Conservadores alemães são castigados pela ultradireita em eleição estadual
Em revés histórico, a conservadora União Democrata Cristã (CDU) despencou para 17,8% dos votos nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, refletindo a impopularidade nacional do chanceler Friedrich Merz. O pleito foi amplamente dominado pelo partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD), que mais que dobrou seu desempenho ao alcançar 44%. Sem a maioria absoluta da AfD e diante do colapso da atual coalizão governista, a definição do próximo governo estadual permanece incerta.
União Democrata Cristã (CDU), o partido do chanceler federal Friedrich Merz, deve perder mais da metade do seu eleitorado no estado da Saxônia-Anhalt. Ultradireita mais que dobra votação e pode liderar próximo governo.Os conservadores alemães obtiveram neste domingo (06/09) uma votação desastrosa nas eleições do estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país, terminando bem atrás da ultradireita.
As primeiras projeções apontam que a legenda conservadora União Democrata Cristã (CDU), a mesma do chanceler federal Friedrich Merz, deve obter 17,8% dos votos no pleito, menos da metade dos 37,1% obtidos na última eleição no estado, em 2021.
Essa é de longe a pior votação já obtida pelo diretório da CDU na Saxônia-Anhalt desde que o estado foi reunificado com a Alemanha, em 1990.
Já a legenda de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) ultrapassou os conservadores por uma vantagem esmagadora. Pela pesquisa, os ultradireitistas devem obter 44% dos votos, mais de 20 pontos à frente da CDU, e mais que dobrando o resultado de 20,8% obtido na última eleição.
"Um resultado histórico", disse Ulrich Siegmund, candidato da AfD ao posto de governador da Saxônia-Anhalt. Ao falar com a imprensa após a divulgação das primeiras projeções, ele mencionou a impopularidade de Merz como um fator para o declínio da CDU, que acabou beneficiando a AfD. "Friedrich Merz foi um excelente cabo eleitoral para nós nesta campanha", ironizou o candidato.
Apesar do resultado robusto da ultradireita, pesquisas indicam que a AfD deve ficar aquém de garantir uma maioria no Parlamento do estado, deixando em aberto a indicação do próximo governador.
Descontentamento com Merz e declínio da CDU
Parte da imprensa alemã apontou que a eleição deste domingo, embora estadual, traduziu em grande parte o descontentamento nacional com o governo de Merz, que é aprovado por apenas 15% dos alemães, segundo pesquisa divulgada em setembro.
No momento, a administração Merz, que tomou posse em maio de 2025, tem enfrentado dificuldades para lidar com a estagnação econômica do país e o aumento do custo de vida entre os alemães.
Nacionalmente, a CDU também tem aparecido atrás da AfD em pesquisas de preferência do eleitorado. Na eleição federal de fevereiro de 2025, a CDU ainda conseguiu permanecer à frente dos ultradireitistas da AfD, obtendo 28,5% dos votos, contra 20,8% da AfD.
Mas, segundo uma pesquisa recente, se uma nova eleição ocorresse hoje, a AfD poderia obter 28% dos votos, já a CDU, partido que foi dominante em grande parte da história da Alemanha do pós-guerra, amargaria 20% dos votos.
Fim do reinado da CDU na Saxônia-Anhalt?
A Saxônia-Anhalt fica no território que compunha a antiga Alemanha Oriental.
Desde o fim do regime comunista, em 1990, o estado foi governado majoritariamente por administrações lideradas pela conservadora CDU, com apenas um intervalo de quase oito anos entre 1994 e 2002, quando o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, controlou o posto de governador.
Atualmente, o governador local é o conservador Sven Schulze, que tomou posse em fevereiro, após suceder o outrora popular governador Reiner Haseloff, que ficou quase 15 anos no cargo.
Com Friedrich Merz sofrendo com impopularidade em toda a Alemanha, Schulze tratou de esconder o líder alemão da sua campanha, preferindo exibir o apoio do influente governador da Baviera, Markus Söder.
Apenas na reta final da campanha, nesta semana, é que Merz tomou parte na campanha da Saxônia-Anhalt, viajando duas vezes ao estado e se encontrando com Schulze em eventos fechados. Nas duas ocasiões, o chanceler conservador permaneceu distante dos eleitores.
