Deslocamento de 36 mil palestinos em um ano leva ONU a alertar para risco de 'limpeza étnica'
A ONU alertou nesta terça-feira (17) que a expansão acelerada dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, somada ao deslocamento forçado de mais de 36 mil palestinos em um ano, indica uma possível política coordenada de transferência populacional nos territórios ocupados — um cenário que reacende temores de "limpeza étnica" em meio à guerra em Gaza e ao agravamento da violência de colonos desde 2023.
Segundo um relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), que cobre o período de novembro de 2024 a outubro de 2025, "o deslocamento de mais de 36 mil palestinos na Cisjordânia ocupada constitui uma expulsão em massa de uma magnitude sem precedentes".
O documento aponta que "os deslocamentos na Cisjordânia ocupada, que coincidem com o deslocamento em massa de palestinos em Gaza, parecem indicar uma política israelense coordenada de transferência forçada em larga escala" nos territórios ocupados, o que levanta "preocupações sobre uma possível limpeza étnica".
Em 19 de fevereiro, o Alto Comissariado já havia expressado o temor de uma "limpeza étnica" nos territórios palestinos ocupados, citando ações israelenses como "a intensificação dos ataques, a destruição sistemática de bairros inteiros, a recusa em fornecer ajuda humanitária e as transferências forçadas".
Novas unidades habitacionais
O relatório registra, no período analisado, "o avanço ou a aprovação, por parte das autoridades israelenses, de 36.973 unidades habitacionais em assentamentos de Jerusalém Oriental ocupada e de outras 27.200 no restante da Cisjordânia".
Mais de 500 mil israelenses vivem atualmente na Cisjordânia — sem contar Jerusalém Oriental — entre quase três milhões de palestinos, em assentamentos considerados ilegais pela ONU com base no direito internacional.
A violência no território palestino ocupado por Israel desde 1967 aumentou significativamente após o ataque do movimento islamista Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, que deflagrou a guerra na Faixa de Gaza. Essa escalada continuou mesmo após o cessar-fogo em vigor na Faixa desde 10 de outubro.
Violência
O ACNUDH relata 1.732 incidentes de violência cometidos por colonos, que resultaram em vítimas ou danos materiais, contra 1.400 registrados no período anterior, de novembro de 2023 a outubro de 2024.
"A violência praticada por colonos continuou de forma coordenada, estratégica e amplamente impune, com papel central das autoridades israelenses", afirma o relatório.
O ACNUDH ressalta que a "transferência ilegal" de palestinos "constitui crime de guerra" e que, "em determinadas circunstâncias", tais atos podem "configurar crime contra a humanidade".
O chefe do ACNUDH, o austríaco Volker Türk, apelou a Israel para "cessar imediata e completamente a criação e expansão de assentamentos, retirar todos os colonos e pôr fim à ocupação" dos territórios palestinos. Ele também exigiu que Israel "permita o retorno dos palestinos deslocados e acabe com todas as práticas de confisco de terras, expulsões forçadas e demolição de casas".
O relatório ainda destaca o risco maior de deslocamento enfrentado por milhares de palestinos de comunidades beduínas situadas ao nordeste de Jerusalém Oriental, devido ao avanço de projetos de colonização na região.
Com RFI e AFP