Atentados em Bruxelas completam 10 anos, com feridas ainda presentes na memória da população belga
Há dez anos, no dia 22 de março de 2016, ocorreram os atentados jihadistas em Bruxelas, capital da Bélgica, reivindicados pelo Estado Islâmico. A tragédia, uma das maiores do país, afetou profundamente a população belga, deixando 35 mortos e centenas de feridos. Neste domingo (22), o governo local promoveu cerimônias oficiais para marcar a data.
Jean-Jacques Héry, correspondente da RFI em Bruxelas, e AFP
Na presença do primeiro-ministro belga, Bart De Wever, e dos reis Felipe e Matilde, os eventos começaram pouco antes das 8h (4h de Brasília) no aeroporto de Bruxelas-Zaventem, com alguns depoimentos comoventes. As solenidades prosseguiram na estação de metrô de Maelbeek, outro alvo dos terroristas, no bairro que abriga as instituições da União Europeia (UE).
"Dizer que viver esta vida é fácil seria mentir. Todos os dias acordo com as lembranças desse horror. Olho para o meu corpo, que ficou queimado, machucado e quebrado", contou Béatrice de Lavalette, que perdeu as pernas no ataque ao aeroporto. Mas "escolhi viver, lutar", enfatizou a mulher, atualmente atleta paralímpica de equitação.
A mesma célula do Estado Islâmico havia perpetrado ataques em novembro de 2015 que deixaram 130 mortos em Paris e arredores. Um de seus membros, Salah Abdeslam, foi preso na capital belga em 18 de março de 2016, o que precipitou os ataques em Bruxelas.
Feridas e traumas na população
Pouco antes das 8h de 22 de março de 2016, homens-bomba detonaram dois explosivos no Aeroporto de Bruxelas, destruindo parte do saguão de embarque. Uma hora depois, foi explodido um vagão de um trem que se preparava para partir da estação Maelbeek, no coração da capital. O saldo desses ataques, os mais mortais da história belga: 35 mortos e 340 feridos.
Nos dias de hoje, um painel de vidro com vários metros de comprimento colocado na parede da estação Maelbeek exibe, há 10 anos, mensagens de apoio e esperança escritas nas semanas seguintes aos ataques. Uma década depois, a data de 22 de março ainda ressoa nos moradores de Bruxelas.
"Eu estava a 6,5 metros da bomba. Acho que fui um dos que escaparam com vida que estava mais perto. Tive sorte porque havia assentos e eles me protegeram um pouco", relembra Georges, de 84 anos - 74 na época.
"Meu crânio foi queimado em terceiro grau, minhas mãos estavam queimadas e meu rosto em segundo grau. Perdi a consciência por uma fração de segundo, talvez, mas de alguma forma me vi de pé. E como minhas pernas estavam mais ou menos intactas, corri até o topo. Como saí dessa? Não faço ideia", conclui o sobrevivente.
"Vemos colegas nos corredores que ainda carregam as cicatrizes dos ataques, pessoas desfiguradas", diz Nathalie, que trabalha nas instituições europeias próximas. "Nós nos lembramos daqueles que estiveram aqui. Continuaremos a nos lembrar deles e esperamos que algo assim nunca mais aconteça", acrescenta sua colega, Gina.
Uma mensagem de esperança é compartilhada por muitas vítimas, com uma palavra que se repete frequentemente: resiliência. Mas também um medo: de serem esquecidos e o receio de que, pouco a pouco, os nomes das vítimas se apaguem da memória
Contexto atual suscita alerta
As solenidades que marcam os 10 anos do atentado em Bruxelas ocorrem em meio à guerra no Oriente Médio, que faz com que as autoridades belgas e de outros países ocidentais temam uma nova onda de ataques.
Em 9 de março, uma explosão danificou a sinagoga em Liège, no leste da Bélgica, sem causar feridos. Dias depois, dois incidentes semelhantes ocorreram na Holanda, tendo como alvo a comunidade judaica.
Após uma onda de ataques que abalou a Belgica entre 2015 e 2016, os serviços de segurança foram criticados por erros na transmissão de informações cruciais.
"É um sentimento de fracasso que nos atingiu a todos", admitiu Gert Vercauteren, diretor do Escritório de Coordenação do Contraterrorismo Militar (OCAM), em entrevista à AFP.
Mas, desde então, a comunicação entre o judiciário, a polícia e os serviços de inteligência melhorou, e o número de agentes dedicados a essa área aumentou de 600 para 950.
Também foi criado um banco de dados compartilhado com perfis de extremistas, que todos os serviços de segurança podem consultar e atualizar, afirma ele.
"Aprendemos lições valiosas", afirma Vercauteren, diretor do Escritório de Coordenação do Contraterrorismo Militar.
Uma questão ainda pendente é o tratamento dado às vítimas. Algumas reclamam que, dez anos depois, ainda não receberam o devido reconhecimento pelo trauma físico ou psicológico sofrido no ataque, o que limita seu direito à indenização.