EUA dizem ter apreendido dois navios petroleiros ligados à Venezuela - um deles com bandeira russa
Um dos navios, o Marinera, estava no Mar do Atlântico Norte, enquanto o outro, Sophia, se encontrava em águas internacionais próximas ao Caribe.
Os Estados Unidos anunciaram nesta quarta-feira (7/1) que apreenderam dois navios petroleiros ligados à Venezuela.
A Guarda Costeira dos EUA entrou nas embarcações da chamada "frota fantasma" em uma operação "meticulosamente coordenada", disse a secretária de Segurança Interna do país, Kristi Noem.
Noem afirmou que um dos navios estava no Mar do Atlântico Norte, enquanto o outro se encontrava em águas internacionais próximas ao Caribe. As operações ocorreram com poucas horas de diferença, acrescentou.
Os petroleiros "tinham atracado pela última vez na Venezuela ou estavam a caminho do país", segundo Noem.
O navio que estava no Atlântico Norte se chama Marinera — a embarcação se chamava anteriormente Bella 1, mas teve seu nome alterado — e tinha "permissão temporária" para navegar com bandeira da Rússia desde 24 de dezembro, segundo o governo russo.
Ele teria sido usado no passado para transportar petróleo venezuelano, e acredita-se que navegou com bandeira da Guiana, antes de mudar para a russa.
Em coletiva de imprensa nesta quarta, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que a embarcação era "um navio da frota fantasma venezuelana que transportou petróleo sancionado" e foi "considerado sem bandeira após hastear uma bandeira falsa".
A BBC questionou Casa Branca para esclarecimentos sobre a afirmação de que o navio era "sem bandeira", mas não teve resposta.
O site MarineTraffic, que monitora o tráfego marítimo, mostrou que o status da bandeira do navio — que não é um registro legal, mas inserido manualmente pelo operador ou pela tripulação — foi alterado para Rússia em 4 de janeiro.
O Marinera vinha tentando "evadir a Guarda Costeira há semanas", disse Kristi Noem.
A BBC está acompanhando a jornada do petroleiro com dados de monitoramento remoto. A embarcação estava a cerca de 200 km ao sul da Islândia quando foi apreendida.
O navio é acusado de violar sanções americanas e transportar petróleo iraniano no passado, mas há relatos de que ele estaria vazio no momento.
A operação para apreender o navio com bandeira russa contou também com o apoio das Forças Armadas britânicas.
"Este navio, com um histórico nefasto, integra um eixo russo-iraniano de evasão de sanções que está alimentando terrorismo, conflito e miséria do Oriente Médio até a Ucrânia", disse o comunicado do governo do Reino Unido.
Após a apreensão, o Ministério dos Transportes da Rússia disse que "nenhum Estado tem o direito de usar força contra embarcações devidamente registradas nas jurisdições de outros países".
As comunicações com o navio foram perdidas, disse o governo russo.
Já o ministério das Relações Exteriores da Rússia pediu que os EUA garantam "tratamento humano e adequado aos cidadãos russos a bordo do Marinera".
Na Casa Branca, Karoline Leavitt afirmou que a captura do Marinera foi autorizada por uma ordem judicial americana.
Segundo Leavitt, a decisão também cobre a tripulação, o que significa que eles podem ser levados aos Estados Unidos e processados.
Já o segundo navio apreendido próximo ao Caribe se chama Sophia.
A embarcação, um "petroleiro motorizado sem bandeira, sancionado e pertencente à frota fantasma", foi interceptada em uma operação antes do amanhecer, diz o comunicado militar do Comando Sul dos EUA.
"O navio interceptado, M/T Sophia, estava operando em águas internacionais e realizando atividades ilícitas no mar do Caribe", afirma o comunicado.
O navio está sendo escoltado aos EUA.
O presidente dos EUA, Donald Trump, disse no mês passado que estava ordenando um "bloqueio" de petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela. O governo venezuelano disse que a ação americana é um "roubo".
Antes da prisão do ex-líder venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA no sábado (3/1), Trump acusou repetidamente o governo da Venezuela de usar navios para levar drogas aos EUA.
Marinera - ou Bella 1
O Comando Europeu dos EUA afirmou que o Departamento de Justiça e o Departamento de Segurança Interna dos EUA "anunciaram hoje a apreensão do navio M/V Bella 1 por violações das sanções americanas".
Em uma publicação no X, o comando disse: "A embarcação foi apreendida no Atlântico Norte em cumprimento a um mandado expedido por um tribunal federal dos EUA, após ter sido rastreada pelo [navio de patrulha] USCGC Munro."
A Guarda Costeira dos EUA tentou abordar o Bella 1 no mês passado no Caribe, quando se acreditava que ele estivesse se dirigindo para a Venezuela. Havia um mandado para apreender o navio.
Em seguida, o navio mudou drasticamente de rumo — e também seu nome, para Marinera. Acredita-se que a bandeira do navio também mudou da Guiana para Rússia.
Segundo a rede americana CBS News, a Rússia havia mobilizado nesta semana recursos navais para escoltar o petroleiro. A Rússia afirmou estar "monitorando com preocupação" a situação em torno do navio.
Duas imagens divulgadas pela emissora estatal russa RT mostravam um helicóptero próximo a um navio que parece ser o Marinera.
Características visíveis nas imagens da embarcação, incluindo a posição da janela e a cor branca e verde da estrutura metálica, são consistentes com imagens de satélite e de domínio público do Marinera, segundo verificação da BBC junto a especialistas.
Acredita-se que o Marinera estivesse entre a Escócia e a Islândia na noite de terça-feira, com a distância e o clima dificultando uma abordagem.
O que diz o direito internacional
De acordo com o direito internacional, os navios que carregam a bandeira de um país estão sob a proteção dessa nação, mas Dimitris Ampatzidis, analista sênior de risco da empresa de inteligência marítima Kpler, disse à BBC que mudar o nome e a bandeira do navio pode não mudar muita coisa.
"A ação dos EUA é motivada pela identidade subjacente do navio [número IMO], redes de propriedade/controle e histórico de sanções, não por suas marcas pintadas ou bandeira", disse ele.
Ampatzisdis acrescentou que a mudança para o registro russo pode causar "atrito diplomático", mas não impediria qualquer ação de fiscalização dos EUA.
Antes da abordagem americana ao navio, o ministério das Relações Exteriores da Rússia havia dito que "nosso navio está navegando nas águas internacionais do Atlântico Norte sob a bandeira estatal da Federação Russa e em total conformidade com as normas do direito marítimo internacional".
"Por razões que nos são obscuras, o navio russo está recebendo atenção crescente e claramente desproporcional por parte de militares dos EUA e da Otan, apesar de seu status pacífico", afirmou o ministério.
Após a apreensão, o Ministério dos Transportes da Rússia disse que "nenhum Estado tem o direito de usar força contra embarcações devidamente registradas nas jurisdições de outros países".
As comunicações com o navio foram perdidas, disse o governo russo.
Em 24 de dezembro, o Marinera recebeu uma "permissão temporária" para navegar sob bandeira russa, acrescenta o ministério.