Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Estados Unidos

Lei do Arizona é racismo puro, diz militante nos EUA

2 mai 2010 - 15h56
(atualizado às 16h13)
Compartilhar
Julia Preston
Do New York Times, de Washington

Em protestos motivados pela raiva em torno de uma dura lei anti-imigração no Arizona, dezenas de milhares de manifestantes se reuniram no sábado em marchas e comícios pelos Estados Unidos, pedindo ao Congresso que aprove uma reforma geral da imigração. Em Chicago, reduto eleitoral do presidente Obama, a militante Guadalupe Concepcion comparou a cenário atual com o racismo aos afro-americanos.

"A lei do Arizona é simplesmente racismo puro", disse a estudante de 22 anos. "Aconteceu com afro-americanos no passado, e agora eles querem fazer o mesmo conosco".Ela afirma ter sido uma imigrante ilegal até se casar com seu marido e que os pais dela sofrem com discriminação por não estarem no país legalmente.

Milhares de pessoas marcharam pelo centro da cidade com placas dizendo "ser moreno não é um crime" e "ei, Obama! Não deporte minha mãe".

Muitos manifestantes de Chicago expressaram frustração no que consideram uma falta de ação do presidente quanto à imigração.

Dulce Blanco, 48 anos, se juntou ao comício com o grupo da igreja. Ela afirma que votou em Obama após participar de uma reunião em que ele disse que aprovaria uma reforma da imigração.

"Se eles não aprovarem a reforma, não votaremos no Obama de novo", disse Blanco em espanhol.

Discursando para a multidão em Chicago, o reverendo Jesse Jackson encorajou um boicote ao Arizona dizendo que a lei promoveria a perseguição racial. "O Arizona virou Selma (cidade segregacionista do Alabama palco de movimentos civis nos anos 1960)", disse. "É um confronto".

Em Los Angeles, a polícia registrou uma multidão que chegou a 50 mil. Os manifestantes totalizaram 25 mil em Dallas, mais de 10 mil em Chicago e Milwaukee e milhares em São Francisco e em Washington, de acordo com a polícia e estimativas independentes. Os organizadores afirmam que protestos e vigílias de oração ocorreram em mais de 70 pontos do país.

Em Washington, o deputado democrata Luis Gutierrez (Illinois) e cerca de três dúzias de manifestantes foram presos após realizarem uma ocupação da calçada em frente à Casa Branca perante uma multidão de milhares de pessoas.

Num comício antes de ser detido, Gutierrez, falando em inglês e em espanhol, invocou memórias do movimento dos direitos civis nos anos 1960."Existem momentos em que você diz: 'Vamos expandir essa luta'", disse ele. "Hoje, eles vão nos algemar. Mas, um dia, seremos enfim livres no país que amamos".

Ao todo, 35 pessoas foram detidas no ato de desobediência civil, segundo a Polícia de Parques dos EUA.

Nos protestos pelo país, manifestantes cantaram "vergonha, vergonha, Arizona" e carregaram placas em espanhol dizendo "Todos Somos Arizona".

As maiores manifestações superaram em muito as estimativas feitas pelos organizadores em março, quando os eventos foram anunciados. Os protestos foram originalmente convocados por militantes da imigração que estabeleceram 1º de maio como o prazo para o Congresso apresentar uma legislação de reforma geral que incluiria medidas legalizando milhões de imigrantes ilegais.

Porém, segundo os organizadores, a lei no Arizona, sancionada em 23 de abril, foi um divisor de águas para organizações militantes díspares, o que transformou o evento em algo de dimensão nacional semelhante ao movimento de direitos civis.

A lei do Arizona tornou crime estar presente no Estado sem um status de imigração legal e autorizou a polícia a interrogar qualquer um que fosse suspeito de ser um imigrante ilegal.

Defensores da lei, como a governadora republicana do Arizona Jan Brewer, afirmam que o Estado precisou agir porque o governo federal fracassou no fortalecimento das leis de imigração. Críticos de todo o país dizem que a lei levaria a uma perseguição racial aos hispânicos e difundiria o medo nas comunidades imigrantes.

