Script = https://s1.trrsf.com/update-1765905308/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Estados Unidos

Famosos e anônimos relembram feitos de Ted Kennedy

27 ago 2009 - 15h48
Compartilhar

James Barron

Do New York Times


Faythe Collins recorda ter sido apresentada ao senador Edward Kennedy ainda na infância, e de tê-lo encontrado muito mais tarde, como mãe preocupada por os filhos terem sido detidos no Brasil. Ela telefonou ao gabinete do senador para pedir ajuda, e deixou um recado. "Minha expectativa era de que uma secretária retornasse", conta. Mas quando ela recebeu uma ligação, a voz do outro lado da linha era a do senador.

Sydney Scanlon assina deixa suas condolências no livro em memória do senador Edward Kennedy
Sydney Scanlon assina deixa suas condolências no livro em memória do senador Edward Kennedy
Foto: The New York Times

Collins, que foi ao Museu Kennedy, em Hyannis, Massachusetts, na quarta-feira, para assinar um dos livros de condolências colocados à disposição do público horas depois da morte do senador, lembra que Kennedy lhe disse que "não havia como influenciar" na libertação antecipada de seus filhos, mas sugeriu opções que ela poderia tentar sozinha, e depois voltou a telefonar diversas vezes para saber como a situação estava se encaminhando.

"As informações que ele me deu ajudaram a trazer meus filhos de volta", conta Collins, 45 anos, nascida em Hyannis e ainda hoje moradora de um bairro próximo ao complexo que a família Kennedy mantém em Hyannis Port. "É muito raro que políticos se esforcem por ajudar pessoas comuns".

À medida que se espalhavam as notícias sobre a morte de Kennedy, na quarta-feira, recordações sobre ele começaram a ser trocadas em todos os cantos do mundo e em todos os setores sociais, do motorista de caminhão de Waltham, Massachusetts, para o qual o senador "lutou pelas pessoas comuns e não pelos interesses especiais", ao atual presidente dos Estados Unidos, que definiu Kennedy como "uma figura singular na história norte-americana".

Mas embora seus aliados falassem preferencialmente de seu idealismo e de seu firme compromisso para com os ideais democráticos e os ideais do Partido Democrata, os oponentes conservadores, em programas de rádio e TV a cabo, se queixavam de que os democratas tentariam explorar a morte de Kennedy para angariar apoio ao pacote de reforma de saúde que o senador esperava aprovar como seu último triunfo legislativo.

O radialista conservador Rush Limbaugh rebateu a afirmação do líder da maioria democrata no Senado, Harry Reed, que havia definido Kennedy como "um leão do Senado", com o comentário: "E nós lhe servíamos de presa".

Houve quem recordasse Kennedy como o político que se elegeu senador quando um de seus irmãos era presidente e outro secretário da Justiça, e sobreviveu aos assassinatos de ambos, ao triste momento que viveu em Chappaquiddick e a uma candidatura presidencial frustrada em 1980, mas ainda assim se manteve no Senado ao longo de 10 presidências, influenciando a formulação de leis que mudaram a educação, os direitos civis, os programas federais de saúde, a previdência e muito mais.

"Sou republicano, mas o respeitava por tudo que tentou fazer", diz Dudley Thomas, um executivo aposentado de computação que vive perto da residência dos Kennedy. "Ele estava sempre batalhando pelas causas que considerava certas". Algumas pessoas estavam posicionadas em uma esquina próxima da residência na qual cidadãos comuns deixaram flores e outras recordações, e explicavam que suas memórias do senador pouco tinham a ver com política.

Danielle Nunes, de Billerica, Massachusetts, que dirigiu por mais de duas horas para chegar lá, diz que "viemos porque me lembro dele quando eu era menina; nós tínhamos um barco, e quando meu pai passou ao lado do barco de Ted, eu o cumprimentei com um 'oi, Ted'. Minha mãe me corrigiu e disse que deveria chamá-lo de senhor Kennedy. Mas ele disse que não havia problema em chamá-lo de Ted".

Alguns dos tributos mais emotivos vieram de seus colegas do Senado, ao qual ele serviu por 46 anos. O primeiro veio do presidente Barack Obama, que era um senador iniciante pelo Illinois quando decidiu disputar a presidência, e cuja candidatura Kennedy apoiou com entusiasmo que o ajudou a superar Hillary Clinton no auge da temporada de primárias, no ano passado.

