França divulga balanço de quase 6 mil mortes em excesso após onda de calor, maior número desde 2003
Com 5.764 mortes em excesso registradas, metade delas concentradas em apenas três dias (25 a 27 de junho), o episódio de calor extremo provocou uma sobremortalidade sem precedentes desde a histórica onda de calor de 2003. Os dados provisórios foram divulgados nesta quarta-feira (22) pela agência de saúde pública francesa, Santé publique France. Especialistas preveem que uma nova massa de ar quente possa atingir a França entre 28 e 30 de julho.
Esse aumento da mortalidade por todas as causas, que ainda não pode ser atribuído com certeza às altas temperaturas durante a onda de calor que afetou quase toda a população da França continental (98,5%) entre 17 de junho e 2 de julho, foi observado em todas as faixas etárias a partir dos 15 anos, com uma elevação particularmente significativa a partir dos 45 anos. Para a agência sanitária, trata-se de um fenômeno inédito.
A sobremortalidade registrada durante essas duas semanas sufocantes chegou a pelo menos 5.764 mortes, o equivalente a 36% acima do número de óbitos esperado para o período.
Desde a divulgação dos primeiros números parciais divulgados no fim de junho e no início de julho, que continuam sendo atualizados, os dados sobre mortalidade alimentam um intenso debate político. Segundo o Le Parisien, é incomum que a agência publique dados tão rapidamente, mas o governo aparentemente optou por uma política de transparência, mesmo com números ainda provisórios.
O governo francês é acusado pela oposição de falta de preparação diante do episódio climático. Os ecologistas chegaram a projetar um total de 10 mil mortes, estimativa imediatamente contestada pelo gabinete do primeiro-ministro, enquanto o Ministério da Saúde rejeitou qualquer comparação com a tragédia de 2003.
Segundo a Santé publique France, essa onda de calor se destacou por uma precocidade e duração inéditas. Embora tenha sido mais intensa do que a de agosto de 2003 - que traumatizou o país ao provocar cerca de 15 mil mortes -, ela afetou quase toda a França continental, atingindo 92 departamentos em um período que ainda concentrava intensa atividade escolar e profissional.
Cálculo do "excesso de mortalidade"
Para chegar a esse cálculo, a agência de saúde francesa compara o número de mortes observadas em determinado intervalo com a média esperada com base nos seis anos anteriores. A diferença constitui o chamado "excesso de mortalidade", considerado incomum e, neste caso, muito provavelmente relacionado à onda de calor, na ausência de outras explicações plausíveis.
Mais da metade dessas mortes foi registrada em apenas três dias - 25, 26 e 27 de junho -, logo após os três dias mais quentes já medidos em escala nacional. Em 23, 24 e 25 de junho, a temperatura média na França atingiu 30°C, um recorde histórico para o país.
Durante os 16 dias da onda de calor, a Île-de-France, região metropolitana onde fica Paris, foi particularmente afetada. A mortalidade chegou ao dobro do nível habitual na região, com 1.999 mortes registradas.
No ano passado, o balanço definitivo da agência contabilizou 5.700 mortes atribuíveis ao calor durante todo o verão de 2025. O atual episódio de junho, sozinho, já supera esse total, embora a relação direta entre os óbitos e as temperaturas extremas ainda precise ser confirmada pelas autoridades sanitárias.
Risco de nova onda de calor para a próxima semana
Após alguns dias de trégua, uma nova massa de ar quente pode atingir a França entre terça (28) e quinta-feira (30) da próxima semana, segundo um boletim do site especializado La Chaîne Météo. O calor viria da Espanha e poderia elevar as temperaturas para entre 35°C e 40°C em várias regiões do país.
A massa de ar prevista apresenta características consideradas excepcionalmente quentes para os padrões do país. O fenômeno seria favorecido pela combinação de um sistema de alta pressão sobre a Europa Ocidental e uma depressão atmosférica no Atlântico, criando um fluxo de ar quente vindo da Península Ibérica.
Após vários incêndios registrados desde o início do verão, uma nova sequência de calor intenso também poderia agravar a seca e aumentar o risco de novos focos de fogo na França.
No entanto, os meteorologistas ressaltam que ainda é cedo para confirmar uma quarta onda de calor neste verão. A duração do episódio, as temperaturas mínimas durante a noite e a extensão das áreas afetadas serão determinantes para classificar o fenômeno como uma simples sequência de dias muito quentes ou uma nova onda de calor.
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