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Quando vai acabar? Entenda a guerra entre Rússia e Ucrânia em quatro pontos

Entre disputas territoriais, impasses diplomáticos e impactos econômicos globais, especialistas explicam as origens do conflito e o impacto

24 fev 2026 - 04h58
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Um incêndio assola o distrito de Obolonskyi após um ataque de míssil balístico russo em Kiev, Ucrânia, em 6 de abril de 2025
Um incêndio assola o distrito de Obolonskyi após um ataque de míssil balístico russo em Kiev, Ucrânia, em 6 de abril de 2025
Foto: NurPhoto/GettyImages

Quatro anos após o início da invasão russa ordenada pelo presidente Vladimir Putin, a guerra na Ucrânia permanece como um dos principais focos de tensão geopolítica do planeta. Deflagrado em fevereiro de 2022, o conflito é resultado de disputas históricas, estratégicas e identitárias que extrapolaram as fronteiras do Leste Europeu, redesenharam alianças e impactaram a economia global -- e ainda não têm desfecho claro.

Para entender como a guerra começou, por que se prolonga, quais cenários podem levar ao seu fim e quais são seus efeitos no mundo, especialistas ouvidos pelo Terra analisam os principais pontos do embate.

Como a guerra começou?

A invasão russa em 2022 não surgiu do nada. Ela é o ponto mais agudo de uma crise que se arrasta ao menos desde 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e o leste da Ucrânia mergulhou em conflito armado.

Para o professor Gunther Rudzit, da ESPM, há uma combinação de fatores políticos e estratégicos. “Para Moscou, a dissolução da União Soviética foi percebida como uma perda histórica e estratégica profunda”, explica. Ao longo dos anos 1990 e 2000, a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para o Leste Europeu passou a ser vista como ameaça direta ao entorno russo.

Ele lembra que, em 2008, durante reunião da aliança, o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, levantou a possibilidade de adesão da Ucrânia à OTAN, um movimento que, para o Kremlin, ultrapassava uma linha vermelha estratégica.

Rússia lança mais de 300 drones em ataque contra Ucrânia:

Já a professora Clarissa Forner, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), chama a atenção também para outras raízes. Segundo ela, as relações entre Rússia e Ucrânia antecedem a formação dos Estados modernos e remontam ao Estado kievano, entre os séculos IX e XII. “Enquanto o imaginário e a identidade russa projetam a Ucrânia como parte da Rússia, desde suas fundações, a Ucrânia também busca consolidar uma identidade autônoma e soberana.”

Essa disputa simbólica se soma a fatores geopolíticos. A Ucrânia é estratégica por seu acesso ao Mar Negro e por ser rota de escoamento de gás natural para a Europa. Além disso, após os protestos da Praça Maidan, em 2014, que derrubaram um presidente pró-Rússia, Kyiv acelerou sua aproximação com a União Europeia e ampliou a cooperação militar com o Ocidente.

“Moscou passou a interpretar essa aproximação não apenas como ameaça militar, mas como ameaça política e simbólica”, diz Rudzit. Para Forner, é importante reforçar que tais fatores ajudam a compreender a perspectiva russa, “mas não legitimam a invasão e a relativização da soberania ucraniana”.

Por que continua?

Se as origens do conflito são complexas, as razões para sua continuidade também são. Segundo Rudzit, dois pontos centrais travam qualquer acordo. O primeiro é territorial: Moscou quer que Kiev retire suas forças de áreas do Donbas que nem sequer estão totalmente sob controle russo. O segundo envolve segurança. “O governo ucraniano quer garantias de segurança, ou seja, presença militar ocidental, para que o governo russo não volte a atacar novamente no futuro”, explica.

O problema é que a Rússia rejeita a presença de tropas da OTAN ao longo de sua fronteira. Soma-se a isso o histórico de descumprimento dos Acordos de Minsk, assinados em 2014 e 2015 após a anexação da Crimeia. “Há ausência total de confiança mútua entre as partes”, afirma o professor.

Clarissa destaca que, do ponto de vista ucraniano, concessões territoriais são inegociáveis. Já para Moscou, qualquer solução passa por esse tipo de concessão. Além disso, ela observa que o ambiente internacional dificulta a mediação. O Conselho de Segurança da ONU está paralisado pela rivalidade entre seus membros permanentes, incluindo Rússia e Estados Unidos.

Para a professora, mesmo um eventual cessar-fogo não significaria paz duradoura. “O conflito também tem contribuído para intensificar a remilitarização europeia”, destaca. Assim, ainda que a violência direta diminua, a militarização crescente pode manter a região em estado de tensão prolongada.