O resultado da campanha da CDU veio neste domingo, com o partido perdendo mais da metade dos votos recebidos em 2021. De acordo com pesquisas, a CDU sofreu uma hemorragia de votos em todas as faixas etárias. Entre os eleitores de 18 a 24 anos, apenas 5% votaram no partido. O partido ficou ainda atrás da AfD na faixa de 26 aos 69. Apenas no grupo de eleitores a partir de 70 anos os democratas-cristãos conseguiram um empate com o partido de ultradireita.
Nos últimos meses, Schulze vinha governando com uma tripla coalizão partidária, que, além da CDU, contava com o Partido Social-Democrata (SPD), de centro esquerda, e o Partido Liberal-Democrático (FDP, na sigla em alemão).
Após os resultados desse domingo, tal coalizão não tem chances de sobreviver na atual forma. Além da perda de espaço da CDU entre o eleitorado, o FDP conseguiu, segundo projeções, apenas 2,4% dos votos, ficando abaixo da cláusula de barreira de 5% e, portanto, não poderá mais contar com deputados estaduais na próxima legislatura.
Como a AfD não obteve, segundo as primeiras projeções, uma maioria clara no Parlamento, ainda não está certo quem vai governar a Saxônia-Anhalt. Em tese, Schulze ainda teria algum espaço de manobra para liderar um governo de minoria da CDU, mas tal cenário é incerto e o governador já está dofrendo pressão de alguns membros da própria CDU para deixar o cargo após o mau resultado.
Após a divulgação dos primeiros resultados, Schulze, reconheceu a derrota. "Há quem diga que este é um dia triste para a CDU. Eu digo: mas é assim a democracia", declarou Sven Schulze à chegada à concentração pós-eleitoral do seu partido.
"Muitas vezes, tivemos o vento a nosso favor" nas eleições, declarou o dirigente democrata-cristão; "O povo enviou uma mensagem, e agora temos de responder a essa mensagem, não apenas na Saxónia-Anhalt (...). É uma derrota para nós", admitiu Schulze, apontando ainda que teve que lidar com uma campanha "extremamente difícil e intensa".
Social-democratas e Verdes registram leve crescimento
Apesar do declínio acentuado da CDU e da derrocada do FDP, nem todos os partidos tradicionais alemães sofreram de tal maneira neste domingo na Saxônia-Anhalt.
O SPD, que participa da coalizão de governo liderada por Schulze, deve, segundo projeções, obter 9,1% dos votos - um crescimento de 0,7 ponto em relação ao pleito de 2021.
Já os Verdes, que em algumas pesquisas nos últimos meses ficaram no limite da margem de erro da cláusula de barreira de 5%, mostraram uma recuperação na reta final, e devem terminar com 8,7%, um crescimento de 2,8 pontos em comparação com a última eleição estadual.
Para os Verdes, que nunca mostraram muito força na Saxônia-Anhalt nas últimas décadas, trata-se do melhor resultado já obtido pelo partido nesse estado do leste alemão.
Já para o SPD, trata-se de um resultado ambivalente. Embora até tenha crescido levemente e evitado um declínio como o da CDU, os social-democratas terminaram muito atrás das porcentagens obtidas entre os anos 1990 ao início dos 2010, quando o partido estava acostumado a obter mais de 20% na Saxônia-Anhalt. O SPD também liderou dois governos da Saxônia-Anhalt entre 1994 e 2002. Agora, o partido se vê reduzido a formar a terceira maior bancada do Parlamento local.
Esquerda sofre declínio na Saxônia-Anhalt
Ao todo, seis partidos devem obter assentos no Parlamento da Saxônia-Anhalt, segundo projeções. Além da AfD, CDU, SPD e Verdes, os partidos A Esquerda e BSW devem eleger deputados estaduais.
Contrariando pesquisas que indicavam um leve crescimento do seu eleitorado, a legenda A Esquerda, fundada em parte por ex-membros do partido comunista da Alemanha Oriental. deve obter 8,8% dos votos, segundo projeções. O resultado, se confirmado, vai representar uma perda de 2,2 pontos em relação ao pleito de 2021 na Saxônia-Anhalt.
Esse deve ser o pior resultado já obtido pela sigla no estado desde a sua fundação, em 2007. O resultado também fica bem atrás dos resultados superiores a 19% obtidos nos anos 1990 e início dos 2000 pelo partido antecessor da atual legenda, o PDS.
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