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‘É gratificante salvar pelo menos um’: o brasileiro de 20 anos que decidiu lutar pelo exército da Ucrânia

Após quatro meses na linha de frente, jovem relata perdas de colegas, destruição de cidades e civis mortos

27 fev 2026 - 04h58
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Brasileiro que lutou na Ucrânia descreve combates, perdas e impacto psicológico da guerra:

Perder amigos em questão de minutos. Ver civis morrerem em vilas reduzidas a escombros. Passar quatro dias preso em um bunker sem comida, sob monitoramento de drones. Aos 20 anos, o sul-mato-grossense Alexandre Duarte, voltou ao Brasil depois de quatro meses e meio na linha de frente da guerra entre Ucrânia e Rússia com marcas que, segundo ele, “a mente ainda está tentando entender”.

Duarte, conhecido pelo nome de guerra Soldado Madruga, tem atualmente mais de 20 mil seguidores nas redes sociais, que acompanhavam sua rotina durante o período em que esteve na guerra. Em entrevista ao Terra, ele contou que não tinha experiência nenhuma de atuação no Exército e que a decisão de ir para o conflito começou após ouvir o relato de um amigo que já estava na Ucrânia.

“Esse amigo me mostrou a realidade de lá, que é bem complicada. A população civil, principalmente os idosos, sofre muito porque mora perto do front e muitas vezes é atacada por drones e artilharia. A situação deles é muito difícil”, disse ele. “Isso me comoveu e despertou a vontade de ir”, acrescentou.

Aos 20 anos, o sul-mato-grossense Alexandre Duarte, voltou ao Brasil depois de quatro meses e meio na linha de frente da guerra entre Ucrânia e Rússia
Aos 20 anos, o sul-mato-grossense Alexandre Duarte, voltou ao Brasil depois de quatro meses e meio na linha de frente da guerra entre Ucrânia e Rússia
Foto: Arquivo Pessoal

A família não acreditou quando ele avisou que iria partir. Ainda assim, embarcou e só voltou a dar notícias quando já estava na Espanha, a caminho do Leste Europeu. Inicialmente, alistou-se na Legião Estrangeira, mas, ao chegar à Ucrânia, ingressou diretamente no Exército ucraniano. Foi designado para um batalhão responsável por missões de assalto, reconhecimento e sabotagem.

“O treinamento era bastante tático. A gente fazia assaltos a posições russas para tentar forçá-los a recuar. No reconhecimento, atuávamos em grupos pequenos, de forma furtiva, para não sermos detectados por drones”, descreveu. Segundo ele, o batalhão reunia voluntários de diferentes países.

Os desafios e a perda de amigos

Duarte nem sempre conseguia manter contato com a família. À medida que se aproximava da linha de frente, a comunicação se tornava cada vez mais instável. Ataques frequentes à infraestrutura elétrica deixavam regiões sem energia, o que comprometia também o acesso à internet e até a possibilidade de carregar o celular. Em muitos períodos, portanto, ele ficava completamente incomunicável.

O episódio que mais o marcou aconteceu quando decidiu reforçar uma missão que sairia desfalcada. Dois integrantes haviam desistido, e ele sabia que uma equipe reduzida teria menos poder de fogo e menos chance de reação.

“Eu pensei: não vou deixa-los desfalcados. Conversei com meu amigo e falei: eu vou ajudar. Ele só entrou em combate porque eu entrei.”

A operação terminou com a morte do amigo. Desde então, ele conta que a decisão pesa. “Isso me deixa um pouco culpado, porque nessa missão ele acabou tombando.”

Alexandre Duarte e seus colegas militares em atuação pelo Exército da Ucrânia
Alexandre Duarte e seus colegas militares em atuação pelo Exército da Ucrânia
Foto: Arquivo Pessoal

Dias depois, outro choque. Antes de seguir para um novo assalto, ele conversou com soldados que seguravam uma posição. Riram, trocaram impressões, falaram sobre a missão. Quando retornaram, a cena era outra. “Uma hora eu estava conversando com eles. Quando a gente voltou, todos tinham tombado [morrido], só um a gente conseguiu salvar. Questão de meia hora de diferença.”

A experiência resume, para ele, a brutalidade imprevisível da guerra. “Uma hora você está conversando e no outro dia pode ser que não esteja mais aqui. Muitas pessoas que conheci morreram”, lamentou.

Sobre como a perda de amigos no front é enfrentada pelos combatentes, ele explicou que, antes de entrar em combate, há conversas entre a equipe sobre os riscos. “Se um de nós tombar, o outro não pode se desesperar. Na hora, você não pode lamentar, porque se parar para isso, sua mente fica bagunçada, e você pode se colocar em perigo, e, além de você, colocar a equipe em risco”, relatou.

Mesmo assim, os efeitos emocionais são inevitáveis. Após retornarem a uma posição segura, os soldados passam por momentos de silêncio e reflexão. Mesmo assim, os efeitos emocionais são inevitáveis. “Quando voltamos para local seguro, ficamos uns minutos de silêncio, mas essa é a realidade. Infelizmente, não há muito tempo para lamentar, só depois a gente pensa. Tem noites mal dormidas, mas é assim que é”, contou o militar.

