Em Davos, Macron alerta contra a 'lei do mais forte' e critica tarifas dos EUA
Ao discursar na 56ª edição do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, nesta terça-feira (20), o presidente francês Emmanuel Macron destacou a importância da cooperação global e criticou a "lei do mais forte" no cenário internacional. Usando óculos escuros por conta de uma "condição ocular", ele defendeu o multilateralismo e prometeu ficar ao lado da Dinamarca, "como se espera de um aliado".
Em 2026, o Fórum Econômico Mundial tem como tema central "o espírito de diálogo", em um contexto de fortes tensões geopolíticas e econômicas, alimentadas em parte pelo presidente norte‑americano, Donald Trump, que retorna ao evento na quarta-feira (21).
Em seu discurso, Macron descreveu que o mundo está entrando em um período de instabilidade e desequilíbrios do ponto de vista da segurança e da economia. Frente às ameaças dos Estados Unidos, o presidente francês denunciou uma "deriva para a autocracia e aumento da violência", segundo a qual os "conflitos se tornaram a norma".
Emmanuel Macron pediu a rejeição da máxima "a força faz o direito", afirmando preferir "o respeito em vez dos valentões" e "o Estado de Direito em vez da brutalidade".
Macron disse que "não é momento para imperialismos e colonialismos". "A Europa pode ser lenta, mas somos previsíveis e temos regras da lei, o que é uma vantagem nos dias atuais", completou Macron.
O presidente francês denunciou as tarifas norte-americanas como ainda mais "inaceitáveis" por serem utilizadas como "meio de exercer pressão contra a soberania territorial".
"Sem governança coletiva, a cooperação cede espaço a uma concorrência desenfreada. A concorrência dos Estados Unidos ocorre através de medidas comerciais que prejudicam os nossos interesses de exportação e demandam concessões. E que estão frontalmente direcionadas a enfraquecer e subordinar a Europa. Soma-se a isso, a acumulação de novas tarifas, o que é inaceitável", declarou.
Macron disse em Davos que é chegada a hora de "avançar com o princípio da preferência europeia". O presidente francês ainda criticou o desrespeito às regras internacionais.
"Entramos em um mundo sem lei, onde o direito internacional é desrespeitado, pisoteado, onde as únicas leis que parecem importar são as do mais forte ou as ambições imperialistas que retornam", denunciou Macron.
Novas tarifas
Donald Trump anunciou, nesta terça-feira, uma reunião sobre a Groenlândia com "diversas partes" à margem do Fórum Econômico de Davos.
Na segunda-feira (19), antes de partir para a Suíça, o presidente dos EUA ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses, em resposta à recusa de Emmanuel Macron em participar de seu "Conselho da Paz".
Paris foi o primeiro país de peso internacional a dizer claramente "não" ao convite norte-americano para um conselho que se assemelha a um substituto da ONU, mas inteiramente sob o controle de Donald Trump.
Em uma mensagem privada que não deveria ter sido divulgada publicamente, mas foi revelada nesta terça-feira pelo presidente norte-americano, Emmanuel Macron chegou a propor a Donald Trump uma cúpula do G7 em Paris. Na mensagem, Macron afirma não entender o que os Estados Unidos pretendem no caso da Groenlândia.
"Estamos completamente alinhados em relação à Síria. Podemos fazer grandes coisas no Irã. Não entendo o que vocês estão fazendo na Groenlândia", escreveu o presidente francês.
A resposta do líder norte-americano não foi divulgada, e o Kremlin afirmou não ter recebido nenhum convite. Essa cúpula do G7 não está "planejada", disse Emmanuel Macron à AFP em Davos, confirmando sua "disponibilidade" para sediá-la, mesmo estando previsto que participe de uma cúpula europeia em Bruxelas na noite de quinta-feira (22), dedicada justamente a responder aos Estados Unidos.
Donald Trump continua sendo um aliado? "Isso cabe a ele responder", declarou Emmanuel Macron em Davos, antes de acrescentar: "Os comportamentos que acompanham esse status não são exatamente o que se esperaria".
Em Paris, o ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Noël Barrot, afirmou que a França não cederá "a nenhuma chantagem" e "jamais se submeterá".
A União Europeia (UE), por sua vez, considera a aplicação de tarifas sobre produtos norte-americanos no valor de 93 bilhões de euros a partir de 6 de fevereiro, e até mesmo a ativação de seu instrumento anticoerção (ACI), em resposta às ameaças de Donald Trump relacionadas à Groenlândia.
Com AFP