Duo mineiro leva o choro contemporâneo ao Festival Internacional de Paris
O duo formado pelas multi-instrumentistas Noemi Guimarães e Bia Nascimento é uma das atrações da 22ª edição do Festival Internacional de Choro de Paris, que acontece de 27 a 29 de março na capital francesa. Também compositoras e arranjadoras, as duas se conheceram em Belo Horizonte, nas rodas de choro impulsionadas por coletivos de mulheres.
Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris
A afinidade virou parceria, e logo elas começaram a tocar juntas com regularidade, explorando repertórios que vão além do choro tradicional, com espaço generoso para o improviso. "Eu me mudei para BH para fazer mestrado na UFMG, e a Bia já morava lá. Nos conhecemos numa roda organizada por mulheres no choro e nos conectamos de cara", conta Noemi.
O duo também se insere em um movimento mais amplo: a consolidação da presença feminina no choro. Embora a história do gênero tenha consagrado nomes como Chiquinha Gonzaga, muitas compositoras e instrumentistas ficaram à margem da documentação.
"Eu comecei meu doutorado pesquisando mulheres no choro. Percebi que elas sempre existiram — o problema é que não foram vistas", explica Bia Nascimento.
Ela cita compositoras como Lina Pesci e Carolina Cardoso de Menezes, ainda pouco lembradas. "A gente está mudando isso. As mulheres vão abrindo portas umas para as outras", comemora.
O choro como herança familiar
Noemi, parisiense de nascimento, cresceu mergulhada na tradição do gênero. Filha da pianista e compositora Maria Inês Guimarães, idealizadora e diretora artística do festival de Choro Internacional de Paris, ela frequentou oficinas, rodas e concertos desde a infância. "Cresci dentro do festival", lembra.
A música se formou no conservatório francês, estudou piano e flauta, e mais tarde decidiu aprofundar seu contato com o choro no Brasil. Há dois anos, mudou-se para Belo Horizonte para estudar música popular na UFMG.
A França vive um momento de entusiasmo crescente pelo choro e outros ritmos brasileiros. Noemi observa que o interesse se espalha entre profissionais da música e também entre amadores apaixonados. "Muita gente descobre o choro em uma viagem ao Brasil ou numa roda aqui mesmo. E temos muitos brasileiros dando aula, o que fortalece essa cena", descreve.
Gênero em plena renovação
Desde 2024, o choro é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, e críticos apontam que o gênero vive uma das fases mais criativas de sua história. Jovens instrumentistas expandem fronteiras, misturam linguagens, incorporam referências contemporâneas e experimentam com tecnologia — tudo sem perder o respeito pelas tradições.
"BH tem roda de choro todos os dias. Quando me mudei para lá, fiquei impressionada com a força dessa cena", diz Bia. A prática intensa em rodas também alimenta uma das principais características do choro: o improviso. "A graça é colocar algo seu na música. Eu proponho uma variação, a Bia responde, e nasce ali uma conversa ao vivo", explica Noemi.
A apresentação em Paris será especial por muitos motivos, especialmente para Bia, que está na França pela primeira vez. "As expectativas são as melhores. Temos um repertório definido, mas nunca sabemos o que pode acontecer na hora. Estou muito feliz", diz.
As primeiras impressões? "Poucas, mas ótimas. A comida já me conquistou - dialoga com Minas. E o queijo me ganhou completamente", revela.
Recém-formada no mestrado, Noemi diz que, por enquanto, quer seguir em Belo Horizonte, onde encontrou uma cena "pulsante" e cheia de oportunidades. "Mas não descarto voltar à França um dia. É a minha primeira casa."