COP17 abre na Mongólia sob alerta global: desertificação já ameaça até a França
Enquanto a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) é aberta nesta segunda-feira (17) na Mongólia, um tema que durante décadas pareceu distante da Europa ganha as manchetes francesas: a degradação dos solos. Após uma sequência de ondas de calor e uma seca histórica neste verão, a França vê avançar um fenômeno geralmente associado ao Sahel africano ou à Ásia Central, mas que agora também preocupa agricultores e cientistas europeus.
Menos conhecida do que as conferências da ONU sobre clima e biodiversidade, a COP sobre desertificação reúne governos, pesquisadores e organizações internacionais até 28 de agosto para discutir como restaurar terras degradadas e frear a perda da fertilidade do solo, considerada uma das maiores ameaças à segurança alimentar global.
"A desertificação não é apenas um problema dos desertos", resume à RFI o pesquisador emérito Jean-Luc Chotte, do Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), presidente do Comitê Científico Francês sobre Desertificação (CSFD) e participante das negociações internacionais sobre o tema.
Segundo ele, o fenômeno está diretamente relacionado à forma como os seres humanos utilizam a terra. "A degradação dos solos deve-se principalmente ao uso inadequado da terra pelas atividades humanas", afirma.
Calor extremo e colheitas em queda
A discussão ganha força em um momento crítico para a agricultura francesa. Nesta segunda-feira, o jornal Le Monde destaca os impactos da seca sobre a produção agrícola do país. A publicação relata quedas significativas na colheita de hortaliças e cereais, escassez de pastagens para o gado e dificuldades inéditas enfrentadas pelos produtores.
Entre as culturas mais afetadas estão cenouras, cuja produção caiu cerca de 30%, além de alfaces, alhos-porós e outros legumes que tiveram o crescimento interrompido pelas altas temperaturas. Os solos excessivamente secos e compactados também dificultam a retirada de batatas e outros tubérculos.
O cenário é resultado de uma combinação explosiva entre temperaturas elevadas, escassez de chuvas e degradação do solo, fatores que se reforçam mutuamente.
Aridez não é seca
Um dos pontos frequentemente mal compreendidos é a diferença entre aridez e seca.
De acordo com Jean-Luc Chotte, a aridez é uma característica climática permanente. Ela define regiões onde a evapotranspiração potencial supera amplamente a precipitação média ao longo dos anos.
Já a seca é um fenômeno temporário, caracterizado por um período excepcional de falta de água. Ela pode ocorrer mesmo em regiões tradicionalmente úmidas e está associada à redução das chuvas, temperaturas elevadas, ventos fortes e diminuição da água disponível nos solos, rios e reservatórios.
Em outras palavras, uma região árida convive naturalmente com pouca água; uma região afetada por seca enfrenta uma situação anormal de escassez hídrica.
Quando o solo perde a vida
A desertificação se manifesta de diferentes formas. Em áreas áridas, os sinais físicos são facilmente observáveis: solos endurecidos que não conseguem absorver água, erosão causada pelo vento, vegetação amarelada, redução da cobertura vegetal e queda da produtividade agrícola.
Mas há um elemento menos visível e igualmente importante.
"Quando se cava o solo, praticamente não se encontra vida. As raízes se tornam superficiais e os processos biológicos desaparecem", explica Chotte.
Os cientistas consideram o solo um organismo vivo. Bilhões de microrganismos, fungos e pequenos invertebrados garantem a reciclagem de nutrientes, a infiltração da água e a armazenagem de carbono. Quando esse sistema entra em colapso, a fertilidade diminui progressivamente.
A França entra na lista dos países afetados
A gravidade da situação levou a França a solicitar oficialmente, durante a COP16 realizada em 2024, sua inclusão na lista de países afetados pela desertificação da Convenção das Nações Unidas.
A decisão foi baseada em estudos conduzidos pelo Comitê Científico sobre Desertificação, pela infraestrutura de pesquisa DataTerra e pela ONG Nitidae.
Inicialmente, os pesquisadores analisaram apenas áreas da França metropolitana com clima árido, semiárido ou subúmido seco, concentradas principalmente no litoral mediterrâneo. Embora representem menos de 2% do território nacional, essas regiões já apresentavam sinais claros de degradação.
Em seguida, foram aplicados ao conjunto do país três indicadores utilizados pela ONU: mudanças no uso da terra, evolução da produtividade e estoques de carbono nos solos. O resultado mostrou que 3% do território francês já pode ser considerado degradado de acordo com os critérios internacionais.
No entanto, os especialistas consideram que esses indicadores não captam toda a complexidade do problema. Quando outros fatores são incluídos, como erosão hídrica e eólica, perda de biodiversidade, contaminação por metais pesados, salinização e deslizamentos de terra, o diagnóstico torna-se muito mais preocupante: cerca de 77% dos solos franceses apresentam algum grau de degradação.
O jornal Le Figaro ressalta que entre dois terços e três quartos das terras do país já estariam degradadas, um quadro que até poucos anos atrás era associado sobretudo a regiões vulneráveis da África e da Ásia.
O papel da agricultura intensiva
Para Chotte, a principal causa da desertificação continua sendo a pressão excessiva exercida sobre os ecossistemas.
Entre as práticas que aceleram a degradação estão a aração intensiva, a monocultura, a utilização excessiva de fertilizantes químicos e a redução da matéria orgânica nos solos.
O mesmo ocorre na pecuária quando a quantidade de animais ultrapassa a capacidade natural das pastagens.
"As mudanças climáticas amplificam esse processo", explica o pesquisador. Com temperaturas mais elevadas, aumenta a evapotranspiração. Ao mesmo tempo, as chuvas tornam-se mais irregulares e mais violentas. Diante dessas dificuldades, muitos agricultores intensificam ainda mais a produção para garantir renda e abastecimento, alimentando um círculo vicioso de degradação.
Outro aspecto crucial é o papel dos solos no combate ao aquecimento global. Eles constituem o maior reservatório terrestre de carbono do planeta. Quando degradados, perdem a capacidade de armazenar carbono e contribuem para o agravamento das mudanças climáticas.
Soluções baseadas na natureza
Apesar do diagnóstico alarmante, especialistas defendem que a recuperação dos solos é possível.
Entre as medidas consideradas mais eficazes estão a rotação de culturas, a redução da mobilização do solo, a integração de árvores nas áreas agrícolas por meio da agrofloresta e a preservação da mobilidade tradicional dos criadores de gado em regiões áridas.
O jornal econômico Les Echos destaca um projeto-piloto desenvolvido no sudeste da França baseado na chamada "hidrologia regenerativa". O objetivo é desacelerar o escoamento da água da chuva para favorecer sua infiltração no solo.
A estratégia ajuda a reduzir a erosão, aumenta a retenção de umidade e fortalece a resiliência das paisagens diante das secas cada vez mais frequentes.
Para os participantes da COP17, essa adaptação tornou-se uma questão urgente. Segundo Jean-Luc Chotte, o desafio não é apenas proteger a produtividade agrícola, mas preservar um recurso fundamental para a vida no planeta.
"O solo é a base da nossa alimentação, da biodiversidade e do equilíbrio climático. Quando o degradamos, comprometemos simultaneamente esses três pilares", alerta.
Na Mongólia, país marcado por vastas áreas semiáridas e pelo avanço da degradação das terras, os debates que começam nesta segunda-feira terão justamente essa missão: transformar a proteção dos solos em uma prioridade global, antes que a desertificação deixe de ser uma ameaça distante para se tornar uma realidade irreversível em cada vez mais regiões do planeta.
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