Espanha investiga crianças perdidas sob o regime de Franco
Victoria Burnett
Durante 65 anos, Girón, mãe de sete crianças, sofreu desejando saber o que havia acontecido com seu filho Jesús. Nascido no início da década de 1940, durante os vingativos primeiros anos da ditadura do general Francisco Franco, ele foi levado de Girón para ser batizado após seu nascimento. Ela nunca mais voltou a vê-lo.
"Até o fim, minha mãe carregou a angústia de não saber o que havia acontecido com Jesús. Ela ansiava por encontrar o filho que lhe havia sido roubado", disse Antonio Prada Girón, 69 anos, filho mais velho de Emilia Girón, que morreu em 2007 aos 95 anos.
Vasculhando documentos e fotografias de família na casa de telhas acinzentadas onde sua mãe vivia, Prada disse que seus pais foram perseguidos pela polícia, que estava à caça de seu tio, um guerrilheiro fugitivo, nos anos que se seguiram após Franco tomar o poder. Os pais de Prada, que eram agricultores nas vinhas do vilarejo de Lombillo de los Barrios, no noroeste da Espanha, foram presos quando ele tinha dois anos. Sua mãe deu à luz a Jesús logo depois.
A história faz parte de um capítulo obscuro, e por muito tempo ignorado, das décadas de repressão sob o regime de Franco, que voltou a chamar atenção em novembro, quando o juiz Baltasar Garzón ordenou que juízes provinciais investigassem o "desaparecimento" de crianças levadas de famílias esquerdistas como parte de um esforço para eliminar a influência marxista na Espanha franquista.
Historiadores e associações que representam as vítimas de Franco dizem que centenas de crianças foram levadas das famílias que apoiavam os oponentes republicanos de Franco durante a Guerra Civil espanhola de 1936 a 1939, ou que eram suspeitas de ter ligações com grupos de esquerda. As crianças foram adotadas ou enviadas a escolas religiosas ou instituições do Estado.
Algumas foram batizadas com novos nomes, suas certidões de nascimento foram escondidas ou destruídas, denunciam. Outras, enviadas ao exílio durante a guerra pelos republicanos e trazidas de volta por Franco, receberam novas identidades.
"De certa forma, esse é o crime mais simbólico da era Franco", disse Emilio Silva, chefe da Associação para Recuperação da Memória Histórica, uma organização que escavou os restos mortais de centenas de pessoas em túmulos do franquismo. "Roubar uma criança e tirar sua identidade - foi isso que Franco fez com o país como um todo."
Em sua ordem judicial de 152 páginas, o juiz Garzón escreveu, "houve um desaparecimento 'legalizado' de menores, que perderam sua identidade, e cujo número permanece desconhecido". Ele sugeriu que poderiam existir milhares de "crianças perdidas", mas historiadores dizem que o número é exagerado.
"Houve definitivamente seqüestros de crianças nas prisões, abusos. Mas não sabemos realmente quantas foram", disse Angela Cenarro Lagunas, professora de História Moderna da Universidade de Zaragoza.
Ricard Vinyes, professor de História Moderna da Universidade de Barcelona e autor de um livro sobre as prisioneiras da época, disse que documentos e testemunhos orais indicavam que centenas de crianças perderam suas identidades quando foram separadas de suas mães na prisão.
O caso ecoa um pouco uma guerra na Argentina nos anos 1970 e 1980, quando filhos de dissidentes assassinados foram secretamente roubados e, em grande parte, adotados por famílias de militares. Vinyes disse que Franco não escondeu seu projeto de reeducar os filhos de seus inimigos.
O principal psicólogo militar de Franco, Antonio Vallejo Nágera, alegou que a Espanha poderia ser salva do Marxismo se os filhos de pais republicanos fossem isolados dos mesmos. Um decreto de 1940 permitiu que o Estado levasse crianças sob custódia se sua "formação moral" estivesse ameaçada.
"A lógica deles era que a solução estava na separação dos filhos de suas mães", Vinyes disse. Escolas católicas e o sistema de bem-estar social conhecido como Auxílio Social se tornaram uma máquina de reorientação política. As crianças do Auxílio Social viviam sob a doutrina fascista, disciplina rigorosa e rituais católicos, Cenarro disse.
Segundo Vinyes, quase 31 mil crianças chegaram a ser registradas sob custódia do Estado entre 1945 e 1954, a maioria delas de famílias republicanas. Para muitas, o motivo foi o encarceramento ou a execução de seus pais; para outras, foi o fato de seus pais não poderem sustentá-las.
Uxenu Ablaña, 79 anos, disse que foi atormentado por causa de suas origens esquerdistas nas instituições católicas e de bem-estar social onde viveu entre os seis e os 18 anos. Ablaña, vendedor de maquinários aposentado que cresceu no norte da Espanha, na vila asturiana de Pravia, foi colocado sob custódia do Estado após a polícia matar sua mãe e prender seu pai por colaborar com os republicanos. Ele disse que nas instituições era chamado de Eugenio Álvarez, a versão espanhola de seu nome asturiano.
"Eles me chamavam de 'filho de vermelho', comunista, diabo", Ablaña disse por telefone. Ele se lembra de quando foi obrigado a polir com cuspe 80 pares de sapatos no armário de vassouras. "É como se minha vida tivesse terminado no dia em que fui para o Auxílio Social."
Agora que o juiz Garzón ordenou a investigação das "crianças perdidas", associações que representam as vítimas de Franco dizem acreditar que poderão localizar algumas delas. O juiz instruiu tribunais provinciais em janeiro a coletar amostras de DNA de diversos espanhóis idosos ou doentes atrás de seus familiares.
Fernando Magán, advogado da Associação para Recuperação da Memória Histórica, disse que os juízes poderiam abrir os registros de adoção e as listas de crianças de instituições e escolas religiosas do Auxílio Social. Prada, que se mudou para a França em 1958, mas retorna todo inverno a Lombillo, disse que encontrar seu irmão poderia ajudar a fechar feridas.
"Isso deixou um buraco na minha vida, ter um irmão e não saber onde ele está, nem se ele foi criado por pessoas boas", disse, tocando um documento amarelado de família, um livreto oficial com uma listagem dos membros da família Girón. Jesús não está registrado nele. Quando Prada tinha cerca de 10 anos, ele e sua avó viajaram 290 km a Salamanca, onde sua mãe havia sido presa, para procurar por Jesús. Eles não encontraram nada e os guardas do orfanato ameaçaram enviar sua avó para a prisão se ela continuasse sua busca.
"Só de pensar que posso tê-lo encontrado na rua sem saber," ele disse com os olhos avermelhados. Mesmo com a nova investigação, ele disse, as chances de encontrar Jesús são mínimas. "É como procurar uma agulha no palheiro."
Tradução: Amy Traduções