Brasileira lança romance depois de descobrir ser descendente do bibliotecário de D. João VI
Radicada em Portugal há seis anos, Deborah Trois se divide entre a contabilidade e o fascínio pela genealogia, área a que se dedica há 11 anos. Nas pesquisas, descobriu ser a descendente direta do bibliotecário real de D. João VI, na transferência da corte de Portugal para o Brasil.
Após pesquisar suas origens paternas em Portugal, a brasileira Deborah Trois descobriu ser sexta neta de Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, bibliotecário de D. João VI que levou o acervo inicial da Real Biblioteca ao Rio de Janeiro em 1811. A descoberta genealógica e o estudo de 186 cartas históricas do antepassado inspiraram Deborah a escrever o romance de ficção histórica "O Segredo de Marrocos". Lançada recentemente em Portugal, a obra traz revelações inéditas e tem previsão de estreia no Brasil.
Fábia Belém, correspondente da RFI em Portugal
Contadora apaixonada por genealogia, Deborah Trois decidiu investigar o passado da família quando ainda morava em Niterói, sua cidade natal. Localizou as raízes franco-suíças da mãe e, quando mudou-se para Portugal em 2020, dedicou-se a pesquisar as origens do pai. O que ela não esperava era descobrir um antepassado ligado à corte portuguesa, o que acabou por dar origem ao seu primeiro livro — o romance de ficção histórica "O Segredo de Marrocos".
"Tive essa grande surpresa de ser descendente direta. Eu sou sexta neta de Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, que foi o bibliotecário real de D. João VI na transferência da corte de Portugal para o Brasil", explica.
Em 1811, três anos depois da transferência da corte, Marrocos partiu de Lisboa para o Rio de Janeiro com a missão de acompanhar a segunda remessa de livros e manuscritos da Real Biblioteca, que constituíram o acervo inicial da Biblioteca Nacional do Brasil, instalada na capital fluminense. Na nova sede, ele foi encarregado de organizar os manuscritos da Coroa Portuguesa, o que o levou a trabalhar no Paço Imperial, onde ficava o gabinete do então príncipe regente D. João, que se tornou rei D. João VI, em 1816, com a morte da sua mãe. Como sublinha Trois, Marrocos "tinha uma proximidade grande com Dom João VI; ele participava do 'beija-mão' (cerimônia na qual suditos prestavam reverência ao rei). Então, ele estava por dentro daquela corte".
Pesquisa documental
Até chegar a Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, a autora brasileira recorreu a registros paroquiais do Arquivo Distrital de Lisboa e a documentos oficiais da Torre do Tombo, que é o Arquivo Nacional português. Ela também utilizou plataformas digitais de genealogia e de coleções históricas da imprensa da época. Toda a investigação seguiu o Padrão de Prova Genealógica, método que serve para confirmar a exatidão de dados históricos. Nesse processo, alguns documentos serviram como peças-chave para ajudar a desvendar o passado da família paterna de Deborah.
"Quando eu obtive a certidão do meu avô, a avó dele já era uma Marrocos", recorda Deborah Trois.
Depois que descobriu ser descendente do bibliotecário real, a autora começou mais uma investigação que durou cerca de dois anos. O pilar da pesquisa foi o epistolário de Marrocos — o conjunto de 186 cartas que ele escreveu à família, em Lisboa, entre 1811 e 1821, ano em que D. João VI embarcou de volta a Portugal. Os documentos, muito usados por historiadores, revelam os bastidores da corte e a rotina da colônia.
Deborah Trois, que, à época, não tinha o epistolário de Santos Marrocos, conta que "foi uma corrida nos sebos e alfarrabistas (livrarias especializadas em livros raros)" para conseguir o acervo. E, depois de ler todas as correspondências, "consegui ter uma visão, a minha visão do homem inteiro. Eu, como descendente, fui [pesquisar] desde o nascimento até o fim", afirma.
Livro 'O Segredo de Marrocos'
A coletânea de cartas do bibliotecário real foi a principal matéria-prima do livro "O Segredo de Marrocos", publicado pela editora portuguesa Cordel d'Prata e lançado em agosto na cidade do Porto. Sem dar detalhes, a autora diz que a obra "conta mais sobre o homem inteiro do que só sobre aquela parte do epistolário, que é mais usada pelos historiadores".
"Esse livro não esconde nada. Ele abre o arquivo em vez de fechá-lo. E eu acho que essa é a minha grande missão: abrir esse arquivo do Luiz Joaquim e deixar que as pessoas o conheçam, nem absolvendo o Luiz Joaquim, nem condenando o Luiz Joaquim, [mas] conhecendo ele por inteiro", antecipa Trois, lançando um tom de mistério para os futuros leitores.
E sem revelar o segredo de Marrocos, a autora garante que o livro guarda uma descoberta pessoal, porque "vai além da vida que ele construiu no Rio de Janeiro e com um achado inédito meu, que nunca foi falado, nunca foi escrito por nenhum historiador".
'Dobra no tempo'
A expectativa de Deborah é que "O Segredo de Marrocos" seja lançado no Brasil até o início de outubro, mas ainda este mês a autora já tem agendada uma sessão de autógrafos em Lanhelas, no norte de Portugal.
Foi nessa vila do município de Caminha, a cerca de 100 quilômetros da cidade do Porto, que Trois localizou os descendentes da família Marrocos que permaneceram em Portugal — um encontro que imprimiu uma face contemporânea à própria pesquisa.
"Eu me sinto exatamente como se fosse uma dobra no tempo. Luiz sempre quis muito voltar a Portugal, [mas] acabou por ficar no Brasil, e acabou que uma descendente de sexta geração volta e reencontra os Marrocos que ficaram aqui. É muito bonito; é um ciclo que se fecha e um ciclo que se abre", analisa a autora.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.