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Autor de livro finalista de prêmios mais prestigiosos da França é acusado de ter usado IA

O escritor canadense nascido no Haiti, Thélysson Orélien, ganhador e finalista dos mais prestigiosos prêmios franceses e fenômeno editorial da temporada literária, é acusado de ter usado inteligência artificial para redigir seu último livro. O autor desmente e denuncia "ataques racistas".

23 set 2026 - 10h34
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Resumo
Sucesso da temporada literária francesa e finalista de prêmios prestigiados, o romance de Thélyson Orélien tornou-se alvo de polêmica após um perfil anônimo alegar que a obra foi gerada por inteligência artificial, segundo o detector Pangram. O autor e suas editoras negam o uso da tecnologia, apontam motivações racistas e políticas na denúncia e defendem o estilo lírico do texto. Sem provas conclusivas, o episódio abriu um intenso debate sobre autenticidade e o impacto da IA na literatura.

A história poderia ser a premissa de um romance, mas o caso acontece de verdade na França. Publicado inicialmente no Canadá, pela editora Boréal, em março, e lançado na França em 19 de agosto, pela Grasset, C'était ça ou mourir (Era isso ou morrer, em tradução livre), o primeiro romance do poeta canadense nascido no Haiti, Thélyson Orélien, tornou-se um dos maiores sucessos editoriais da temporada literária.

O escritor e poeta canadense, Thelyson Orélien, acusado de ter usado inteligência artificial para escrever seu livro C'était ça ou mourrir que concorre aos principais prêmios de literatura franceses.
O escritor e poeta canadense, Thelyson Orélien, acusado de ter usado inteligência artificial para escrever seu livro C'était ça ou mourrir que concorre aos principais prêmios de literatura franceses.
Foto: © JF PAGA / RFI

Com cerca de 35 mil exemplares vendidos, presença nas seleções dos principais prêmios de literatura franceses, entre eles o Goncourt, e vencedor do Prêmio Fnac na segunda-feira (22), o livro passou a ser alvo de controvérsia horas após a premiação. A polêmica foi impulsionada pela conta anônima na rede X, "Balance ton Claude" (entregue seu Claude), que afirmou que a obra teria sido escrita quase inteiramente por inteligência artificial, com base em análises feitas pelo software de detecção Pangram.

O caso que caiu como um terremoto no meio literário da França ganhou destaque nos principais jornais. Le Monde destaca as dúvidas sobre a origem e as motivações da acusação. O jornal ressalta que a denúncia partiu de uma conta anônima criada recentemente, cuja publicação viralizou após ser compartilhada por figuras ligadas à direita francesa.

Embora reconheça que o Pangram classificou mais de 95% do romance como texto gerado por IA, o diário enfatiza as limitações desses detectores, especialmente em obras escritas em francês e com influências linguísticas diversas. O texto também aborda a dimensão política do caso, observando que o romance, centrado na trajetória de um migrante haitiano, poderia desagradar setores conservadores. 

Libération concentra-se na ascensão meteórica de Orélien e nos impactos da suspeita sobre sua obra. O jornal relembra que os direitos do romance foram vendidos para cerca de vinte países antes mesmo da publicação, que a crítica celebrou sua linguagem poética e que o livro era visto como um dos grandes acontecimentos literários do ano.

A reportagem analisa os elementos estilísticos apontados pelos críticos da obra, como repetições e construções rítmicas, mas destaca a defesa do escritor, que afirma que essas características fazem parte de sua voz literária e de sua formação como poeta. Libération também dá amplo espaço às denúncias de racismo feitas pelo autor e à reação de suas editoras, que classificam as acusações como maliciosas ou mesmo "fake news".

Le Figaro, por sua vez, dedica maior atenção ao funcionamento e à credibilidade dos detectores de inteligência artificial. O jornal relata que testou textos antigos de Orélien, escritos antes da popularização da IA generativa, que foram classificados como integralmente humanos, enquanto trechos do romance receberam a classificação de "100% IA".

A reportagem ouve especialistas que consideram o Pangram um dos sistemas mais precisos atualmente disponíveis e analisa características do texto que poderiam lembrar padrões frequentes em conteúdos gerados por máquinas. O diário amplia o debate para além do caso específico, discutindo o risco de a IA passar a produzir obras capazes de conquistar leitores, críticos e prêmios literários, levantando questionamentos sobre autenticidade, criação artística e futuro da literatura.

Ataques racistas

Em entrevista ao Libération, Orélien diz que sempre gostou "da criação e da escrita; não vejo por que eu recorreria a uma máquina."

Ele explicou também que "as imagens, as repetições e os ritmos são uma fala viva; são meus. Minhas tradições são haitianas e caribenhas". O autor também disse que acreditava que o software estava acostumado "às tradições literárias francesas e aos autores clássicos."

"Desde que cheguei recentemente à França, venho sofrendo diversos ataques racistas, que não partem dos leitores, mas de pessoas de fora que buscam prejudicar", afirmou Orélien. "Eu não dava atenção a isso. Mas não esperava ataques desse tipo. Não estou triste, estou indignado. Estou reunindo um dossiê com meus editores na França e no Quebec para comprovar o que digo."

A editora Grasset também reagiu à polêmica na terça-feira, condenando "firmemente qualquer declaração maliciosa" que "fira profundamente o escritor de trajetória excepcional".

A Boréal, editora de Montreal, declarou à AFP ter "tomado conhecimento das alegações" e que não as "trata com leviandade". "A confiança da equipe da editora Boréal no trabalho de Thélyson Orélien permanece inabalada", afirmou a direção.

Já o software americano Pangram não comentou as acusações.

No momento, não há provas conclusivas de que Orélien tenha utilizado inteligência artificial na redação do romance. A controvérsia, porém, já se tornou um tema central da temporada literária francesa e poderá influenciar as discussões dos jurados dos principais prêmios do país nas próximas semanas.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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