Empresários brasileiros se encontram com Macron e acordo UE-Mercosul é destaque da agenda
Presidentes de grandes empresas e representantes da classe política se reuniram na manhã de quinta-feira (27) no Ministério da Europa e dos Negócios Estrangeiros, em Paris, para o Lide, fórum empresarial fundado pelo ex-governador de São Paulo, João Dória. O evento tratou de temas como parcerias estratégicas, a taxação de produtos brasileiros e o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. À tarde, alguns empresários se encontram com o presidente francês, Emmanuel Macron.
Tatiana Ávila, da RFI em Paris
No ano passado, um grupo de representantes de empresas reunido pelo Lide também teve um encontro com o presidente francês para apresentar algumas demandas da classe empresarial, mas nesta quinta-feira o principal foco do diálogo é a resistência da França para a assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Pressionado por agricultores franceses, Macron tem apresentado um discurso bastante conservador sobre o tema, que também foi pauta durante a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Paris, em junho deste ano, e da agenda do líder francês na COP30, em Belém.
Presente no evento, o ex-presidente da República, Michel Temer, também falou da expectativa para a assinatura do acordo. Ele criticou o posicionamento da França no âmbito da sua conclusão e lembrou das negociações feitas ao longo de seu governo.
"Eu, o presidente (Maurício) Macri, da Argentina, e todos os integrantes do Mercosul trabalhamos muito por isso. Avançou-se bastante, naquele período e hoje avançou-se mais ainda. Eu acho que nós estamos muito próximos e, convenhamos, depois de 20 anos, deveríamos ter conseguido há muito tempo. Mas há resistências, como da agricultura francesa, que, em vários momentos, criou dificuldades, mas creio que agora o presidente Macron está trabalhando intensamente junto ao presidente Lula para que se formalize esse acordo. Hoje o mundo vive de blocos, e os blocos devem se conjugar. Nada mais lúcido do que esta conexão entre o Mercosul e a União Europeia", destacou.
A ex-ministra e ex-senadora Kátia Abreu, outra entusiasta da parceria comercial, contou que aguarda a concretização do acordo há 15 anos e que agora, depois de tanta espera, acredita que ele sai do papel, sendo o dia 20 de dezembro a data proposta pelo presidente Lula para a assinatura.
"Eu estou confiante de que vá acontecer, porque é um acordo excelente para os países, para o Brasil, para o Mercosul e para os europeus. Tenho a certeza de que, de certa forma, esse acordo também tira os europeus do isolamento, já que faz tempo que não fazem nenhum acordo. Os americanos estão retaliando muito os países do mundo com as suas sobretaxas. E nós nunca mais fizemos um acordo que não seja o do Mercosul. Então vai ser uma grande novidade para os dois continentes, e vai dar um grande incentivo às duas regiões", afirmou.
Garantias para os agricultores franceses
José Batista Júnior, presidente da JBJ Agropecuária, parte do grupo JBS, dos maiores produtores de proteína animal do mundo, falou sobre o objetivo do encontro com o presidente Macron.
"A delegação quer falar exatamente sobre esse tema e para que a gente traga tranquilidade para a França de que nós não vamos atrapalhar o mercado do agronegócio do país e dos produtores franceses. O mais importante é deixar claro e tranquilizar, sobretudo, os produtores franceses e europeus como um todo de que nós não estamos aqui para prejudicar, mas sim para ajudar a abastecer, a segurar a inflação, e ter essa conexão tanto de importar quanto de exportar, para que todos os países façam um bom negócio", disse.
Para Kátia Abreu, os produtores brasileiros também podem acabar contrariados com a entrada de certos produtos com menos impostos no país.
"Nós já temos uma balança comercial desfavorável com a França, temos muitos investimentos franceses no Brasil, mas temos interesse em continuar importando produtos da França, ampliar essas importações e obedecer às cotas e os limites do que nós vamos exportar para cá. Não há ameaças. No entanto, os produtores de vinho do Brasil estão de cabelo em pé, porque sabem o quanto os vinhos franceses são competitivos e adorados pelos brasileiros", disse.
O fórum empresarial abordou ainda temas como a transição energética e minerais estratégicos, segurança alimentar, sustentabilidade, atratividade econômica e potencial tecnológico.
Entre as autoridades francesas que participaram, além de representantes de empresas como a Engie e do Medef, organização do patronato francês, estiveram no Ministério da Europa a ministra da Francofonia, Eleonore Caroit e a presidente do Conselho Regional de Île de France, Valérie Pécresse, que destacou o grande potencial de negócios entre os dois países e afirmou que "França e Brasil precisam de uma parceria mais forte, baseada em equilíbrio e vantagens reais para os dois lados".
Mercado interno
Um empresário que participou do encontro disse que o presidente francês Emmanuel Macron falou sobre oportunidades de parcerias entre os dois países, especialmente no setor de Inteligência Artificial. Ele fez comentários sobre o momento geopolítico complicado, com a guerra na Ucrânia, mas que não se aprofundou no tema do acordo entre o Mercosul e União Europeia. Segundo esta fonte, Macron comentou ainda que, no âmbito do comércio internacional, a Europa está em uma situação delicada, entre a China e os EUA, e que o continente precisa competir, mas sem deixar de cuidar do seu mercado interno.