Obama declarou na quarta-feira que estava "abatido" com a morte de Kennedy e que se havia "beneficiado como presidente" de seus conselhos. "Suas ideias e ideais", disse o presidente, "estão estampados em dezenas de leis e refletidos em milhões de vidas - nos idosos que agora têm mais dignidade, nas famílias que ganharam novas oportunidades, nas crianças para as quais a promessa de uma boa educação foi cumprida e assim podem realizar seus sonhos em um país mais justo - entre as quais me incluo".

Robert Gibbs, o secretário de imprensa da Casa Branca, disse que Obama havia apresentado suas condolências em telefonema à mulher de Kennedy, Vicki. Havia especulações de que Obama talvez visitasse Kennedy durante a semana de férias que está passando em Martha's Vineyard, mas assessores disseram que a situação do senador era grave demais e que uma visita presidencial seria um incômodo grande demais.

Alguns outros colegas de Senado ecoaram o senador John Kerry, que definiu Kennedy como "uma presença irreprimível, grandiosa". O senador John McCain, derrotado por Obama como candidato republicano na eleição presidencial do ano passado, declarou que Kennedy "se tornou insubstituível na instituição a que amava¿, e que haveria "um vazio" no Senado, sem ele.

Houve tributos de líderes estrangeiros e do secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, que definiu o senador como "uma voz que defendia aqueles que de outra forma não se fariam ouvir". Natan Sharansky, político israelense e antigo prisioneiro político soviético, definiu Kennedy como "uma das figuras mais imensas na luta pelos direitos humanos". Quando ele foi libertado de uma prisão soviética em 1986, conta Sharansky, foi Kennedy que telefonou à sua mulher em Israel para contar a novidade.

Sharansky recorda uma época em dignatários norte-americanos em visita a Moscou se preocupavam com a possibilidade de irritar o governo soviético e de colocar em risco os ativistas locais, caso os visitassem. Mas, no segundo trimestre de 1974, Kennedy encerrou uma visita oficial à cidade e depois foi à casa do conhecido dissidente Alexander Lerner.

"Ele foi o primeiro a ousar uma atitude como essa, e estabeleceu o precedente para visitas de líderes norte-americanos a outros dissidentes", disse Sharansky. "Antes dele, havia uma cortina de ferro. Ninguém tinha arriscado".

O antigo presidente Jimmy Carter, adversário de Kennedy na primária democrata de 1980 e denunciado pelo senador como "clone de Ronald Reagan", afirmou que Kennedy era "proeminente" no Congresso. "Ele sempre foi firme, honesto e aberto, e muito capaz de expressar suas opiniões ao povo dos Estados Unidos", disse Carter à rede de TV britânica BBC, de Ramallah, Cisjordânia. "Creio que Ted Kennedy, ainda que viesse de uma família afluente, de uma família muito importante e de grande sucesso na política, teve sempre como primeiro compromisso ajudar as pessoas mais necessitadas".

Nancy Reagan, cujo marido derrotou Carter na eleição presidencial de 1980 e certa vez definiu Kennedy como "o campeão do governo grande e gastador, e da presença constante do governo federal em nossas vidas e carteiras", declarou que Ronald Reagan e Kennedy "tinham grande respeito um pelo outro".

"Dadas nossas diferenças políticas", ela afirmou, "as pessoas se surpreendem pela proximidade que Ronnie e eu tínhamos com os Kennedy. Mas Ronnie e Ted sempre encontraram terreno comum". Ressaltando que o via como "aliado e amigo querido", ela acrescentou que suas opiniões e as Kennedy "coincidiam fortemente no que tange à pesquisa com células-tronco".

Os líderes democratas anunciaram que celebrariam a memória de Kennedy aprovando o pacote de saúde de Obama no Congresso. O senador Robert Byrd, por exemplo, sugeriu que a nova lei da saúde leve o nome de Kennedy. Limbaugh afirmou ter previsto essa ideia meses atrás, e Sean Hannity, um apresentador de TV conservador, definiu a proposta como "deselegante". Hannity afirmou que a morte de Kennedy "não é um motivo a mais para pressionar pela aprovação".

Mas em uma era de divisões políticas muitas vezes amargas, há quem diga que Kennedy sempre defendeu a cooperação entre os partidos."Vocês não consideram notável que um dos homens mais partidários e mais liberais do Senado no último século tenha contado com o apoio de tantos de seus inimigos, porque eles sabiam que colaborar com ele os tornaria maiores?", disse o vice-presidente Joe Biden, que se esforçava por conter as lágrimas em uma visita previamente agendada ao Departamento de Energia. "O comportamento dele permitia a todos que parecessem graciosos".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra