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Vitória da oposição na Hungria anima Kiev e é recebida com cautela em Moscou

A vitória de Peter Magyar nas eleições parlamentares húngaras, no domingo (12), provocou reações imediatas e contrastantes em Kiev e Moscou, refletindo a importância geopolítica da Hungria em um momento decisivo da guerra na Ucrânia e das disputas internas da União Europeia. Na manhã desta segunda-feira (13), a diplomacia ucraniana anunciou a suspensão do alerta contra viagens à Hungria, em vigor desde o início de março. A medida havia sido adotada após a detenção, em Budapeste, de sete cidadãos ucranianos que transportavam grandes quantias em dinheiro em espécie.

13 abr 2026 - 10h38
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Com informações das correspondentes da RFI Emmanuelle Chaze, em Kiev,  e Anissa El Jabri, em Moscou  

"Estamos suspendendo a recomendação para que nossos cidadãos evitem visitar a Hungria", declarou o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andriy Sybiga, em publicação nas redes sociais. Segundo ele, o resultado das eleições representa "o fracasso da política de chantagem e propaganda antiucraniana" conduzida pelo governo do agora ex-primeiro-ministro Viktor Orbán. Kiev conta com uma nova oportunidade para a "normalização das relações" entre os dois países vizinhos.

O chanceler Sybiga destacou ainda que se tratou de eleições livres, transparentes e históricas, defendendo um novo ciclo de relações diplomáticas e políticas mais pacíficas entre Budapeste e Kiev.

O presidente Volodymyr Zelensky também celebrou o resultado, classificando a vitória de Magyar como "retumbante" e manifestando esperança de que "uma abordagem construtiva prevaleça" nas relações bilaterais. Zelensky reiterou que a Ucrânia busca manter boas relações de vizinhança com todos os países europeus, em especial aqueles diretamente envolvidos nas decisões estratégicas do bloco.

Para a primeira-ministra ucraniana, Yulia Svyrydenko, a mensagem das urnas foi ainda mais clara. Segundo ela, o resultado representa um "não inequívoco do povo húngaro a qualquer tentativa de trazer seu país de volta à órbita de Moscou", além de um revés para a estratégia russa de minar a democracia, a liberdade e os valores europeus.

Expectativa sobre empréstimo bloqueado

Em Kiev, a mudança de governo é vista sobretudo como uma chance de desbloquear impasses cruciais na União Europeia. As autoridades ucranianas esperam a rápida remoção dos obstáculos ao empréstimo de € 90 bilhões, considerado vital para o país em meio ao prolongamento da guerra contra a Rússia.

No mês passado, a Hungria voltou a impedir a liberação da ajuda financeira à Ucrânia, mantendo seu veto, apesar das tentativas dos demais países europeus de contorná-lo. Viktor Orbán justificava sua posição acusando Kiev de não reparar o oleoduto Druzhba, danificado por um ataque aéreo russo, em 27 de janeiro de 2026.

Com milhares de quilômetros de extensão e atravessando o território ucraniano, o oleoduto é responsável pelo fornecimento de petróleo russo à Hungria e à Eslováquia. Diante da demora nos reparos, Orbán não apenas bloqueou o empréstimo europeu, como também anunciou a suspensão gradual do fornecimento de gás à Ucrânia, do qual o país depende para cerca de 28% de suas necessidades energéticas.

Durante a campanha, acusado por Viktor Orbán de "entregar a Hungria à União Europeia e à Ucrânia", Peter Magyar falou pouco sobre esses temas sensíveis. Mais crítico da Rússia do que seu antecessor, o novo líder mantém, no entanto, uma postura cautelosa em relação à guerra. Ele reiterou sua recusa ao envio de armas ou tropas húngaras para o território ucraniano, ao mesmo tempo em que reconheceu o direito de autodefesa da Ucrânia — um equilíbrio pensado para não confrontar uma opinião pública profundamente dividida sobre o conflito.

Silêncio oficial e desconforto em Moscou

Na Rússia, a reação oficial à derrota de Viktor Orbán — considerado até aqui o principal aliado de Moscou dentro da União Europeia — tem sido marcada pela minimização do impacto político do resultado.

O jornal Komsomolskaya Pravda, alinhado ao Kremlin, descreveu a eleição como uma vitória obtida pela oposição "por uma margem estreita". Já o diário Vedomosti citou analistas segundo os quais a derrota de Orbán seria "pessoal", não necessariamente um revés para seu partido ou para os interesses estratégicos russos.

Críticas mais duras surgiram fora dos círculos oficiais, sobretudo entre blogueiros do chamado movimento "patriótico". Um deles resumiu o desconforto com ironia: "Superestimamos Orbán. E subestimamos a Europa". Outros apontaram que o desfecho também representaria uma derrota para os Estados Unidos, mencionando o envolvimento do vice-presidente J.D. Vance durante a campanha eleitoral húngara.

O tom cauteloso se refletiu também na cobertura televisiva. Os telespectadores dos principais canais estatais russos só tiveram acesso a reportagens sobre Budapeste ao final dos telejornais. No Perviy Canal, a reportagem terminou com uma advertência direta sobre as promessas de campanha de Magyar. O futuro primeiro-ministro, lembrou o canal, anunciou a intenção de investigar a influência russa na Hungria e até de processar o chanceler Péter Szijjártó, conhecido por seus encontros frequentes com o ministro russo das Relações Exteriores, Sergey Lavrov.

"Daqui a 30 dias, o Parlamento se reunirá com sua nova composição e nomeará um governo liderado por Magyar. Saberemos então se isso foi apenas propaganda eleitoral ou se ele realmente pretende iniciar uma caça às bruxas", concluiu a emissora.

A carta energética

Apesar das incertezas, analistas russos e europeus convergem em um ponto: a expectativa generalizada é de que a vitória de Magyar leve ao fim do bloqueio húngaro à ajuda europeia à Ucrânia. Ainda assim, a imprensa russa enfatiza um fator estrutural que limita qualquer ruptura brusca.

"As posições geográficas da Hungria e da Rússia não mudarão. Nem sua dependência energética", alertou um especialista citado na mídia nesta segunda-feira. Atualmente, a Hungria depende da Rússia para cerca de 80% de seu petróleo e 60% de seu gás, uma realidade que mantém Moscou como ator influente no novo equilíbrio político de Budapeste — mesmo após a derrota de seu aliado mais fiel no bloco europeu.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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