Em visita à Espanha, papa pede o fim dos 'discursos que dividem a sociedade'
Em seu primeiro dia de visita à Espanha, o papa Leão XIV pediu, no sábado (6), o fim dos "discursos que dividem e polarizam" a sociedade e das "simplificações estéreis". A viagem do pontífice, de sete dias, está centrada na imigração e na recepção de migrantes.
Em seu discurso no palácio real de Madri, o papa agradeceu à Espanha por seu "compromisso fiel com o direito internacional e o multilateralismo", e elogiou o "engajamento constante" de Madri "em favor da paz".
O primeiro-ministro Pedro Sánchez se opõe abertamente à guerra no Irã, gerando tensões com o presidente americano Donald Trump, além de criticar as operações conduzidas por Israel em Gaza. O pontífice, nascido nos Estados Unidos, também foi criticado por Trump por seu posicionamento.
Leão XIV lamentou que "a mensagem de paz soe infelizmente para alguns como ingênua e, para outros, como provocadora", quando deveria, ao contrário, encontrar "eco entre aqueles que não se fecham em ideologias prontas". O discurso foi pronunciado na presença do líder do partido de extrema direita Santiago Abascal, que se levantou e aplaudiu ao final.
A visita de Estado de sete dias também destacará a justiça social e incluirá, na segunda-feira, um discurso inédito no Parlamento espanhol, além de uma visita às ilhas Canárias, onde o papa encontrará migrantes e organizações que os apoiam.
Antes de aterrissar na capital espanhola, o pontífice conversou com jornalistas no avião e reconheceu que os abusos sexuais na Igreja Católica continuam sendo "uma ferida aberta", antes de um encontro previsto com vítimas durante sua estadia na Espanha.
Acusações de abuso sexual
O rei Felipe VI, que o recebeu no aeroporto de Madri-Barajas ao lado da rainha Letizia e do primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez, elogiou a "clareza" e a "firmeza" do papa diante dos abusos sexuais na Igreja. Segundo ele, as declarações são essenciais "para as vítimas, para a Igreja e para a sociedade em geral".
Mais de 200 mil menores podem ter sofrido abusos sexuais por parte de religiosos católicos na Espanha desde 1940, segundo dados oficiais. O governo de Pedro Sánchez e a Igreja espanhola firmaram, no fim de março, um acordo para indenizar as vítimas, após anos de resistência e falta de transparência da hierarquia eclesiástica.
Após uma visita a um centro social da capital, o primeiro dia de Leão XIV na Espanha terminará com uma vigília de oração perto do estádio Santiago Bernabéu, do Real Madrid, onde são esperados 400 mil jovens.
"Eles percebem que há um vazio, uma falta de sentido, e talvez minha visita tenha ajudado a despertar algo que eles nem sabem bem definir", afirmou o papa no avião, ao ser questionado sobre um possível interesse crescente dos jovens pela Igreja Católica.
"Se lhes perguntarem se querem ver Bad Bunny ou o papa, acho que muitos escolherão Bad Bunny. Mas também acho que alguns virão ver o papa. E isso significa algo", disse, sorrindo, em referência à superstar porto-riquenha, que realiza uma série de 10 shows na capital espanhola.
Homenagem aos migrantes
No domingo, Leão XIV celebrará uma missa no coração de Madri, na praça de Cibeles, com a presença esperada de um milhão de fiéis. O papa celebrará em Barcelona uma missa na Sagrada Família, um século após a morte de seu arquiteto, Antoni Gaudí, declarado "venerável" pelo Vaticano no ano passado, etapa anterior à beatificação.
Leão XIV encerrará sua visita no arquipélago das Canárias, ao largo da costa africana, principal porta de entrada de migrantes na Espanha. O papa, de 70 anos e muito sensível ao tema, assim como seu antecessor Francisco, encontrará migrantes e organizações que os apoiam, enquanto milhares morrem tentando chegar à Europa (1.172 em 2025, segundo a Organização Internacional para as Migrações).
Em uma posição considerada exceção na Europa, Pedro Sánchez lançou recentemente um amplo plano de regularização de imigrantes sem documentos, que deve beneficiar cerca de meio milhão de pessoas, mas que vem sendo duramente criticado pelo Partido Popular (direita) e pelo Vox, partido de extrema direita que se tornou a terceira força política do país. Esta é a primeira visita de um papa à Espanha em 14 anos, um dos berços do catolicismo na Europa e onde a religião vem perdendo influência rapidamente.
Com agências
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