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'Minha mãe chorou pela última vez': menino palestino de 12 anos descreve ataque de Israel que matou sua família no carro

Os pais de Khaled Bani Odeh e dois de seus irmãos foram mortos a tiros enquanto dirigiam de volta para casa após uma ida às compras na Cisjordânia ocupada

17 mar 2026 - 10h46
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Os pais de Khaled Bani Odeh e seus dois irmãos mais novos foram mortos a tiros diante dele enquanto voltavam para casa de carro
Os pais de Khaled Bani Odeh e seus dois irmãos mais novos foram mortos a tiros diante dele enquanto voltavam para casa de carro
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Aviso: este artigo contém descrição gráfica de um tiroteio.

Nos poucos momentos de silêncio após os disparos, antes de ser arrastado para fora do carro da família, Khaled Bani Odeh, 12, pensou que era o único membro de sua família que ainda estava vivo.

Segundos antes, seus pais e dois irmãos mais novos haviam sido mortos a tiros através do para-brisa por forças israelenses, enquanto voltavam para casa após uma ida às compras em família na Cisjordânia ocupada por Israel.

Entre os mortos estava Othman, de 7 anos — cego e com outra deficiência — morto enquanto estava sentado no colo da mãe.

"Minha mãe gritou uma última vez antes de ficar em silêncio", disse Bani Odeh. "Meu pai recitou a Shahada [a declaração islâmica de fé] enquanto morria."

Quando as forças israelenses tentaram arrastar do carro seu único irmão sobrevivente, Mustafa, Bani Odeh disse que tentou intervir.

"Eles me puxaram para fora no lugar dele e começaram a pular nas minhas costas", disse. "Depois me levaram para um canto e me interrogaram sobre quem estava no carro. Eu disse que era minha mãe e meu pai. Eles me acusaram de mentir e começaram a me espancar."

Ali Khaled Bani Odeh, sua esposa, Waad, e seus filhos Mohammed e Othman foram enterrados no domingo
Ali Khaled Bani Odeh, sua esposa, Waad, e seus filhos Mohammed e Othman foram enterrados no domingo
Foto: EPA / BBC News Brasil

A família de Ali Khaled Bani Odeh, 37, e de sua esposa, Waad, 35, estava a poucos minutos de casa quando foi morta, na vila de Tammun, perto de Tubas (Cisjordânia), pouco depois da meia-noite de sábado (14/3).

Os parentes disseram que Bani Odeh (o pai) havia chegado recentemente a Tammun após seis semanas trabalhando em um canteiro de obras em Israel, e que os meninos haviam implorado para que ele os levasse às compras em Nablus, antes do feriado de Eid al-Fitr (que marca o fim do Ramadã) previsto para o fim desta semana.

Naquela noite, enquanto eles voltavam das compras e de um jantar em Nablus, o Exército israelense disse que seus soldados e a Polícia de Fronteira estavam operando em Tammun para prender pessoas suspeitas de atividade terrorista contra forças de segurança de Israel.

Segundo o Exército, o carro da família Bani Odeh "acelerou em direção às forças, que perceberam o perigo e responderam atirando".

Uma testemunha contestou a versão do Exército israelense sobre o tiroteio fatal em Tammun
Uma testemunha contestou a versão do Exército israelense sobre o tiroteio fatal em Tammun
Foto: BBC News Brasil

Mas um morador das proximidades, que vive acima da estrada, contou à BBC que estava olhando pela janela quando o incidente aconteceu, após ouvir tiros esporádicos mais adiante. Não estamos revelando seu nome para proteger sua identidade.

Ele disse que o carro da família havia acabado de virar à esquerda para entrar em sua rua, voltado para a subida, e havia parado completamente antes de qualquer disparo, contradizendo a versão apresentada pelo Exército israelense.

A BBC perguntou se ele havia ouvido algum aviso dado pelas forças israelenses ou algum tiro de advertência.

"Não, nada", disse. "Os disparos miraram diretamente o carro. Eu apenas ouvi a mulher no carro gritando. As crianças pequenas estavam chorando antes de serem mortas."

Um relato do jornal americano New York Times descreve a mãe de Bani Odeh, Waad, pedindo ao marido que encostasse o carro na estrada para que ela pudesse procurar algo em sua bolsa.

