Script = https://s1.trrsf.com/update-1781903735/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

As Principais Notícias da Europa

Publicidade

Áustria inaugura delegacia na casa onde Hitler nasceu para conter peregrinação neonazista

A Áustria inaugura nesta quarta-feira (22) uma delegacia na casa onde Adolf Hitler nasceu, em Braunau am Inn, numa tentativa de encerrar décadas de disputa sobre o destino do imóvel. Reformado ao custo de € 20 milhões, o edifício do século XVII foi adaptado para reduzir seu apelo entre grupos neonazistas. A iniciativa, porém, segue gerando controvérsia em um país ainda confrontado com o legado do nazismo e o avanço da extrema direita.

22 jul 2026 - 08h04
Compartilhar
Exibir comentários

A abertura da unidade policial marca o desfecho de um dos debates mais delicados da memória histórica austríaca nas últimas décadas.

O prédio fica em Braunau am Inn, pequena cidade próxima à fronteira com a Alemanha, onde o ditador nazista nasceu em 20 de abril de 1889.

Após uma reforma que consumiu € 20 milhões e se estendeu por três anos além do prazo inicialmente previsto, o imóvel tornou-se praticamente irreconhecível para quem o conhecia antes das obras.

A fachada amarela que marcou a construção durante décadas deu lugar a um exterior branco e sóbrio. Sobre a entrada principal, agora está o emblema da polícia austríaca.

Em frente ao prédio permanece uma pedra memorial com a inscrição: "Pela paz, pela liberdade e pela democracia. Nunca mais o fascismo. Milhões de mortos nos lembram disso".

As autoridades austríacas esperam que a presença permanente das forças de segurança ajude a esvaziar o valor simbólico do endereço, que há décadas atrai admiradores de Hitler, grupos neonazistas e militantes da extrema direita.

A transformação encerra uma longa disputa sobre o destino de um dos locais mais sensíveis da memória histórica do país. Enquanto alguns defendiam a demolição do prédio, outros argumentavam que preservar o imóvel e dar a ele uma função pública seria uma forma mais eficaz de impedir sua glorificação por movimentos extremistas.

País tenta encerrar controvérsia histórica

A inauguração ocorre em um contexto sensível para a Áustria, criticada por historiadores e organizações judaicas pela demora em assumir sua responsabilidade nos crimes do regime nazista. Durante o Holocausto, cerca de 65 mil judeus austríacos foram assassinados e aproximadamente 130 mil foram forçados ao exílio.

O debate sobre a casa de Hitler transformou-se, ao longo dos anos, em um símbolo das dificuldades do país em lidar com seu passado.

Desde 1912, o imóvel pertencia à mesma família. Em 1972, passou a ser alugado pelo Estado austríaco, que instalou ali um centro de atendimento a pessoas com deficiência, um grupo que também foi perseguido e exterminado pelo regime nazista.

Apesar disso, o endereço continuou atraindo simpatizantes da extrema direita, principalmente em datas ligadas à vida de Hitler. Por décadas, autoridades locais e federais discutiram alternativas para evitar que o local se transformasse em um ponto de peregrinação neonazista.

A proprietária do imóvel, Gerlinde Pommer, rejeitou sucessivas propostas de reforma e recorreu a todas as instâncias judiciais disponíveis para impedir mudanças mais profundas na construção.

Expropriação exigiu lei especial

A situação só começou a ser resolvida em 2016, quando o Parlamento austríaco aprovou uma legislação específica que permitiu a desapropriação do imóvel em nome do interesse público.

Três anos depois, a Suprema Corte da Áustria confirmou a aquisição estatal do terreno e da construção por € 810 mil. Com o controle do imóvel garantido, iniciou-se um amplo debate sobre seu destino definitivo.

Entre as alternativas analisadas estavam a criação de um centro de memória, a instalação de serviços públicos e até a demolição completa da construção.

Uma comissão de especialistas rejeitou a ideia de transformar a casa em memorial, argumentando que isso poderia aumentar sua atração para simpatizantes do nazismo.

A possibilidade de demolir o edifício também foi descartada. Historiadores defenderam que apagar fisicamente o local não ajudaria a enfrentar os fatos históricos associados ao país.

Delegacia divide opiniões

A solução escolhida foi estabelecer uma delegacia de polícia. Segundo o governo austríaco, a medida busca deixar claro que nenhum tipo de homenagem ao nacional-socialismo será tolerado naquele endereço. A decisão, porém, não produziu consenso.

Robert Eiter, representante do Comitê Austríaco de Mauthausen, associação ligada à memória dos sobreviventes do principal campo de concentração localizado na Áustria, afirma que a transformação dificilmente impedirá visitas de simpatizantes da ideologia nazista.

Em entrevista à AFP, ele avaliou que a mudança "não desencorajará um único neonazista" disposto a viajar até Braunau am Inn. Eiter também demonstrou reservas quanto à ideia de "neutralizar" simbolicamente o local por meio da presença policial.

"Sem querer generalizar, observa-se regularmente que uma parte da polícia tem inclinações muito, muito à direita", afirmou.

As discussões acontecem num momento em que a extrema direita registra crescimento no país. Pesquisa publicada no domingo (19) pelo jornal Kronen Zeitung apontou o FPÖ, partido fundado por ex-integrantes do movimento nazista e atualmente na oposição, com 38% das intenções de voto. Nas eleições legislativas de setembro de 2024, a legenda havia obtido cerca de 29%.

Mesmo sem encerrar a controvérsia, a transformação da casa onde Hitler nasceu em sede policial representa uma tentativa do Estado austríaco de impedir que o imóvel continue sendo usado como ponto de referência para grupos extremistas, ao mesmo tempo em que preserva um espaço associado a um dos capítulos mais sombrios da história europeia.

Com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra