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Romney e os republicanos: entre o favoritismo e o ceticismo

14 set 2012
11h33
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De forma isolada, o histórico e perfil de Mitt Romney configuram uma candidatura republicana quase perfeita para enfrentar a pesada corrida pela Casa Branca. Mas o contexto nacional e o eleitorado republicanos têm feito com que a sua jornada, marcada desde o início pelo favoritismo, se veja rondada de ceticismo.

Romney, durante um evento de campanha em Maryland, em março de 2012: o desafio de ser conservador suficiente
Romney, durante um evento de campanha em Maryland, em março de 2012: o desafio de ser conservador suficiente
Foto: AFP

Nascido em 1947, Romney vem de um berço político. Seu pai, George Romney, governou o Estado do Michigan (1963-1969), onde nasceu e cresceu o filho, para posteriormente tentar, e fracassar, na pré-candidatura à presidência pelo Partido Republicano em 1968, ano das eleições vencidas pelo também republicano Richard Nixon.

Neste período, da segunda metade da fervorosa década de 60, Romney viveu dois anos na França, onde trabalhou como missionário mórmon. De volta aos Estados Unidos, estudou Direito e Negócios na Brigham Young University e depois em Harvard. A partir dos anos 70, iniciou uma brilhante carreira de empresário.

O passo à política foi dado em 2002, quando disputou e venceu as eleições para o Estado do Massachusetts, que governou de 2003 a 2007. Nesse ano, desistiu da reeleição em nome de um novo desafio: a presidência americana. Avançou nas primárias, mas acabou derrotado pelo então senador John McCain.

Favoritismo à prova
Desde o início da corrida as primárias do Grand Old Party (GOP, como os republicanos são comumente chamados), Romney despontou como o nome mais cotado para enfrentar o presidente Barack Obama. A principal razão do favoritismo é o perfil misto, completo e moderado de Romney: homem de fé mórmon, de experiência política no Massachusetts e de extenso currículo empresarial (ele mesmo diz não ser "um político de carreira" por ter passado "a maior parte de sua vida no setor privado").

De Estado em Estado, Romney comprovou sua força. Após serenamente observar a desistência das candidaturas barulhentas de Michele Bachmann, a Sarah Palin 2.0, e de Herman Cain, o empresário das pizzas, passou a duelar nas urnas e nos discursos candidatos mais sólidos. Após algumas poucas rodadas, Rick Perry e Jon Juntsman ficaram pelo caminho, abrindo terreno para o estabelecimento do quarteto formado por Romney, Rick Santorum, Newt Gignrich e Ron Paul.

Neste grupo, Romney competiu e liderou com folga até que Santorum anunciou seu abandono das primárias, virtualmente desmanchando o quarteto que mais era uma dupla, e, na prática, encerrando a disputa matemática pela nomeação. Tudo foi confirmado em Tampa, Flórida, quando os delegados reunidos em festa na Convenção Republicana deram a Romney 2.061 votos, superando com folga os 1.144 à nominação.

Desafios e dúvidas
Consolidada, Romney não mais precisa vencer os concorrentes do seu próprio partido, mas convencer os eleitores de que pode ser não apenas o grande nome republicano de 2012, mas um dos grandes nomes republicanos da história. Isso desemboca, em última análise, no desafio da prova da sua autenticidade conservadora, tão cara à alma do GOP.

Embora virtualmente inconteste todas as primárias, evidenciaram-se dúvidas e ceticismos em torno de sua força política. A questão não é se Romney tem maioria entre os republicanos, mas se sua magia empresarial agregará uma massa suficiente do eleitorado a superar a massa de democratas que votará em Obama, verdadeiro furacão eleitoral em 2008.

Do ponto de vista do capital político, há certa ironia em jogo. Como observou uma reportagem da CNN, a dúvida que geralmente surge quando um pré-candidato se torna candidato toca sua habilidade de angariar a grande massa central de eleitores - o campo médio, composto por eleitores menos mobilizados e mais moderados. No caso do ex-governador do Massachussets, todavia, ocorre o contrário: Romney parece padecer de seu perfil republicano moderado e pagar o preço de ser impopular entre os americanos mais tradicionalistas (grass roots, como são chamados). Trata-se, em linhas gerais, dos eleitores que simpatizaram com um Santorum, com um Gingrich.

Isso se reflete em problemas de estratégia. Em um artigo publicado no site da Fox News, o professor e economista Peter Morici apontou para a distância de mentalidade de Romney e de parte importante do eleitorado republicano formada, defende, por "velhos adolescentes" que "veem o mundo em tons de preto e branco", alguns representantes da "intolerância religiosa do século XIX", entre outros, que "abraçam visões inflexíveis de uma América perfeita". Teria Romney espaço no contexto novo mundo do século XXI?

Massachusetts e a busca pela autenticidade
Um caso exemplar do desafio de Romney na busca pela autenticidade republicana é a carga da reforma da saúde implementada durante seu governo no Massachusetts. Como lembra a BBC, o então governador implementou, em 2006, uma reforma no sistema de saúde, fazendo com que todos os cidadãos obtivessem um plano de seguro ou ganhassem subsídios para que pudessem dispor de um. Aos olhos dos republicanos mais tradicionais, trata-se de uma medida conceitualmente similar à almejada por Obama na reforma federal da saúde - associação extremamente desgastante que Romney tenta desfazer.

Romney tem, assim, um problema de confiança com o eleitorado republicano. Se, por um lado, ele conjuga muitos dos maiores atributos para um presidente norte-americano, por outro ele demonstra dificuldade em provar ser um republicano autêntico, fiel aos princípios conservadores dos Pais Fundadores. Enquanto seus adversários acumulavam jargões ao estilo "campeão dos valores republicanos", Romney investe em uma retórica forte ambiciosa, mas que talvez não seja devidamente captada pelas alas mais ortodoxas.

"Deus não criou este país para ser uma nação de servos. Os Estados Unidos não estão destinados para ser mais um ao lado de tantos poderes igualmente balanceados no mundo. Os Estados Unidos devem liderar o mundo - ou então outro irá", discursou ele em um marcante evento no início da campanha.

Até novembro, Romney tem dois meses para deixar este limbo eleitoral e impedir a reeleição de Obama em novembro. A escolha de Paul Ryan para seu vice, ainda recente, deve colher os frutos nas próximas semanas.

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Fonte: Terra
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