Coleção de crítico Roberto Pontual é vendida em primeiro leilão dedicado à arte brasileira na França
A coleção pessoal do crítico de arte brasileiro Roberto Pontual será leiloada em Paris nesta terça-feira (31). Trata-se da primeira venda na França dedicada exclusivamente a obras brasileiras. Reunido ao longo de décadas, o acervo reúne cerca de 150 peças de mais de 60 artistas contemporâneos, produzidas entre 1945 e 1994 - um conjunto que Vincent Wierink, ex-companheiro de Pontual, descreve como sendo "de afeto".
Crítico de arte, jornalista e poeta, Roberto Pontual marcou a cena artística carioca dos anos 1970. Após dirigir programas educativos e exposições no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), consolidou-se como uma voz influente, especialmente por meio de suas crônicas no Jornal do Brasil e da curadoria de exposições emblemáticas, como a representação brasileira na Bienal de Veneza em 1980.
Seu livro Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, publicado em 1969, quando Pontual tinha apenas 30 anos, permanece como obra de referência no mundo das artes. Além disso, ele publicou diversos ensaios e catálogos sobre arte contemporânea. Em 1980, mudou-se para Paris, onde continuou atuando como crítico e curador até sua morte, em 1994, em decorrência da AIDS.
Sua coleção reúne obras de artistas brasileiros contemporâneos emblemáticos, muitos deles amigos próximos de Pontual, como Paulo Roberto Leão, Carlos Scliar, Ione Saldanha, Alair Gomes, Glauco Rodrigues, Antonio Bandeira, Frans Krajcberg, Ivan Serpa, Cildo Meireles e Wanda Pimentel. O acervo foi constituído por meio de compras espontâneas em visitas a ateliês, presentes de artistas, trocas e até pagamentos por prefácios, catálogos ou curadorias.
Um retrato de afeto
Segundo Vincent Wierink, a coleção é "tanto um retrato da arte brasileira da segunda metade do século XX quanto um verdadeiro retrato de Pontual", um homem apaixonado pelos artistas e que não tinha a intenção de ser colecionador.
"Ele era uma pessoa que não tinha verdadeiramente uma preferência. Tinha um respeito tão grande pelos artistas que o leque de seu interesse era enorme. Ele passava pela fotografia, escultura, pintura, abstrato, figurativo, conceitual", diz Wierink, legatário universal de Roberto Pontual e herdeiro de sua obra e de sua coleção.
Ele conta que a decisão de vender um acervo tão pessoal, cujas peças decoravam o apartamento que o casal compartilhava, não foi simples. "Para mim, mergulhar novamente na coleção foi quase uma catarse, um movimento muito emocional. Eu redescobri a coleção, que estava escondida há mais de 30 anos."
"Logo após a morte do Roberto, em 94, eu tive que mudar tudo na minha vida. Tive que mudar de apartamento. Era quase insuportável ficar lá. Então mudei, empacotei a coleção inteira e pronto. Mudei de vida, mudei de lugar. Não vou dizer que esqueci a coleção, obviamente não, mas ela ficou guardada", lembra.
"No fim do ano passado, pensei: 'estou avançando na idade, e se acontece alguma coisa comigo, o que vai ser dessa coleção? Ninguém conhece essa coleção'", explica Wierink, que decidiu então entrar em contato com Salomé Pirson, da casa de leilões independente Maurice Auction, que chamou a consultora de arte brasileira radicada em Paris, Maria do Mar Guinle.
"Quando elas viram a coleção, tiveram uma reação imediata: a Salomé disse que era possível sentir uma alma por trás dela, e a Maria do Mar comentou que era uma coleção de afeto", lembra.
"Roberto, obviamente, tinha muito afeto e amizade por um grande número de artistas. Acho que não havia um artista que não gostasse do Roberto. Ele era uma pessoa luminosa, carismática, que queria o bem das pessoas. Às vezes eu digo que ele era mais um analista de arte do que um crítico. Não distribuía bons e maus pontos. Ele realmente ajudava as pessoas a se expressar, a atravessar crises", diz Wierink.
Uma aposta
"Nunca houve uma venda de arte brasileira moderna na França. Mas é uma aposta", afirma, lembrando que chegou a considerar realizar o leilão em Nova York ou no Brasil, mas decidiu rapidamente por Paris.
"Tudo bem nunca ter sido feito. Tudo bem fazermos uma aposta. Mas há também uma lógica para mim. É como se o círculo se fechasse. Roberto escolheu - bom, nós nos conhecemos e, por causa do nosso encontro, ele decidiu mudar de vida, deixar o Brasil e se radicar em Paris. Ele amou profundamente a França, amou profundamente a Europa. Então era natural, mais lógico, que a coleção fosse vendida na cidade onde ele escolheu viver e onde faleceu", diz.
O leilão será realizado às 15h em Paris (11h em Brasília). Uma parte do montante arrecadado será dedicada à organização francesa de luta contra o HIV, Sidaction.