No turbilhão das crises atuais, o pensamento de Jung ressurge como ferramenta para elaborar o mundo
Vivemos um momento em que o noticiário parece ecoar um passado que acreditávamos superado: guerras que retornam, fronteiras tensionadas, sociedades polarizadas, discursos inflamados que se repetem como velhos fantasmas. É nesse contexto que a psicóloga e psicanalista franco-brasileira Elaine Franzini Soria, membro da Associação Junguiana de Psicanálise da Occitânia, estará no dia 28 de março, em Toulouse, ao lado de outros especialistas, apresentando e debatendo com o público as bases da psicologia analítica no seminário "Os Complexos Culturais do Ocidente, Sombra e Futuro".
O encontro parte da constatação de que compreender o presente exige olhar para camadas mais profundas da psique coletiva - tema que orientou nossa conversa com a especialista. Elaine lembra que o conceito de "complexos", formulado pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), se baseia na existência de "zonas sensíveis" carregadas de emoção e memória.
"Cada pessoa carrega dentro de si zonas sensíveis, com muita energia psíquica concentrada em torno de um núcleo. E esse núcleo pode ser uma ferida antiga, uma memória carregada de emoção, uma experiência que marcou profundamente a vida da pessoa, o que Jung chama de 'complexos'", afirma. Segundo ela, Jung sublinhava algo decisivo: "Não sou eu, a pessoa, que tem um complexo; é o complexo que me tem."
Quando um elemento externo - "uma palavra, uma situação" - toca esse núcleo, explica Elaine, ele pode assumir momentaneamente o comando da consciência. "Isso invade o campo da consciência, então é isso que o Jung chamou de complexo."
Se esse funcionamento é visível na vida privada, ele se amplia no plano coletivo, observa a psicanalista franco-brasileira, que mora e atua profissionalmente em Montpellier (sul) desde 2017.
"Você imagina esta dinâmica individual alargada para o coletivo", observa.
"Alguns pesquisadores, como Thomas Singer e Samuel Kimbles [associados ao Instituto C. G. Jung de São Francisco, nos EUA], mostram que povos inteiros, culturas inteiras e nações também carregam seus complexos."
Ao analisar o cenário atual, marcado por conflitos armados e por disputas ideológicas acirradas, Elaine destaca o papel da sombra coletiva - outro conceito essencial de Jung. "A sombra é um conceito junguiano que fala de conteúdos que não puderam ser veiculados no campo da consciência", afirma. Quando ampliado ao nível social, trata-se de ideias, impulsos e comportamentos que não cabem no "status quo", mas que também não desaparecem. "Esses conteúdos da consciência ficam numa camada mais profunda, concentrando uma energia, e acabam determinando muitos dos eventos que estamos presenciando hoje no coletivo."
Transmissão transgeracional
Elaine descreve como traumas históricos - guerras, um processo de colonização, uma humilhação coletiva - permanecem atuantes na psique dos grupos.
"Quando algo ativa - uma crise, a chegada de um estrangeiro, de populações que migram -, esse grupo reage como se voltasse àquele momento de dor e medo, sem perceber. Esses complexos funcionam como um piloto automático coletivo; eles falam através de nós e, às vezes, sem que a gente saiba."
Atualmente, em um mundo bombardeado de informações contraditórias, os grupos se confrontam, cada um convicto de que tem uma razão.
A especialista também se apoia em Jung para abordar a transmissão transgeracional desses conteúdos. Ela cita de memória uma ideia do analista suíço: "Tudo aquilo que resta inconsciente na psique individual se apresenta num momento ulterior em forma de destino." E completa:
"Aquele conteúdo, aquele povo, aquele grupo que eu não reconheço através de uma experiência de outramento, de alteridade, vai se manifestar de uma forma ou de outra, de forma violenta, porque ele precisa ser integrado, precisa ser reconhecido pelos pares."
Discursos extremistas
Outros elementos centrais da psicologia analítica - como mitos, símbolos e sonhos - também ajudam a compreender o cenário de intensificação de discursos extremistas. "Por baixo dos nossos pensamentos racionais existiria uma camada muito mais antiga e poderosa, que é o inconsciente coletivo. E ele fala por imagens, símbolos e mitos." Dessa forma, ao ouvir pronunciamentos políticos inflamados, Elaine percebe a ativação de narrativas arquetípicas.
"Quando a gente escuta os discursos políticos mais inflamados de hoje, sejam eles de direita ou de esquerda, o que a gente ouve muitas vezes não é um raciocínio; é a arqueologia de uma mitologia. Tem um herói e tem um inimigo, por isso que a gente fala que é um discurso muito polarizado", aponta.
Pandemia aumentou o sofrimento psíquico
A pandemia, segundo ela, intensificou o sofrimento psíquico. "Desde 2019, logo no início da pandemia, houve um sofrimento psíquico imenso. Acho que o mundo ocidental passou por um traumatismo generalizado em função do confinamento." Muitas pessoas, diz, foram expostas a situações familiares de risco. E destaca: "Não existe separação entre o que eu vivo internamente e o que está acontecendo lá fora. Essa separação é ilusória."
Perguntada sobre caminhos possíveis diante desse cenário, Elaine evita simplificações, mas insiste na necessidade de reconhecer o outro - e de reconhecer o que projetamos nele.
"Urge pensarmos na experiência de outramento, de alteridade. É reconhecer que o outro tem direito de existir nesse tecido social." Para ela, muito do conflito nasce porque não identificamos certas forças dentro de nós: "Se eu não sou capaz de reconhecer que dinâmicas me atravessam, eu vou projetar isso - minha raiva, meus preconceitos, minhas dificuldades - num outro qualquer."
Somente depois desse movimento de recolhimento das projeções é possível uma transformação mais profunda. "Na medida em que eu recolho essas projeções, posso elaborá-las e entender que elas também fazem parte de mim. E um indivíduo que se transforma tem impacto no vizinho, na família, no bairro - e, por consequência, no tecido social."
Os interessados podem ter informações sobre o seminário "Os Complexos Culturais do Ocidente, Sombra e Futuro" no site da Associação Junguiana de Psicanálise da Occitânia. Além de Elaine Franzini Soria, o encontro reunirá Mariette Mignet e Sam Regad, da Sociedade Francesa de Psicologia Analítica, conhecidas por trabalhos profundos sobre o feminino; Helen Morgan, da Associação Britânica de Psicoterapeutas; e o analista e sociólogo Luigi Zoya, figura de referência no campo junguiano por suas obras que articulam psicologia analítica e sociologia.