Chanceler francês defende fim urgente do bloqueio de Ormuz: 'Navegação é bem comum da humanidade'
O ministro das Relações Exteriores da França, Jean‑Noël Barrot, afirmou em entrevista à RFI, nesta terça‑feira (14), que a livre circulação de navios em águas internacionais é um direito fundamental e que o bloqueio do Estreito de Ormuz precisa ser suspenso com urgência. França e Reino Unido anunciaram na segunda-feira (13) que articulam uma missão multinacional pacífica e independente dos Estados Unidos, com o objetivo de restaurar a navegação na região.
Após 45 dias de conflito no Oriente Médio, os Estados Unidos impuseram um bloqueio aos portos iranianos, medida que entrou em vigor na segunda‑feira. O presidente americano, Donald Trump, chegou a ameaçar destruir qualquer embarcação militar do Irã que tentasse romper o cerco. Teerã reagiu classificando a ação como um ato ilegal de pirataria.
Em entrevista à RFI, Barrot reiterou que a circulação livre de navios em águas internacionais constitui um bem comum da humanidade e deve ser respeitada "em todos os lugares e sob quaisquer circunstâncias". "Diante disso, é imperativo que esse bloqueio seja levantado", enfatizou.
O chanceler francês evitou comentar diretamente os temores de uma escalada militar no Golfo, afirmando que a principal preocupação de Paris está nos impactos do bloqueio sobre a economia global e sobre a sobrevivência de empresas ao redor do mundo.
"Do ponto de vista diplomático, estamos pressionando as partes envolvidas a permitir a passagem de navios pelo estreito. No plano operacional, estamos mobilizando diversos países para preparar as etapas preliminares de uma missão internacional pacífica e estritamente defensiva, cujo objetivo será facilitar o tráfego marítimo assim que a situação se estabilizar. Os contornos dessa operação serão definidos posteriormente", explicou.
"As águas internacionais são navegáveis em todos os lugares e sob quaisquer circunstâncias. Este é um princípio do direito internacional, do direito do mar, que deve ser respeitado", insistiu.
Segundo Barrot, a economia global não pode ser refém de um conflito do qual França e União Europeia não participam nem endossam. "Não devemos arcar com esse custo. Os princípios fundamentais do direito do mar, da segurança marítima e da liberdade de navegação devem ser respeitados", acrescentou.
Missão multinacional
Barrot não forneceu uma data exata para a conferência anunciada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, e pelo primeiro‑ministro do Reino Unido, Keir Starmer, para restaurar a navegabilidade no Estreito de Ormuz, limitando‑se a dizer que ocorrerá "nos próximos dias" e que "várias dezenas de países" já manifestaram interesse em participar.
De acordo com o ministro, a iniciativa se inspiraria em experiências anteriores, como a missão europeia Aspides, que há dois anos garante a passagem de cerca de 1.600 navios pelo Mar Vermelho, apesar das ameaças de ataques dos rebeldes houthis.
"O que posso confirmar é o interesse de muitos países em aderir a essa iniciativa, desde que ela seja pacífica, estritamente defensiva e que o sistema de escolta naval seja coordenado com os países que fazem fronteira com o estreito, em especial Omã e Irã", afirmou.
Barrot explicou que a conferência terá como foco um planejamento político, diplomático e militar para avaliar as necessidades e os meios disponíveis. "O objetivo final é simples: reduzir os riscos. Mesmo que o estreito estivesse reaberto hoje, ainda seria necessário organizar o fluxo de tráfego em uma área marcada por tensões extremamente elevadas", observou.
Questionado sobre um possível cronograma para o início da missão, o ministro preferiu não estipular prazos. "A expectativa é que a navegação seja retomada o mais rápido possível e que as medidas necessárias permitam restabelecer a fluidez no tráfego marítimo", disse.
Dentro desse esforço, as operações de escolta naval planejadas por França e Reino Unido seriam realizadas de forma independente em relação aos Estados Unidos. "A coordenação prioritária é com os Estados litorâneos. Não acredito que haja uma missão americana a ser implantada no Golfo Pérsico ou qualquer outra iniciativa nesse sentido discutida até o momento", garantiu Barrot, ressaltando que a operação só poderá ser implementada após o fim das hostilidades.
Diálogo com Teerã
O chanceler francês afirmou manter contato frequente com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, desde o início da guerra, com o objetivo de facilitar a libertação definitiva e o retorno à França dos ex‑reféns franceses Cécile Collard e Jacques Paris, libertados na semana passada.
O cessar‑fogo imposto pelos Estados Unidos expira em oito dias, mas não se aplica ao Líbano, que continua sendo alvo de ataques israelenses. Barrot reiterou a posição da França de que a trégua deveria incluir também o território libanês.
"Reconhecemos o direito de Israel à autodefesa, desde que em conformidade com o direito internacional. No entanto, condenamos com veemência os ataques que ensanguentaram o Líbano na semana passada, resultando em mais de 300 mortes em operações devastadoras, que se somam às 1.500 registradas desde o início do conflito em ações de retaliação israelenses", afirmou.
Segundo o ministro, tais ataques são ainda mais inaceitáveis porque enfraquecem o cessar‑fogo negociado entre Washington e Teerã e acabam fortalecendo o Hezbollah. "Destruir o Líbano e atacar o Estado libanês não enfraquece o Hezbollah; ao contrário, acaba por fortalecê‑lo", concluiu.