'É inútil ceder ao pânico', diz epidemiologista que acompanhou surto de hantavírus na Argentina
O veterinário e epidemiologista argentino Edmundo Larrieu atua no setor de Zoonoses do Ministério da Saúde da província de Río Negro, na Patagônia, e é especialista no estudo e no controle da cepa Andes Sul do hantavírus, que se propagou no cruzeiro MV Hondius. Ele atuou no primeiro grande surto de hantavírus com transmissão entre humanos registrado na Argentina, em 1995, na região de Bariloche, que marcou a história da epidemiologia no país, e ajudou a reformular protocolos de biossegurança.
Em entrevista à RFI, o epidemiologista argentino disse que é inútil ceder ao pânico. De acordo com ele, embora a doença seja letal, a transmissão entre humanos continua sendo um fenômeno excepcional, e protocolos rigorosos de biossegurança — como o isolamento dos casos de contato e o uso de máscaras específicas — são suficientes para interromper a propagação.
RFI - Como o senhor avalia a situação neste momento?
Edmundo Larrieu - O que posso dizer é que, antes de tudo, situações de hantavírus geram um pânico coletivo e social irracional. Eu sempre dizia aos meus alunos, quando dava aula, para lerem A Peste, de Albert Camus, porque é a melhor descrição do que ocorre em uma comunidade quando surge o hantavírus: há pânico.
Em 1995 havia um problema extra além do pânico: o vírus tinha acabado de ser descrito no mundo e, para a ciência naquele momento — sobretudo para o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos), que era praticamente a única referência —, não existia transmissão entre humanos. Acreditava‑se que isso não era possível.
Isso nos levou, a nós e aos médicos, a cometer erros importantes e a enfrentar um surto grande, que gerou perdas milionárias para o turismo de Bariloche, para a produção artesanal e outros setores. Portanto, a primeira questão é o pânico — e ele é irracional —, e essa é a primeira coisa que precisa ser resolvida.
RFI - Por que o pânico é irracional do ponto de vista científico? O que se pode descartar?
E. L - Na Argentina há hantavírus em todas as províncias, como em muitos lugares do mundo. Mas o único hantavírus com transmissão entre humanos é o vírus Andes Sul, que está na cordilheira. A cordilheira começa na província de Neuquén, passa por Río Negro, segue por Chubut, depois Santa Cruz e agora aparece na Terra do Fogo — provavelmente porque o vírus saiu dali. Não há outra possibilidade, porque em nenhum outro lugar do mundo a transmissão entre humanos está comprovada, apenas no sul.
O primeiro caso sempre é transmitido por um roedor — um roedor da cordilheira andino‑patagônica. Depois que o diagnóstico laboratorial confirma o hantavírus, os demais casos costumam ser de transmissão entre pessoas. Isso assusta muito, mas ele não se transmite facilmente. Não é covid, não é sarampo.
Hoje existem protocolos que não existiam em 1995. Naquela época, insistia‑se que não havia transmissão entre humanos, apesar de observarmos situações estranhas. O CDC insistia nisso, e nós, jovens, não nos atrevíamos a discutir, até que a transmissão foi demonstrada por meio da biologia molecular: a mesma estrutura aparecia em todas as pessoas infectadas, ou seja, tratava‑se do mesmo vírus.
A partir disso, aprendeu‑se muito. Os protocolos de biossegurança passaram a ser respeitados: médicos protegidos, pacientes isolados. Por isso, não tivemos mais grandes surtos entre humanos, apenas casos isolados. Houve uma exceção em Chubut, quando ocorreu um surto com 34 pessoas porque os pacientes não foram isolados.
No caso do navio, o primeiro caso pode ter sido alguém que teve contato com um roedor antes de embarcar, ou até um roedor a bordo — isso talvez nunca se saiba. A partir daí, o principal é o rastreamento e o isolamento dos contatos próximos do doente.
RFI - Há preocupação em Tenerife sobre o risco de contágio em hospitais, tanto para profissionais de saúde quanto para outros pacientes. Isso pode acontecer?
E. L - Pode acontecer, mas por desconhecimento. Em 1995, 40% dos doentes eram profissionais de saúde, porque não se acreditava na transmissão entre humanos e ninguém usava máscara nem isolava os pacientes. Hoje isso não ocorre. Os médicos usam máscaras adequadas, os doentes ficam em salas de isolamento, e o risco é praticamente zero.
Isso não é coronavírus. A covid, depois do sarampo, é o vírus mais transmissível que já existiu. O hantavírus não é assim. A transmissão é difícil, exige contato muito estreito, e hoje sabemos como evitá‑la. Não há motivo para pânico.
RFI: Como um surto acaba?
E. L - Ele acaba com isolamento. O período de incubação é de cerca de 15 a 20 dias. Os contatos dos casos devem ser isolados. Quando isso é feito, o surto se interrompe. Não há outro método. Não basta isolar o doente; é preciso identificar com quem ele teve contato próximo — quem dividiu quarto ou mesa, não apenas alguém que cruzou com ele no corredor.
RFI - Por que continuam surgindo novos focos ao longo dos anos? É possível erradicar o vírus?
E. L - Não. É impossível erradicar. Cada roedor silvestre tem um vírus específico. O vírus Andes Sul vive naturalmente no Oligoryzomys longicaudatus, um roedor da floresta. O vírus existe há milhares de anos. O problema é que o ser humano invadiu o habitat desses animais — constrói casas, faz turismo, cultiva a terra.
Mesmo assim, a transmissão do roedor para o ser humano é raríssima. Há milhares ou milhões de turistas na cordilheira andino‑patagônica, e temos um ou dois casos por ano. É uma doença rara, mas muito grave — entre 50% e 70% dos doentes morrem. Isso causa terror, embora os casos sejam poucos.
O que foi praticamente eliminado foi a transmissão entre humanos, graças ao uso de medidas de biossegurança. O que ocorreu no cruzeiro é raro provavelmente porque o primeiro caso não foi identificado a tempo e não se tomaram medidas iniciais. Não é culpa das pessoas a bordo — ninguém imaginaria isso.
O problema maior é o medo irracional, como aconteceu em Bariloche, que ficou anos sem turismo após um surto, mesmo sem risco real generalizado. É preciso informação e calma: hoje sabemos como prevenir tanto a transmissão do roedor para o ser humano quanto, sobretudo, a transmissão entre humanos.
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