Em Los Angeles, manifestantes marcharam pelas ruas e realizaram um imenso comício no centro da cidade, próximo à Catedral Nossa Senhora dos Anjos.Os presentes empunhavam bandeiras americanas e faixas, como uma que dizia "Nós latinos somos os judeus do século 21". O prefeito Antonio Villaraigosa disse à multidão que uma reforma federal da imigração já deveria ter ocorrido há muito tempo.

"Deixe-me ser claro sobre as leis que transformam pessoas em suspeitos com base na cor de sua pele", disse Villaraigosa. "Essas leis não têm lugar em nosso grande país".

O cardeal Roger Mahony, de Los Angeles, foi ovacionado quando disse: "Todos aos olhos de Deus são legais".

"Toda vez que existe uma retração econômica, há um novo ataque aos imigrantes", disse Mahony.

Uma manifestante em Los Angeles, Dorien Grunbaum, 67 anos, professora em uma faculdade comunitária da cidade, disse que estava lá para "primeiramente dar apoio aos imigrantes no Arizona. Sinto-me enojada pelo que está acontecendo lá", disse Grunbaum.

Nenhuma legislação de reforma foi apresentada no Congresso, e o presidente Barack Obama disse na semana passada que os parlamentares "podem não ter o apetite" para um volátil debate sobre imigração este ano. Um grupo de senadores democratas elaborou um anteprojeto de lei de reforma, escrito principalmente pelo senador Charles Schumer (Nova York).

Em Washington, Gutierrez sentou-se de pernas cruzadas na calçada em frente à Casa Branca por volta das 15h, segurando uma pequena bandeira americana e usando uma camiseta branca com a mensagem em vermelho: "que eu seja preso, não meus amigos". Cada manifestante carregava uma letra formando a frase: "Obama, pare de deportar nossas famílias".

Gutierrez teve suas mãos presas atrás das costas com algemas de plástico pela Polícia de Parques e caminhou em silêncio quando um policial o levou para longe da longa cerca negra de ferro fundido da Casa Branca.

Entre os outros detidos, estavam Jaime Contreras, diretor do Service Employees International Union para Washington, D. C., e Joshua Hoyt, Ali Noorani e Deepak Bhargava, líderes de organizações de defesa de imigrantes.

No centro de Dallas, manifestantes se reuniram na Catedral Santuário da Virgem de Guadalupe, a padroeira do México, e marcharam até a Prefeitura. Muitos usavam camisetas brancas e empunhavam bandeiras americanas ou as carregavam sobre seus ombros.

Em meio às amplas reverberações da lei do Arizona, a Fraternidade Alpha Phi Alpha, uma histórica organização negra que teve como membros o reverendo Martin Luther King Jr. e Justice Thurgood Marshall, anunciou que mudará sua convenção anual em julho de Phoenix para Las Vegas. A fraternidade diz esperar a presença de até 10 mil pessoas, incluindo membros e familiares, no encontro.

A diretoria da fraternidade decidiu não realizar o encontro num Estado com "uma lei que coloca os direitos civis e a própria dignidade de nossos membros em risco durante sua estada em Phoenix", disse Herman Mason, presidente geral.

Em Phoenix, uma multidão bem menor e mais moderada com cerca de mil pessoas se reuniu às 15h no gramado do Capitólio estadual.

A maioria carregava faixas caseiras, inclusive uma com Brewer usando um chapéu de bruxa e com os dizeres "Jan Brewer: a bruxa má do Arizona".A manifestação foi pacífica com a multidão predominantemente de latinos marchando ao redor do Capitólio. Houve algumas discussões com apoiadores da lei, mas que não se agravaram.

A manifestante Martina Paz, 42 anos, de Phoenix, segurava a foto de seu filho de 23 anos, Adan Buelna, que, segundo ela, está no Exército, baseado no Texas, aguardando uma mobilização para o Oriente Médio.

"Meu filho estará protegendo os direitos e a liberdade das pessoas do outro lado do mundo, mas quem vai proteger nossos direitos aqui no Arizona?", disse Paz.

Ela disse temer que, embora ela e seu marido Mario Buelna, 49 anos, estejam no processo de legalizar sua residência nos Estados Unidos, eles sejam parados pela polícia e possivelmente deportados.

Lilly Fowler contribuiu de Los Angeles, Ana Facio Contreras de Phoenix, Emma Graves Fitzsimmons de Chicago e James C. McKinley Jr. de Houston

Traduções: Amy Traduções

The New York Times
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra