Negociações entre EUA e Irã continuam, mas ataques à Arábia Saudita podem inviabilizar esforço, dizem fontes
As negociações entre Estados Unidos e Irã correm o risco de descarrilar após os ataques de Teerã a instalações industriais da Arábia Saudita, disseram duas fontes paquistanesas com conhecimento das discussões à Reuters nesta terça-feira, conforme se esgotavam as horas que antecedem a ameaça do presidente Donald Trump de desencadear "o inferno" contra o país.
As próximas horas de conversações são críticas, disse uma das fontes. Trump deu ao Irã até às 20h em Washington (22h em Brasília e 3h30 em Teerã) para acabar com o bloqueio ao petróleo do Golfo Pérsico ou ver os EUA destruírem todas as pontes e usinas de energia no Irã.
O Irã prometeu retaliar os aliados dos EUA no Golfo, cujas cidades no deserto ficariam inabitáveis sem energia ou água. O Irã intensificou seus ataques durante a noite, atingindo um complexo petroquímico saudita, na mais recente evidência da capacidade do país de revidar os ataques israelenses e norte-americanos.
A guerra, que já dura cinco semanas, matou milhares de pessoas em toda a região, principalmente no Irã e no Líbano, e resultou na pior interrupção do fornecimento de energia da história, devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, a principal artéria usada para o trânsito de um quinto do petróleo e do gás do mundo.
O Paquistão tem sido o principal intermediário para as propostas compartilhadas por ambos os lados, mas não há sinal de um compromisso.
No entanto, uma das fontes, uma autoridade graduada de segurança, disse que os ataques noturnos do Irã às instalações industriais da Arábia Saudita ligadas a empresas norte-americanas ameaçaram inviabilizar as negociações.
Se a Arábia Saudita retaliar, as negociações estariam encerradas, disse a fonte, acrescentando que isso poderia atrair o Paquistão para o conflito, de acordo com seu pacto de defesa com Riad, que vincula as duas nações a lutar uma pela outra em caso de guerra.
Em uma ligação telefônica com o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, condenou os ataques às instalações sauditas, dizendo que o Paquistão estaria ao lado de seus irmãos e irmãs sauditas.
MENSAGENS SENDO TROCADAS
"Estamos em contato com os iranianos. Ultimamente, eles têm demonstrado flexibilidade para participar das conversações, mas, ao mesmo tempo, estão adotando linhas duras como pré-requisito para qualquer negociação", disse a fonte de segurança paquistanesa.
Ele acrescentou que Islamabad está tentando persuadir Teerã a entrar em negociações sem condições prévias.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã disse na segunda-feira que as mensagens ainda estão sendo trocadas entre o Irã e os EUA por meio de mediadores.
Uma fonte iraniana graduada disse que Teerã havia rejeitado uma proposta de cessar-fogo temporário com negociações dependentes do fim dos ataques israelenses e norte-americanos e da compensação por danos.
O Ministério das Relações Exteriores do Paquistão disse nesta terça-feira que os ataques à Arábia Saudita constituem uma escalada perigosa.
"Essas agressões injustificadas têm sérias repercussões, estragando as opções pacíficas em andamento e o ambiente propício", acrescentou uma declaração do Exército paquistanês após os principais comandantes se reunirem com o chefe do Exército Asim Munir.
O Paquistão quer evitar ser arrastado para a guerra, o que poderia causar estragos ao longo de sua fronteira ocidental compartilhada com o Irã e provocar descontentamento entre sua grande população xiita, a segunda maior do mundo depois do Irã.
Os analistas dizem que o acordo de defesa pode não desencadear uma ação militar imediata, mas pode ser ativado se o conflito se agravar.
A disposição do Irã de correr o risco de constranger o Paquistão em um momento em que "é crucial para a intermediação de um cessar-fogo revela o quanto Teerã está comprometido com uma estratégia de retaliação que pune o Golfo Pérsico pelos ataques dos EUA e de Israel", disse Adam Weinstein, especialista em Paquistão, Afeganistão e política dos EUA no Quincy Institute.