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Acidente com bonde em Lisboa expõe crise em todos os setores de transporte de Portugal

O acidente no Elevador da Glória, em Lisboa, na noite de quarta-feira (3), que deixou 16 mortos, expõe a precariedade dos transportes públicos em Portugal. A tragédia foi possivelmente causada pela quebra do cabo que conectava as duas cabines do sistema, cuja manutenção havia sido terceirizada para uma empresa privada - decisão criticada há anos pelos sindicatos da Carris, empresa municipal responsável pelo transporte na capital. A situação dos transportes públicos em Portugal é delicada: não só há falta de pessoal qualificado, mas também os salários são baixos e a maior parte dos empregos são precários.

4 set 2025 - 14h12
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O acidente no Elevador da Glória, em Lisboa, na noite de quarta-feira (3), que deixou 16 mortos, expõe a precariedade dos transportes públicos em Portugal. A tragédia foi possivelmente causada pela quebra do cabo que conectava as duas cabines do sistema, cuja manutenção havia sido terceirizada para uma empresa privada - decisão criticada há anos pelos sindicatos da Carris, empresa municipal responsável pelo transporte na capital. A situação dos transportes públicos em Portugal é delicada: não só há falta de pessoal qualificado, mas também os salários são baixos e a maior parte dos empregos são precários.

Pelo menos dois brasileiros estão entre os cerca de 20 feridos no acidente com um bonde elétrico que deixou 16 mortos, em um dos bairros mais turísticos da capital portuguesa.
Pelo menos dois brasileiros estão entre os cerca de 20 feridos no acidente com um bonde elétrico que deixou 16 mortos, em um dos bairros mais turísticos da capital portuguesa.
Foto: © Armando Franca / AP / RFI

Com informações de Catarina Falcão, da RFI em Paris

A historiadora e especialista em relações de trabalho Raquel Varela, da Universidade Nova de Lisboa, aponta que o acidente revela uma "situação absolutamente explosiva" nos serviços públicos. Segundo a professora, há falta de profissionais qualificados, salários baixos e excesso de subcontratações, o que compromete a segurança dos trabalhadores e usuários.

A especialista denuncia o abandono dos transportes públicos e as más condições dos trabalhadores na cidade de Lisboa. De acordo com a pesquisadora, estudos mostram riscos graves em diversos setores como portos, aeroportos (Transportes Aéreos Portugueses, a TAP) e nos trens urbanos - o metrô (Metro de Lisboa) e a empresa nacional de trens (CP). 

"Desde a manutenção da TAP, no pessoal de voo e cabine. No Metro de Lisboa, nos maquinistas da CP. Em todos eles nós apontamos para riscos significativos para os trabalhadores e para a população que usa estes serviços devido às condições de trabalho, que são altamente degradantes", critica a pesquisadora, citando situações em que trabalhadores enfrentam jornadas de até 16 horas.

Raquel Varela afirma que o problema é resultado direto das regras da União Europeia (UE), que dificultam a contratação de servidores públicos com salários dignos.

"A UE permite subcontratações, mas dificulta a contratação de funcionários públicos bem pagos. E, portanto, tudo isto é uma situação absolutamente explosiva, em que as pessoas começam a chegar à conclusão de que o Estado, em vez de as proteger, é uma ameaça à sua vida", afirma Raquel Varela.

"Política criminosa de degradação dos serviços públicos"

Ela também criticou a falta de investimento no setor e alertou para o impacto da emigração de profissionais especializados, especialmente na área da mecânica. "É uma política absolutamente criminosa de degradação dos serviços públicos com impacto na manutenção dos transportes. É um trabalho altamente especializado, que exige equipes coesas e respeito pelos trabalhadores", defende.

O primeiro-ministro português, Luís Montenegro, e o prefeito de Lisboa, Carlos Moedas, informaram que as responsabilidades estão sendo apuradas, mas ainda não há consequências políticas. Para Raquel Varela, Moedas deveria renunciar, e a direção da Carris (empresa que administra o sistema de transportes da capital portuguesa) deveria ser responsabilizada criminalmente, caso seja comprovada negligência na manutenção.

"Essa tragédia matou o condutor e mais de uma dezena de pessoas. É um país completamente à deriva, que coloca em risco seus próprios cidadãos e os estrangeiros que o visitam — exceto os muito ricos, que andam de motorista e jato privado", conclui Raquel Varela.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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