Peça-chave do caso Epstein é encontrado morto em Paris antes de ser interrogado pela Justiça
Aos 69 anos, Siad era conhecido por seu trabalho como recrutador de modelos e havia se tornado alvo de uma investigação
Daniel Siad, agente ligado ao mundo da moda, citado em documentos do caso Jeffrey Epstein e alvo de investigações na França por acusações de estupro e tráfico de pessoas, foi encontrado morto na noite de segunda-feira, 20, em sua casa na região de Paris. A morte ocorre no momento em que a Justiça francesa reexaminava conexões do financista norte-americano no país e amplia as incertezas sobre uma apuração considerada crucial por mulheres que buscam responsabilizar suspeitos de abusos no setor da moda.
A Justiça francesa abriu uma investigação para esclarecer a morte de Daniel Siad, encontrado na segunda-feira em sua residência em Colombes, nos arredores de Paris. O Ministério Público da região de Nanterre informou que uma autópsia será realizada para determinar as causas da morte.
Aos 69 anos, Siad era conhecido por seu trabalho como recrutador de modelos e havia se tornado alvo de uma investigação conduzida pelo órgão francês especializado no combate ao tráfico de seres humanos. Seu nome ganhou destaque após o avanço de investigações relacionadas a Jeffrey Epstein, financista norte-americano acusado de explorar sexualmente jovens e morto em 2019 em uma prisão nos Estados Unidos.
Documentos tornados públicos pelas autoridades norte-americanas mencionavam Daniel Siad em mais de mil registros, segundo acusadoras que o identificaram durante a análise desse material. O francês, que se apresentava como cidadão sueco e nascido na França, negava as acusações feitas contra ele.
Sua advogada, Menya Arab-Tigrine, afirmou à AFP que o cliente sempre se declarou inocente e havia pedido para ser ouvido pelas autoridades francesas.
Acusações surgiram após identificação em arquivos
A primeira denúncia contra Siad foi apresentada em 10 de fevereiro deste ano pela ex-modelo sueca Ebba P. Karlsson. Segundo ela, o acusado teria cometido estupro quando ela tinha 20 anos e posteriormente a teria explorado sexualmente ao apresentá-la a figuras influentes do setor da moda. A denunciante afirmou que só conseguiu identificar Siad décadas depois, quando examinou documentos relacionados ao caso Epstein divulgados nos Estados Unidos.
As acusações também citavam Gérald Marie, ex-dirigente da agência de modelos Elite. Tanto Siad quanto Marie negaram as acusações.
Nesta quarta-feira (22), Ebba P. Karlsson afirmou estar chocada com a morte do investigado. Segundo ela, havia expectativa entre as denunciantes de que uma eventual prisão pudesse contribuir para esclarecer responsabilidades de outras pessoas envolvidas nos fatos investigados. A ex-modelo declarou ainda esperar uma apuração aprofundada das circunstâncias da morte.
Mulheres dizem temer perda de provas
Ebba P. Karlsson integra o coletivo Victorious Angels - WE RISE, criado ao lado da jornalista britânica Lisa Brinkworth. O grupo reúne cerca de vinte mulheres que denunciam há anos supostos casos de violência sexual no universo da moda internacional. Muitas dessas denúncias envolvem pessoas que mantinham relações profissionais ou pessoais com Jeffrey Epstein.
Entre os nomes frequentemente citados pelas integrantes do coletivo está Jean-Luc Brunel, agente de modelos francês e antigo associado de Epstein. Brunel morreu em 2022, enquanto estava preso na França. Três anos antes, o próprio Epstein havia sido encontrado morto em uma cela nos Estados Unidos.
Para Lisa Brinkworth, a morte de Siad representa mais um golpe para mulheres que buscam obter responsabilizações judiciais em casos associados à rede de contatos do financista norte-americano.
"Caso Brunel" e agora "caso Siad", afirmou ela à AFP, deixaram sobreviventes sem respostas e sem a possibilidade de ver os processos avançarem plenamente.
Advogados criticam atuação da Justiça francesa
Os advogados Colomba Grossi e William Bourdon, que representam denunciantes, criticaram o Ministério Público de Paris após a confirmação da morte. Segundo eles, a atuação das autoridades foi insuficiente diante da gravidade das acusações e do número de mulheres que se apresentaram para depor.
A divulgação de milhares de arquivos ligados a Epstein levou a Justiça francesa a reabrir e aprofundar investigações sobre pessoas de seu círculo de relações no país.
Em maio, o Ministério Público informou que cerca de 20 possíveis vítimas haviam procurado as autoridades. Na ocasião, os investigadores afirmaram que analisavam novamente computadores, registros telefônicos e cadernos de contatos relacionados a Epstein, mas ainda não haviam interrogado suspeitos.
Morte interrompe linha de investigação
Para Juliette G., ex-modelo francesa de 43 anos, a morte de Daniel Siad poderá dificultar o esclarecimento de fatos investigados há décadas. Ela afirma ter sido recrutada por ele em Paris em 2004 para ser apresentada a Jeffrey Epstein em Nova York.
Segundo seu relato, a polícia judiciária francesa a convocou em junho deste ano para fornecer informações complementares sobre Siad. Na avaliação dela, o investigado poderia ajudar a esclarecer responsabilidades dentro de uma rede muito mais ampla. "Um novo elo desaparece", afirmou.
Com a abertura da investigação sobre a morte e a realização da autópsia, as autoridades francesas tentam agora determinar o que ocorreu em Colombes ao mesmo tempo em que prosseguem os esforços para esclarecer as conexões francesas do caso Epstein, uma das mais complexas e sensíveis investigações internacionais sobre exploração sexual das últimas décadas.
Com AFP
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