Edição francesa de 'Cotas Raciais' provoca debate sobre dados, raça e desigualdade
A publicação na França do livro "Cotas Raciais", da promotora de Justiça brasileira Lívia Sant'Anna Vaz, reacende o debate sobre o uso de dados para medir desigualdades, tema que voltou ao centro da discussão pública após a inclusão da pergunta sobre a origem dos pais no recenseamento francês de 2025. Para a autora baiana, a experiência brasileira com ações afirmativas mostra que, sem diagnóstico, não há combate eficaz ao racismo. "A igualdade não é uma realidade na França", afirma.
Lançado no Brasil pela coleção Feminismos Plurais, "Quotas Raciaux" chega ao público francês pela editora Anacaona justamente quando o país revisita os limites e a urgência de produzir dados sobre origem e discriminação. Lívia defende que reconhecer a raça como categoria analítica é indispensável para enfrentar desigualdades persistentes. "Negar o uso do nome raça não vai fazer com que o racismo desapareça", diz a promotora.
Embora a França se recuse historicamente a produzir estatísticas étnico-raciais diretas, o reconhecimento das desigualdades existe. Relatórios sucessivos mostram que estudantes associados a origens estrangeiras são orientados de forma desproporcional para cursos técnicos; que 24% dos universitários afirmam sofrer discriminação relacionada à origem; que jovens com sobrenomes africanos precisam enviar muito mais currículos que seus pares para conseguir entrevistas de trabalho; e que jovens de bairros populares enfrentam abordagens policiais muito mais violentas do que os demais.
Para Lívia, esses dados fragmentados revelam uma verdade persistente: a igualdade republicana permanece, para muitos, apenas uma promessa. "É muito difícil curar uma doença sem diagnóstico. O racismo é uma doença, um câncer que precisa de cura", afirma. Na visão da promotora, a recusa em medir não protege ninguém, apenas impede que políticas públicas sejam desenhadas de forma eficaz.
Brasil levou tempo para construir seu sistema de ações afirmativas
A autora insiste que a resistência ao reconhecimento da raça como categoria política não é exclusividade francesa. O Brasil também viveu um longo percurso até adotar políticas amplas de ações afirmativas. As primeiras iniciativas com recorte racial surgiram em 2001, e apenas em 2012 o país consolidou um sistema nacional de cotas por meio da Lei 12.711, após mais de uma década de debates, disputas públicas e amadurecimento institucional.
Para Lívia, essa comparação é importante porque mostra que nenhum país supera o racismo sem enfrentar tensões, contrapontos e revisões profundas de seus modelos de igualdade.
A contribuição do livro ao debate francês
É nesse contexto que "Quotas Raciaux" chega à França. O livro, baseado em sólida argumentação jurídica, histórica e moral, explica como as ações afirmativas brasileiras foram estruturadas para corrigir desigualdades persistentes e ampliar a presença de pessoas negras em espaços de poder.
Lívia enfatiza que as cotas não eliminam o mérito; ao contrário, selecionam os mais preparados dentro do grupo destinatário da política pública, corrigindo distorções produzidas por séculos de exclusão.
Para ela, a ideia de que a raça não deve ser mencionada é uma armadilha conceitual que só beneficia aqueles já privilegiados. "Raça e gênero são dois dos principais marcos de classificação social das pessoas. A raça se impõe antes mesmo que eu abra a boca", afirma. Ignorá-la, diz, não transforma a sociedade; apenas torna o racismo ainda mais eficiente.
Responsabilidade e omissões persistentes
Lívia também aponta que a relutância francesa em discutir raça se conecta à dificuldade histórica de enfrentar o passado colonial. Ela critica a abstenção de países europeus, entre eles França e Portugal, na recente votação da ONU que classificou a escravidão como o crime mais grave já cometido contra a humanidade. Para a promotora, não se trata de um debate apenas jurídico, mas ético e moral: nenhuma sociedade supera desigualdades se continuar a evitar o reconhecimento de suas responsabilidades históricas.
Ao refletir sobre a história da população negra, Lívia lembra que o processo escravocrata no Brasil envolveu desumanização sistemática: perda de nomes africanos, separação de famílias, perseguição à cultura e à religiosidade. Mesmo assim, afirma, a ancestralidade resistiu. "Baobás têm raízes profundas", diz, evocando a força simbólica da árvore africana. Essa herança cultural e intelectual, segundo ela, precisa estar refletida na universidade, na política e nos espaços de tomada de decisão.
O desafio comum à França e ao Brasil
No pensamento da autora, o desafio é compartilhado: França e Brasil precisam reconhecer institucionalmente a diversidade que já compõe suas sociedades. Mesmo onde políticas de ações afirmativas avançaram, como no Brasil, o racismo estrutural continua forte e as desigualdades históricas da população negra permanecem evidentes.
"Cota não é esmola. É uma medida justa. É uma dívida histórica. É muito pouco diante de tudo o que nos foi negado", conclui a promotora de Justiça baiana.