O Exército israelense afirmou que o incidente estava sendo investigado pelas autoridades competentes.

A BBC perguntou qual era a resposta do Exército de Israel às informações de que o carro estava parado e teria sido alvo de disparos sem aviso prévio, e fomos orientados a encaminhar nossa pergunta à polícia. O Exército israelense ainda não respondeu.

Pessoas em luto se reuniram na casa da avó de Khaled e Mustafa Bani Odeh, Najah
Pessoas em luto se reuniram na casa da avó de Khaled e Mustafa Bani Odeh, Najah
Foto: BBC News Brasil

Na casa da família, Najah Bani Odeh, avó de Bani Odeh, estava sentada cercada por pessoas em luto, envoltas em xales de lã e lenços de cabeça bem ajustados nas cores preta, branca e marrom.

Ao lado dela, ocasionalmente acariciado pelas mulheres, estava Mustafa, de 8 anos.

A avó apontou para o curativo que atravessava o rosto do menino.

"São estilhaços, vidros da janela do carro quando eles atiraram", disse. "Ele precisa de uma operação para removê-los."

Ela disse que a família não sabia da existência de qualquer operação militar na vila enquanto voltava para casa.

"Eles estavam passando pela área da escola onde as forças especiais estavam escondidas. As crianças estavam cantando e se divertindo. Mohammed, que estava na pré-escola, estava sentado entre a mãe e o pai quando foram atingidos pelos tiros."

Ela disse que Mohammed caiu no colo de Mustafa quando o tiroteio começou, cobrindo as roupas de Mustafa com sangue.

Mustafa Bani Odeh, 8, ficou ferido por estilhaços de vidro de uma janela quebrada
Mustafa Bani Odeh, 8, ficou ferido por estilhaços de vidro de uma janela quebrada
Foto: BBC News Brasil

Hassan Fuqoha, um dos integrantes da equipe de ambulância do Crescente Vermelho Palestino chamada ao local, disse à BBC que a cena havia sido completamente diferente de outros incidentes aos quais havia atendido, e que ambos os pais e uma das crianças estavam com parte da cabeça dilacerada.

"Vi muitos estojos de balas, por toda parte ao redor do carro", disse. "Foi um fogo muito intenso, diretamente contra o carro, não é normal."

Moradores disseram ter encontrado mais de 50 estojos de munição de fuzis de assalto, do tipo usado pelas forças armadas israelenses, e os entregaram às autoridades.

Outro estojo ainda estava visível, preso sob escombros à beira da estrada, perto de onde manchas de sangue permaneciam espalhadas pelo chão.

O líder do partido de oposição israelense Yesh Atid, Yair Lapid, criticou o governo de Israel por não pedir desculpas à família pela morte das crianças.

"Um menino de 7 anos com necessidades especiais não deveria morrer nas guerras dos adultos", disse.

Najah Bani Odeh, avó de Mustafa, disse que há um aumento da violência contra palestinos na Cisjordânia
Najah Bani Odeh, avó de Mustafa, disse que há um aumento da violência contra palestinos na Cisjordânia
Foto: BBC News Brasil

O uso de força letal contra um carro civil que transportava quatro crianças voltou a concentrar a atenção sobre como os soldados israelenses, fortemente armados, respondem aos palestinos na Cisjordânia e sobre o que constitui uma ameaça.

Najah Bani Odeh, a avó, me disse que a morte de seu filho, da nora e de dois netos faz parte de um padrão de aumento da violência contra palestinos na Cisjordânia, tanto por soldados israelenses quanto por colonos, que se intensificou fortemente desde os ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023.

"Um colono ali sai em fúria ferindo homens, mulheres e crianças, e nós apenas nos defendemos atirando pedras", disse.

"Eles querem nos expulsar de nossas terras. Agora estão construindo muros ao redor das terras que tomaram e atirando indiscriminadamente contra qualquer pessoa que se aproxime."

Entre 7 de outubro de 2023 e 15 de março de 2026, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês) afirma que 1.071 palestinos foram mortos na Cisjordânia, incluindo ao menos 233 crianças.

O órgão afirma que 19 civis israelenses e 23 integrantes das forças de segurança de Israel foram mortos ali entre outubro de 2023 e meados de outubro de 2025.

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