Cidade dos EUA adota lei que torna o inglês obrigatório
- Peter Applebome
- Do New York Times, em Jackson, Nova York
Em Jackson, uma cidade rural verdejante nas colinas próximas ao Estado de Vermont, estamos a 4 mil km da fronteira entre os Estados Unidos e México, em Nogales, mas isso não impediu que a cidade tente reproduzir em escala pequena a guerra quanto à imigração que está sendo travada no Arizona.
Ou é essa a sensação que começa a surgir dois meses depois que Jackson, uma cidade de 1,7 mil pessoas que não tem comércio, posto de gasolina, igreja ou escola, abriga apenas dois restaurantes e no máximo alguns poucos trabalhadores agrícolas que falam espanhol, decidiu que seria necessário adotar uma lei requerendo que todos os assuntos públicos do município sejam tratados em inglês.
Uma cidade próxima, Argyle, adotou resolução semelhante, pouco depois. Uma terceira, Easton, vai debater a mesma proposta na sessão do Legislativo municipal marcada para junho. A lei já colocou Jackson em confronto com a União pelas Liberdades Civis de Nova York, para a qual a medida viola leis federais e estaduais. Mas os efeitos de amplificação da mídia americana permitem que todos os camundongos rujam e, por isso, Roger Meyer, o proponente da medida, sente que está avançando em seu esforço para proteger o inglês contra todas as ameaças, distantes e próximas.
"Por tempo demais, o governo federal foi relapso com relação ao seu dever de tornar o inglês o idioma oficial dos Estados Unidos", disse Meyer, 76 anos, aposentado mas ainda dono da Chains Unlimited, uma serraria e loja de produtos madeireiros. O vereador Meyer acrescentou que "já que a lei não foi aprovada de cima para baixo, senti que era meu dever criar um movimento de base para impô-la de baixo para cima".
A lei designa o inglês como idioma escrito e falado da cidade, "a ser usado em todas as reuniões oficiais e para todos os assuntos tratados pelos funcionários eleitos e seus indicados".
A união pelas liberdades civis solicitou que o Legislativo municipal rescinda a lei. "O inglês não está sob ataque em Jackson ou qualquer outra parte do Estado ou do país", disse Melanie Trimble, diretora da divisão regional da organização.
A união afirmou que a lei proibia formas de expressão protegidas pela constituição e discriminava pessoas com conhecimentos limitados de inglês que tentassem conduzir discussões com o governo da cidade, quer para denunciar um crime, testemunhar em um tribunal ou obter um alvará. O texto não define exceções para emergências médicas ou investigações policiais nas quais a saúde e segurança públicas estejam em risco, segundo a união.
Perguntado, por exemplo, se em sua interpretação a lei proibiria a distribuição de um panfleto em espanhol sobre uma epidemia de raiva, Meyer disse que não. Alan Brown, o supervisor do município e único membros do Legislativo a votar contra a proposta (aprovada por três votos a um, com uma ausência) disse que, em sua opinião, sim.
Brown afirmou que não via motivo para gastar o dinheiro dos contribuintes para defender uma lei que não há como aplicar na prática. "A lei só serve para satisfazer os preconceitos de alguns, e não creio que isso seja bom", afirmou.
Uma coisa quanto à qual oponentes e proponentes concordam é que a lei não reflete ameaça iminente.
"Temos registros que remontam a 1816, e não há qualquer texto que não seja em inglês", disse Meyer. "A lei não mudará coisa alguma. Só oficializa que continuaremos a fazer o que fizemos nos últimos 190 anos".
E Meyer disse que a lei apoia o inglês, e não ataca outro idioma. "Não é preconceituosa ou nada disso", disse.
Ainda assim, ele declarou que desejava tomar uma posição quanto ao que define como um movimento sob o qual os imigrantes se interessariam menos por aprender inglês e por buscar assimilação, ao contrário do que acontecia no passado.
"As pessoas vêm para cá porque é o melhor lugar para elas", disse. "Se esse é o caso, deveriam se adaptar aos nossos costumes. Não somos nós que devemos nos adaptar aos costumes delas".
O debate sobre a proposta dividiu a cidade quase ao meio, mas Brown reconhece que foi criticado por seu voto, enquanto Meyer afirma só ter recebido elogios.
"Entrei em um restaurante em Hoosick Falls outro dia e um sujeito disse que eu era o cara que defendeu o inglês", conta. "Fui aplaudido".
As pessoas se apressam a dizer que os poucos trabalhadores rurais hispânicos da região são funcionários muito queridos, e que a lei não foi motivada por hostilidade a eles. Mas Brown diz que, se não existe hostilidade, existe alguma outra coisa, associada à corrente de inquietação nacional, mesmo nesse local distante e pacato.
"A lei não surgiu só porque alguém se interessa por e simpatiza com o fato de que nossos assuntos sempre foram conduzidos em inglês", disse. "Qual é o maior medo humano? É o medo de seja lá o que for, morte, terrorismo, o medo do que não compreendemos. Todos temos medo do desconhecido. Minha opinião é que essa lei só reforça esse aspecto".
Tradução: Paulo Migliacci