Quando a guerra irá acabar?

Não há data previsível para o fim da guerra. Mas há cenários possíveis. Para Rudzit, o conflito tende a terminar quando “um dos lados concluir que continuar lutando custa mais do que ceder” ou quando surgir um acordo “imperfeito, mas verificável”, capaz de oferecer segurança mínima à Ucrânia e ganhos políticos à Rússia.

Um dos cenários mais plausíveis é o de um cessar-fogo “congelado”, com linha de contato estabilizada, mas sem solução definitiva sobre os territórios ocupados. Outro caminho seria uma barganha em que o status das áreas ocupadas fique em disputa, enquanto a Ucrânia recebe garantias de segurança robustas, como apoio militar de longo prazo.

Há ainda hipóteses menos prováveis no curto prazo, como colapso militar decisivo de um dos lados ou um choque político interno em Moscou ou em Kiev. “Mudanças de liderança ou crises domésticas podem alterar a função de custos da guerra”, explica Rudzit.

Clarissa pondera que, mesmo diante de um cessar-fogo, o cenário internacional já mudou. A guerra expôs os limites da ideia de “fim da história” que ganhou força no Ocidente após a Guerra Fria. “As disputas geopolíticas entre potências nunca deixaram de existir, mas o conflito as tornou incontornáveis.”

Efeitos da guerra no mundo

Os impactos da guerra extrapolam o campo de batalha. No plano econômico, houve um choque simultâneo de energia e alimentos. A redução do fornecimento de gás russo à Europa elevou preços globais e forçou a reconfiguração de rotas energéticas. A interrupção parcial das exportações pelo Mar Negro pressionou preços de grãos e fertilizantes, afetando sobretudo países dependentes de importações na África e no Oriente Médio.

“O resultado é uma economia global mais fragmentada, mais politizada e menos integrada do que no período imediatamente posterior à Guerra Fria”, resume Rudzit. A inflação global entre 2022 e 2023 levou bancos centrais a elevar juros, encarecendo crédito e desacelerando o crescimento.

Na política de segurança, a guerra revitalizou a OTAN e estimulou aumentos nos gastos militares europeus. A aliança, que vinha sendo vista como enfraquecida, passou por novos alargamentos e revisou seus conceitos estratégicos.

Para Clarissa, o conflito reavivou as disputas entre grandes potências e evidenciou contradições do discurso liberal que marcou o pós-Guerra Fria. “A narrativa de redução dos conflitos entre Estados mostrou seus limites diante dessas disputas geopolíticas renovadas.”

O antagonismo entre Rússia e Estados Unidos se consolidou, a coordenação entre Moscou e Pequim se aprofundou, e países do chamado Sul Global passaram a adotar posturas mais autônomas.

Rudzit acrescenta que o impacto da guerra no Brasil se dá sobretudo de forma indireta, mas concreta, por meio da economia. “O efeito mais imediato foi a volatilidade nos preços de energia e alimentos”, explica. A disparada do petróleo pressionou combustíveis e a inflação doméstica, enquanto o encarecimento de fertilizantes, dos quais a Rússia é fornecedor relevante, elevou custos no agronegócio, setor central da economia brasileira.

Ao mesmo tempo, o cenário internacional também abriu oportunidades: a alta global das commodities beneficiou exportações brasileiras em determinados momentos. “É uma situação ambígua: há ganhos externos combinados com pressão interna sobre preços.”

No campo diplomático e geopolítico, Rudzit avalia que o conflito intensificou a polarização internacional e aumentou a pressão por alinhamentos. O Brasil buscou manter sua tradição de autonomia, defendendo princípios como soberania e integridade territorial, mas sem aderir às sanções contra Moscou. “Essa postura reflete pragmatismo econômico e a necessidade de preservar canais com diferentes polos de poder”, afirma, citando a importância de manter relações com Estados Unidos, União Europeia e China.

"Geopoliticamente, a guerra acelera tendências que não favorecem países dependentes de estabilidade comercial e previsibilidade normativa. A fragmentação das cadeias produtivas, o uso crescente de sanções como instrumento estratégico e a revalorização do poder militar criam um cenário internacional mais competitivo e menos cooperativo", diz o especialista. "Para o Brasil, isso significa maior incerteza estrutural, necessidade de diplomacia mais sofisticada e desafios crescentes para preservar margem de autonomia em um sistema internacional cada vez mais polarizado", acrescenta.

Fonte: Portal Terra
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