O medo que vira “aceitação”

Segundo Duarte, o medo é permanente, mas muda de forma. “A gente sente medo o tempo todo, só que acaba acostumando. De começo você escuta uma explosão ao longe e fica com medo. Depois, a explosão pode cair do seu lado e você já não sente o mesmo medo.”

Ele descreve um momento em que ficou encurralado enquanto um drone se aproximava. “Meu coração estava acelerado e depois foi se acalmando. Eu só aceitei: ele vai me explodir.”

O ataque não aconteceu. Ele conseguiu evacuar e ainda ajudar a salvar um ferido. “É gratificante saber que pelo menos um a gente salvou.”

Um dos locais que o jovem militar viu ser destruído pela guerra na Ucrânia
Um dos locais que o jovem militar viu ser destruído pela guerra na Ucrânia
Foto: Arquivo Pessoal

Quatro dias em um bunker

Um dos episódios mais traumáticos ocorreu após uma missão de assalto que não saiu como planejado. Ele e a equipe precisaram se abrigar em um bunker, onde permaneceram por quatro dias. No local, havia apenas água, não havia alimento. Um dos integrantes estava ferido e começava a apresentar sinais de hipotermia, o que aumentava a tensão dentro do abrigo.

Sem poder sair por causa de drones que monitoravam a área constantemente, o grupo tentou manter o colega aquecido e estável até surgir uma oportunidade segura de evacuação.

Em outra operação, um companheiro pisou em uma mina terrestre. Era noite, e o risco era ainda maior devido à presença de drones com sensores térmicos sobrevoando a região. Mesmo assim, a equipe percorreu quilômetros carregando o ferido até alcançar uma posição considerada segura. “Infelizmente, ele perdeu a perna. Mas se não tivesse feito os procedimentos ali na hora, poderia ter sido pior.”

Civis e escolas destruídas

Duarte afirma que a morte de civis é frequente. “Tem muitos ataques de drone que acabam explodindo casas, comércios, mercados. Um dia pode ter uma vila inteira ali, no outro ela pode estar reduzida a escombros.”

Ele destaca especialmente a situação de idosos que resistem em deixar suas casas próximas ao front.  “Eles moraram a vida toda ali. Não é fácil sair. E nessa de ficar, acabam morrendo.”

Outra imagem que o marcou foi a destruição de escolas. Segundo ele, muitas unidades de ensino foram atingidas por bombardeios, comprometendo o acesso das crianças à educação e alterando a rotina de milhares de famílias.

Os animais também sofrem as consequências do conflito: muitos ficam feridos, são abandonados durante evacuações ou acabam morrendo em meio aos ataques. Ele cita o trabalho de ONGs que atuam no resgate de animais em zonas de combate como uma das iniciativas que trouxeram algum conforto moral em meio ao cenário de devastação.

A mente “acumulando”

O militar voltou ao Brasil por decisão própria. Depois de mais de quatro meses na guerra, acumulou noites mal dormidas e um estresse constante. O jovem contou que sempre foi uma pessoa muito calma, mas que, ultimamente, vinha se sentindo sobrecarregado.

“Eu precisava descansar a mente. Ela vai acumulando, acumulando. As situações que acontecem um pouco aqui, um pouco ali, acabam perturbando muito a mente. Você tem noites mal dormidas, e o corpo começa a mostrar sinais de fraqueza. Se você não descansa, não consegue trabalhar com eficiência.”

Sobre quem se tornou após a guerra, o soldado admite: “Isso eu ainda vou descobrir. Muitos pensamentos meus mudaram. Sempre fui uma pessoa muito calma e, ultimamente, estou bem estressado, mas busco me tornar uma pessoa melhor.”

Apesar das perdas, ele confessa sentir que “não fez o suficiente” e cogita retornar à Ucrânia. Ao mesmo tempo, reconhece os riscos. “Se eu voltar, pode ser que dessa vez eu não tenha a mesma sorte de voltar com vida.”

Para os brasileiros que o procuram em busca de orientação, ele alerta que somente devem se voluntariar aqueles que estejam realmente preparados. “Se não estiver preparado mentalmente e fisicamente, não compensa. Você recebe um salário a partir do momento que entra mesmo para o Exército, mas ainda sim você deve ir preparado para o que vai viver lá". 

Duarte ressalta que há diversas formas de apoiar a Ucrânia sem precisar ir à linha de frente, como por meio de doações, manifestações ou ajuda humanitária, e alerta que muitos voluntários chegam despreparados, sem compreender a real dimensão do conflito.

A guerra que, para ele, não deve acabar tão cedo

Na avaliação do jovem militar, o conflito está longe do fim. Ele critica a liderança russa e acredita que, mesmo com um eventual acordo, a tensão persistirá. “Essa guerra não está próxima de acabar. As cidades vão sendo destruídas, a população vai sendo morta. Nós o vemos [Putin] como um tirano. Conversei muito com os ucranianos lá, e eles relataram que há muito tempo a Rússia tenta acabar com a cultura ucraniana e implantar a cultura russa.”

De volta ao Brasil, Duarte pretende retomar os treinos de luta e disputar campeonatos para cuidar da saúde mental.“O esporte me acalma. Você luta ali, mas depois a amizade continua. É totalmente diferente de uma guerra.” 

Fonte: Portal Terra
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