na média europeia. O problema é que o país segue uma trajetória preocupante. Os juros pagos pela França aumentam gradualmente, enquanto na Alemanha permanecem estáveis ou até recuam. Ao mesmo tempo, o gasto público continua crescendo. Os governos têm dificuldade para cortar despesas e ninguém enxerga, politicamente, uma reforma viável. Ou seja, está todo mundo esperando 2027", conclui.  

No fundo, a discussão gira em torno de uma pergunta simples: quem deverá pagar a conta do ajuste fiscal? A resposta promete alimentar o debate político francês nos próximos meses e influenciar diretamente a corrida presidencial de 2027. 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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