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Entenda por que Zelensky trocou o comandante das Forças Armadas em meio aos avanços da Ucrânia

22 jul 2026 - 06h52
(atualizado às 07h38)
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O novo chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Mykhaïlo Drapatyi, em Kiev, em 20 de julho de 2026.
O novo chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Mykhaïlo Drapatyi, em Kiev, em 20 de julho de 2026.
Foto: © Ukrainian Presidential Press Service/Handout via REUTERS / RFI

A decisão de Volodymyr Zelensky de substituir Oleksandr Syrskyi pelo general Mykhaïlo Drapatyi, de 43 anos, no comando das Forças Armadas da Ucrânia encerra uma disputa que extrapolou os quartéis e chegou às ruas de Kiev. Anunciada na terça-feira (21), a mudança ocorre apesar dos ganhos territoriais obtidos neste ano e revela divergências sobre a condução da guerra, o uso de drones, a renovação dos comandos militares e pressões políticas dentro do governo.

A destituição de Syrskyi ocorreu poucos dias após uma onda de manifestações em Kiev desencadeada pela inesperada demissão do ministro da Defesa, Mykhaïlo Fedorov, de 35 anos. Considerado um dos principais artífices da modernização tecnológica das Forças Armadas ucranianas desde o início da guerra, ele desfrutava de amplo prestígio tanto no governo quanto entre os aliados ocidentais.

Os protestos se transformaram rapidamente em uma contestação mais ampla. Manifestantes passaram a pedir a volta de Fedorov ao ministério, a saída de Syrskyi do comando militar e a nomeação de Mykhaïlo Drapatyi para a chefia do Exército.

A crise revelou divergências que vinham se acumulando há meses entre setores do governo e da estrutura militar sobre a forma de conduzir a guerra contra a Rússia.

Fedorov criticava abertamente Syrskyi e o acusava de dificultar iniciativas voltadas à inovação tecnológica, especialmente projetos ligados ao uso de drones, sistemas automatizados e novas ferramentas de combate adotadas pela Ucrânia para compensar a superioridade material russa.

Por trás do conflito pessoal havia um embate mais profundo entre duas visões estratégicas. De um lado, estavam os defensores de uma transformação acelerada das Forças Armadas por meio da tecnologia. De outro, oficiais associados a métodos tradicionais de planejamento e comando militar.

General deixa cargo após série de vitórias militares

A saída de Syrskyi chamou atenção porque acontece em um momento relativamente favorável para as tropas ucranianas.

Em mensagem divulgada nesta quarta-feira (22), o militar fez um balanço positivo de sua gestão e afirmou que a Ucrânia recuperou cerca de 700 quilômetros quadrados de território apenas neste ano.

Segundo o general, ele entrega ao sucessor um Exército que não apenas preserva suas linhas defensivas, mas também mantém capacidade ofensiva diante das forças russas.

Syrskyi ocupava o posto desde o início de 2024, mas sua trajetória militar está associada a alguns dos principais sucessos da Ucrânia desde o começo da invasão em larga escala lançada por Moscou em fevereiro de 2022.

Entre os episódios que marcaram sua carreira estão a defesa de Kiev nos primeiros meses da guerra, a contraofensiva na região de Kharkiv em 2022 e a operação conduzida por forças ucranianas na região russa de Kursk em 2024.

Esses resultados, porém, não impediram o avanço das críticas. O comandante era frequentemente acusado por adversários internos de adotar um estilo excessivamente rígido e de manter práticas consideradas ultrapassadas por setores favoráveis às reformas.

Nova geração assume o comando

O sucessor de Syrskyi representa justamente a corrente defendida pelos partidários da renovação.

Mykhaïlo Drapatyi integra uma geração de oficiais formada nos combates travados contra forças pró-russas desde 2014. Seu nome ganhou notoriedade durante a batalha de Mariupol, quando participou de uma operação para resgatar policiais cercados.

Em novembro de 2024, ele foi nomeado comandante das forças terrestres da Ucrânia. No cargo, apoiou mudanças nos sistemas de recrutamento, treinamento e preparação dos militares.

Sua passagem pela função também enfrentou dificuldades. Em junho de 2025, Drapatyi apresentou sua renúncia depois que um ataque russo atingiu um centro de treinamento militar e matou 12 soldados ucranianos.

Apesar disso, sua popularidade permaneceu elevada entre militares e civis favoráveis a uma modernização mais rápida das forças armadas.

O fato de seu nome ter sido repetidamente citado pelos manifestantes nos últimos dias demonstrou que a defesa de reformas e de um maior investimento em tecnologia passou a mobilizar não apenas integrantes do governo, mas também parte da população.

Zelensky tenta encerrar crise

Ao anunciar a mudança no comando militar, Zelensky também procurou reduzir a tensão provocada pela saída de Fedorov.

O presidente afirmou ter oferecido ao ex-ministro um cargo relevante na supervisão do setor tecnológico do Estado. Fedorov, no entanto, já havia sinalizado que gostaria de retornar exclusivamente ao Ministério da Defesa.

A nomeação de Drapatyi sugere que Zelensky decidiu responder às críticas sem provocar uma ruptura mais ampla dentro do aparato de segurança do país.

Em sua primeira manifestação após assumir o cargo, o novo comandante demonstrou alinhamento com a visão defendida por Fedorov. Em mensagem publicada nas redes sociais, afirmou acreditar em um Exército capaz de aprender continuamente, desenvolver novas tecnologias, proteger a população e responsabilizar os comandantes pelos resultados alcançados.

Com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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